RESENHA #172: RIQUEZAS DO NILO

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: A tranquilidade de um cruzeiro de luxo pelo Nilo chega ao fim quando o corpo de Linnet Doyle, uma bela e jovem milionária, é descoberto em sua cabine. Porém, para azar do autor do crime, o brilhante detetive Hercule Poirot está a bordo. Ele logo descobre que cada passageiro é suspeito, pois todos tinham motivos para tirar a vida de Linnet. Em um rio de mentiras, Poirot precisa descobrir a verdade sobre esse estranho assassinato.

Todo crime tem uma motivação, mesmo que seja acidental. Ninguém assassina alguém sem ter algum motivo, ainda que seja por tédio, amor ou luxúria. No entanto, a maior parte deles se centra em riqueza. Essa riqueza pode ser espiritual, embora a maior parte das vezes seja financeira.

Quando pensamos em riqueza, não podemos nos limitar a recursos financeiros. Nós temos muitas coisas que podemos considerar preciosas, não só diamantes. Temos amor, ciúme, ódio.Assim, uma boa parte dos crimes é passional, porque os sentimentos são a chave para desenvolver a resposta da narrativa.

Em Morte no Nilo, Agatha Christie mostra sua exímia capacidade de nos fazer questionar entre os dois motivos, qual lado da balança é o que pesa mais na hora de cometer um crime? Essa é uma resposta que pode ou não aparecer nas páginas desse romance.

Entre a sagacidade criminal elaborada pela autora, a obra traça muitos paralelos com a construção da sociedade e da própria psiquê humana. Ao elaborar a humanidade, Agatha Christie desenrola as diferentes hipocrisias e as falsas relações, bem como transita entre os nossos desejos e erros. Da mesma maneira, tratando da sociedade, ela elabora com maestria aspectos da colonização inglesa, a diferença entre a riqueza e a pobreza inglesas e egípcias às margens do Nilo. Para além disso, focaliza as diferenças entre classes sociais.

Ao tratar o assassinato de uma mulher rica, Agatha Christie também tenta elaborar uma personagem que se dizia boa demais. Como em outros romances da autora, vemos rapidamente essa máscara cair: porque não existe alguém isento. Principalmente, quando essa pessoa tem posses: é parte do desejo humano, quanto mais ter, mais querer. Esse também é um tema trabalhado magistralmente durante o decorrer da trama.

Inclusive, sendo um romance protagonizado por Hercule Poirot, o detetive mais famoso da escritora, vemos muitos dos traços de sua personalidade genial. Desde seu egocentrismo, por sempre se achar certo a respeito de tudo, até sua bondade em relação aos demais, inocentes de sua condição mundana. Poirot também coloca em cheque a relação entre a fogosidade da juventude e a perspicácia advinda com a idade. É um personagem de camadas que mostraentender que todos somos repletos delas. Essa é uma das riquezas da obra, embora muitas outras sejam buscadas.

É um livro que, para além da investigação, trabalha temas caros como ganância, amor, relacionamentos problemáticos, posições sociais, classes sociais, crítica a academia e ao falso comunismo, colonização, jogos de interesse e muito mais. Ler Agatha Christie não é só tentar desvendar um mistério, é entender a própria humanidade.

A edição da Harper Collins conta com a tradução de Érico Assis, sem grandes erros aparentes. O design clean segue o novo modelo elaborado pela editora, combinando com as demais obras publicadas.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Morte no Nilo. Tradução de Érico Assis. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2020.