RESENHA #165: NÃO TER ESCOLHA

AUTOR: Wagner Cinelli de Paula
SINOPSE: Esta obra traz a lume o tema da violência contra a mulher, especialmente a violência doméstica perpetrada pelo companheiro ou ex. Por que a mesma boca que declarou amor passa a ofender? Por que as mãos que um dia abraçaram passam a agredir? Por que aquele que prestou cuidados à amada se torna seu assassino?

Quantas vezes você já ouviu a pergunta: “por que ela continua com ele depois de apanhar?” Algumas pessoas tiram a conclusão imediata de que a referida simplesmente gosta disso.

Mas será que isso é verdade?

Em Sobre ela, obra homônima de uma animação vencedora de prêmios, Wagner Cinelli demonstra por qual motivo essa pergunta não é tão simples de ser respondida e, tentar fazê-lo, é esquecer todo um contexto sociocultural.

Nós vivemos no Brasil, um país com altos índices de violência contra minorias sociais, compostas por pessoas LGBTQ+, negras e também de mulheres. Assim, traçando um paralelo histórico e social, pautado em dados internacionais, o autor pontua como a nossa nação possui um histórico terrível de subjugação do outro. Essa forma de agir é comportada não somente no tratamento da linguagem corporal, como também na nossa língua e o que produzimos a partir dela.

O aspecto mais chamativo da obra de Cinelli é justamente o tato ao abordar como a arte, principalmente a música, pode nos levar a ideias equivocadas em relação à mulher. Desde músicos até literatos consagrados, vemos uma contínua forma de subjugar a figura feminina e alimentar desejos e prazeres terríveis para ela, os quais não condizem com a realidade. Ao fazer isso, o autor pontua brilhantemente como uma opinião formadora de opiniões pode sim afetar a nossa sociedade e, não menos importante, como a sociedade geral ignora ou simplesmente aceita essas prerrogativas.

No entanto, algumas das citações do autor são de comportamentos de indivíduos de períodos passados, os quais, embora seja terrível, condizem com o contexto histórico que viveram. Acredito que seja importante pontuar os autores, incomodar-se, mas criticá-los como se fossem modernos tem um tom bem anacrônico. Só que, mesmo assim, as críticas são válidas e há referências atualíssimas para fazer um contraponto.

Outro teor da obra marcante é a presença das mudanças e da própria história da Lei Maria da Penha. O autor, sendo desembargador, acaba trazendo boa parte da sua formação para dentro das páginas. Contudo, mesmo alguém leigo em Direito, é capaz de acompanhar facilmente a sua linha de raciocínio.

Esse é um livro interessantíssimo para quem quiser conhecer mais sobre violência doméstica e sobre as diretrizes atuais para tratar do assunto. Sendo um texto de dezembro de 2020, agrega a si as mudanças mais recentes e é um excelente estudo para quem tem curiosidade na área. Além disso, trabalha possíveis soluções e explica que precisamos começar com a educação de jovens e entender que, muitas das vezes, a violência vem da geração anterior.

Ignorar essa violência e todo tipo de pressão psicológica que a vítima passa, é também ignorar as possibilidades da resposta à pergunta: “por que ela continua com ele depois de apanhar?”.

Porque, muitas das vezes, ela nem sequer tem escolha.

REFERÊNCIA

CINELLI, Wagner de Paula. Sobre ela. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Gryphus, 2020.

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