RESENHA #167: OS DIABOS DA RÚSSIA

AUTOR: Liev Tolstói
SINOPSE: Em “Três mortes”, o autor examina como o final da vida pode ser distinto ao descrever a morte de uma velha senhora, de um cocheiro e de uma árvore. Os entraves da civilização e da natureza retornam em “Kholstomier”, conto sobre um puro-sangue que, para decepção de seu dono, nasceu malhado. Publicado postumamente, “O diabo” narra uma história de amor atormentada pelo ciúme, enquanto “Falso cupom” condensa as ideias do escritor sobre a religião, a utopia e o modo como a fé e o Estado se relacionam. “Depois do baile”, por fim, traz a produção tardia de Tolstói em um conto sobre política e moral, entremeado por uma paixão arrebatadora.

Ao pensar em Tolstói, a primeira coisa que pode vir a nossa mente são seus livros mais famosos, Guerra e Paz e Anna Kariênina, ambos são extremamente extensos e podem acabar afastando o público por conta disso. Mas você sabia que o autor tinha diversos contos e era um excelente contista?

O diabo e outras histórias é uma coletânea extremamente concisa, acumulando em si os principais temas da literatura tolstoiana, bem como nos demonstra a progressão artística de Tolstói como escritor. Tratando de contos de sua primeira fase até última, conseguimos vislumbrar no decorrer das páginas as suas críticas mais acirradas em relação às classes sociais; à Igreja (religião); ao Estado e à sua política de progressão; ao sistema jurídico; à moralidade; e, não menos importante, à morte. Também conseguimos, no decorrer de alguns contos, como Kholstómer e O diabo, respectivamente, observar a exclusão social e a história romântica do escritor.

Ao tratar dos contos em si, podemos definir alguns temas importantes dentro de sua literatura. Em Três Mortes, Tolstói começa a tratar de um dos temas mais presentes em seus textos: a morte; bem como não exclui a sua necessidade de questionar as classes sociais e a fé.

Assim, nesse conto, em que existem três mortes, há uma divisão social clara entre o cocheiro mujique, a dama aristocrática e, por fim, um elemento da natureza. Enquanto à segunda sofre e se resigna por sua situação, as outras duas existências aceitam-na e tornam-se úteis através daquilo que lhes pertencia ou podiam oferecer. Através disso, podemos concluir que a crítica primeva de Tolstói não é a relação entre a vida e a morte (embora apareça), mas sim em como a classe aristocrática de pouca fé não tinha nada a dar enquanto a classe desprezada dos mujiques, tal como a natureza, tinha algo a oferecer. Somado a isso, também podemos incluir, biograficamente, o fato de Tolstói, como aristocrata, invejar a naturalidade e a falta de importância que a classe camponesa dava à morte, vendo-a como natural. Mais uma vez, a morte e a natureza acabam adentrando a narrativa tolstoiana.

No segundo conto, com quê biográfico, encontramos Kholstómer, um cavalo que nasceu nobre/sangue-puro, mas que isso não importava, porque ele era malhado. Ser malhado significava dizer que ele era diferente dos demais e podia manchá-los também. Ele podia ter mais potência, sagacidade e até ser querido, porém, nunca poderia ser nada além, sendo castrado pelo que era / ignorado pelo que acreditava. Tolstói, sendo um aristocrata, fugia do estereótipo da nobreza porque acreditava que as relações de poder não eram corretas. Dessa forma, sua literatura acabou manchando os demais, cuja percepção de mundo excluía uma equidade social.

Somado a isso, encontramos também uma crítica quanto ao capitalismo e a noção de posse em relação aos indivíduos e criaturas que moram em terras pertencentes à nobreza russa, bem como a posse da própria terra em si. E, mais uma vez, encontramos a importância da utilidade com a morte (algo recorrente na literatura tolstoiana).

O terceiro conto, também biográfico, é O diabo, cuja história trata sobre temas filosóficos de cunho moral, emocional e carnal do escritor russo. Para além de ser uma biografia da vida romântica de Tolstói, a história encarna à trama um acontecimento real, em que um homem assassinou a sua amante camponesa. Tolstói, antes de se casar, havia se apaixonado por uma mulher fora da nobreza, a qual tivera um filho com ele e, até no final de sua vida, em seus diários, pensou nela, travando consigo mesmo um embate: a sua hipocrisia versus ao que criticava em relação aos demais. Assim, Tolstói trata da paixão carnal e do amor celestial, bem como das dificuldades por conta de posições sociais. Não menos importante, critica a medicina e pontua o sofrimento próprio do páthos.

O penúltimo conto, e acredito que um dos mais interessantes e filiados ao tolstoísmo – a sua crença religiosa –, é Falso Cupom. Tratando de um efeito dominó, Tolstói propõe que todo mau feito pela humanidade pode se tornar algo bom, como em um ciclo. Da mesma maneira e de forma ácida, crítica a presença tanto do Estado quanto da Igreja, fortalecendo a voz daqueles que são excluídos diante da sociedade russa. Dessa forma, trata sobre regeneração, problemas sociais e fé.

Por fim, o último conto é Depois do Baile, sendo o menor entre todos e o mais visceralmente explícito, o autor trabalha a violência militar própria e proveniente do Estado, travando, mais uma vez, a moralidade e a paixão (desejo carnal) em um dos seus personagens. Assim, o desejo configura como aquilo que pode inibir a moralidade humana e levá-lo a injustiças múltiplas. Tolstói, também e mais uma vez, repete seu discurso contra instituições.

Em cada conto, uma das fontes de poder russo é criticada: as diferenças de classes sociais através do contraste entre aristocracia e mujiques; o desejo de posse da aristocracia e a burguesia; a medicina e sua imprecisão e contraste com a fé; o abuso do Estado, do poder judiciário e da Igreja Ortodoxa Russa e dos militares.

A escrita de Tolstói é fluida e simples, embora utilize metáforas e repetições propositais algumas vezes. Por conta disso, quem quiser começar Tolstói, mas está com receio de fazê-lo pelos seus textos mais famosos, poderá encontrar um espaço em O diabo e outras histórias.

A edição apresentada pela editora Companhia das Letras está muito bem diagramada, o trabalho do posfácio também é excepcional, como a própria tradução que segue a fluidez tolstoiana. Como ponto de destaque, é perceptível a preocupação em relação à naturalidade da linguagem popular, simples e acessível.

REFERÊNCIA

TOLSTÓI, Liev. O Diabo e outras histórias. Tradução de Beatriz Morabito, Beatriz Ricci, Mayra Pinto. Posfácio de Paulo Bezerra. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.