RESENHA #170: O ANDARILHO SEM RUMO

AUTOR: J. R. R. Tolkien
SINOPSE: Quando tinha 4 anos, Michael, um dos filhos de J.R.R. Tolkien perdeu seu amado cachorro de brinquedo na praia. Para consolá-lo, seu pai improvisou uma história sobre Rover, um cachorro real que é magicamente transformado em um brinquedo e precisa encontrar o mago que o enfeitiçou para poder voltar ao normal. Rover pede ajuda a um feiticeiro-da-areia, que o envia à Lua e, mais tarde, ao mar.

Embora Tolkien seja conhecido por seu legado fantástico, voltado a um público adulto, através de Senhor dos Anéis, o autor produziu muita coisa destinada às crianças, principalmente, aos seus filhos. Seus primeiros ouvintes e leitores.

Ao contrário de O Hobbit em que a primeira frase surgiu numa correção de provas, Roverando, da mesma época, foi engendrado para suprir um problema de seu filho de quatro anos. Michael havia perdido seu cachorrinho de brinquedo, o qual não vivia sem. Assim, Tolkien tentou, através do que sabia fazer de melhor, contar uma história que justificasse o sumiço do brinquedo.

Contudo, ao fazer isso, o escritor britânico nos legou mais do que uma história mirabolante sobre um cachorrinho amaldiçoado, ele tratou de nos enviar direto para um mundo complementar ao que criaria em Senhor dos Anéis. E, por mais que isso possa parecer absurdo, existem algumas pistas em Roverando que unem as histórias, através da presença de elfos e localidades geográficas do universo.

Além desses easter eggs, Tolkien nos presenteia com seu conhecimento sobre mitos, lendas e também contos de fadas ao produzir referências contínuas a personagens e situações, como Merlin e um brinquedo ganhar vida. Também há um quê, a partir dessa presença, de traços da oralidade. Através das páginas, podemos observar como o autor se preocupou em manter o máximo possível do original: por vezes, conseguimos ouvir Tolkien nos contando essa história, por repetição de palavras e maneirismos. Inclusive, recomendo a leitura da obra em voz alta.

Com uma construção extremamente cativante, infantil e meiga, o escritor traz também construções linguísticas próprias do seu estilo, mesmo que em menor quantidade. Brinca com certas palavras e reinventa outras através de raízes etimológicas. O próprio nome de Roverandom é uma brincadeira muito bem marcada das aventuras do animal.

Não menos importante, em Roverando, encontramos muitas situações e criaturas similares ao Hobbit, o que faz com que uma leitura casada seja extremamente interessante de ser feita. Ainda mais considerando que ambas as histórias são destinadas e podem ser lidas por crianças.

Com um conteúdo que traz traços moralizantes, simbolismos e referências, o escritor nos mostra que a imaginação infantil se encaminha para além do limite fantástico de um adulto. Assim, sua composição é muito diferente do que alguns temem ou estão acostumados por conta de Senhor dos Anéis. É uma história para você, como Rover, viajar sem rumo, mas sempre esperando voltar para casa.

A edição apresentada pela editora Harper Collins tem o tamanho pocket, o que combina e casa muito bem com a proposta da editora: ser destinada ao público infantil e facilitá-los na hora do manuseio. A edição também agradará aos adultos que se encantam por esse universo maravilhoso de Tolkien. A diagramação é bem espaçada e as folhas são grossas, fazendo com que sua durabilidade seja maior.    

REFERÊNCIA

TOLKIEN, J. R. R. Roverando. Tradução de Rosana Rios. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2021.