RESENHA #166: O BERÇO DO NATAL

AUTOR: Charles Dickens
SINOPSE: Incapaz de compartilhar momentos de amizade e de compreender a magia do Natal, Ebenezer Scrooge só encontra refúgio na riqueza e na solidão. Até que, num 24 de dezembro, recebe a visita do fantasma de Jacob Marley, seu ex-sócio falecido há sete anos.
É ele quem avisa a Scrooge que mais três espíritos o visitarão para lhe dar a chance de mudar seu triste fim e ser poupado de vagar a esmo depois de morto, como Marley. Assim, o Fantasma dos Natais Passados, o Fantasma do Natal Presente e o Fantasma dos Natais Futuros levarão o protagonista para uma viagem no tempo, mostrando-lhe que a generosidade é sempre a melhor escolha.

Por tradição, existem algumas datas comemorativas que mexem com o nosso cotidiano. A maior e mais famosa delas, principalmente no Ocidente, é o Natal. São poucas as famílias nas quais a data, seja a véspera ou o próprio dia 25 de dezembro, passa despercebido (considerando a tradição cristã). E, mesmo para aqueles que não cultuam ou comemoram, algo sempre acaba se modificando, seja não ter que ir trabalhar ou até ganhar um “Feliz Natal”.

As pessoas tornam-se mais próximas, fazem-se campanhas para ajudar aqueles que estão em necessidade e todo esse caráter caridoso é retomado historicamente graças a um livro chamado Uma canção de Natal. Assim, o que é mais interessante na obra de Charles Dickens é o poder da literatura na nossa vida, considerando, também, a abrangência e acessibilidade graças à escrita leve e fluida do autor (bem como o preço pago na época de estreia).

Uma canção de Natal é um livro clássico extremamente delicado que tanto trabalha a sociedade londrina após a Revolução Industrial quanto cada um de nós, todos os dias de nossas vidas. Scrooge é um personagem avarento e ranzinza, mas o que faz a sua história soar tão comum é que todos nós nos sentimos sozinhos em algum momento e, por vezes, podemos nos sentir ou somos responsáveis por isso. Além disso, cada vez mais, vivendo no capitalismo, devotamos o nosso tempo ao trabalho do que àqueles com quem nos importamos.

Dessa maneira, ainda que criticando a sociedade londrina em que o trabalho estava acima das emoções humanas, Dickens consegue conversar com o homem moderno e a sua mensagem se torna cada vez mais necessária.

Há mais duas características que chamam bastante atenção para além da crítica social e econômica: a personalidade do protagonista e a passagem de tempo.

Em relação ao Scrooge e sua personalidade, é válido destacar que a representação do homem ranzinza e avarento se correlaciona, diretamente, tanto à sociedade quanto às pessoas da época. Scrooge é a metáfora do homem capitalista em seu mais alto grau. Somado a isso, os pequenos momentos apresentados sobre o passado da vida do personagem também nos trazem muitos ensinamentos, como: a família desestruturada, o abandono familiar, ascensão social etc.

Em relação à passagem de tempo, temos as três experiências da vida do personagem: o passado, o presente e o futuro. Através disso, conectamo-nos à sua existência no passado, entendemos o que ele perde no presente e na solidão da morte apresentada em seu futuro.

Através da noção de passagem de tempo, Dickens acaba tocando nas emoções mais profundas da humanidade, porque o tempo é algo que tememos, já que ele nos encaminha à morte, sendo este último um dos tabus da vida humana. É a partir disso, sonhando com a esperança e o legado, que o autor fortalece e engloba a sua obra no hall dos clássicos.

A tradução de Rodrigo Lacerda enfatiza a importância histórica, bem como a própria etimologia da língua. A edição conta com uma excelente introdução e ilustrações originais de John Leech que, através da sua arte, traz críticas contundentes ao personagem, transformando-o até nas feições no homem modelo da Revolução Industrial.

REFERÊNCIA

DICKENS, Charles. Uma canção de Natal. Tradução de Rodrigo Lacerda; introdução de Sandra Sirangelo Maggio; ilustrações de John Leech. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2019.