RESENHA #164: É RUIM DE PROPÓSITO

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: No aeroporto de Frankfurt, a viagem de Sir Stafford Nye sofre uma reviravolta. Enquanto aguarda seu voo, uma mulher o aborda dizendo estar em perigo mortal. Em um arroubo de cavalheirismo, o diplomata inglês lhe entrega o passaporte e a passagem, ajudando a jovem a escapar. De volta à Inglaterra, Nye reencontra a moça em circunstâncias misteriosas e acaba descobrindo uma conspiração internacional de grandes proporções. Existe um plano em ação para recolocar os nazistas no poder, e apenas um seleto grupo de agentes pode impedir que isso aconteça.

Agatha Christie é conhecida por seus romances policiais, os quais foram prestigiados por diversos países e que, até hoje, fazem bastante sucesso, contando com personagens icônicos como o detetive Hercule Poirot e também Miss Marple. No entanto, nem todos os livros dela são sobre detetives, velhinhas simpáticas e assassinatos.

Alguns, como Passageiro para Frankfurt, são diferentes da maioria das obras da escritora. Na verdade, ao contrário da classificação comum dada à obra, ou seja, romance de espionagem, eu diria que, na verdade, é um romance ideológico.

Agatha Christie, através das páginas dessa história, mostra o seu lado mais conservador e pessimista sobre a juventude, colocando em pauta como o marketing e os grandes empresários podem influenciar uma geração. Ainda que eu não discorde de um todo de sua opinião, até pelo contexto da década de setenta, acredito que esse viés ideológico da escritora é um tanto exagerado.

A partir disso, Agatha traz a proposta de uma revolta nazista às escondidas, pontuando teorias da conspiração da época para o retorno de um novo Hitler. Essa característica histórica é, hoje, muito utilizada por autores de romances policiais ou históricos, como Ken Follett, mas não tão comuns na época de Christie. Além disso, esse tipo de proposta demonstrava o maior receio da escritora quanto ao rumo da vida cotidiana, tanto é que há uma introdução concisa sobre a proposta dela para a história em questão. Esse livro é para ser, estruturalmente, problemático e com um desfecho decepcionantemente fantasioso.

Claramente, é fantasioso, desconexo e com diversos furos no enredo, não existem explicações quanto a tentativas de assassinato e nem outros fatores que comprometem, mais a frente, a estabilidade do enredo. Porém, devo ressaltar que, aos meus olhos, isso é proposital. O livro é tecnicamente ruim, porque ela via a vida ruim; a solução é absurda e abrupta porque Agatha Christie não via solução nenhuma que não fosse fantasiosa ou milagrosa.

Como uma das últimas obras e sem precisar marcar seu nome na história, Agatha Christie não arriscou em dizer o que pensava, nem mesmo por construir uma história malfeita, ela simplesmente expressou suas frustrações na página e deu certo, de certa forma, e deu errado, de outra

Entretanto, embora a estrutura seja ruim, é também necessário relatar o quanto ela é interessante. Primeiro porque Agatha usa e abusa de referências literárias e políticas, como, por exemplo, Shakespeare e 1984, de George Orwell. Cita as loucuras descabidas de Alice no País das Maravilhas e traz referências de contexto equivalentes a Laranja Mecânica. Para além disso, em segundo lugar, ela traz a estrutura do bobo da corte e, para quem conhece peças de teatro, sabe que esse personagem é um crítico sagaz, cujo entretenimento dele é fazer piada com as coisas negativas que aconteciam entorno da monarquia.

Agatha Christie nos coloca na perspectiva do bobo da corte: tudo é bobo e fantástico, mas extremamente crítico. E isso não quer dizer que você é obrigado a concordar com ela em tudo, mas vale pensar nas indagações sobre as relações humanas, a política e a própria moralidade.

A nova edição de capa dura, produzida pela Harper Collins, conta com a tradução e comentários de Bruna Beber, os quais são concisos em relação ao lado conservador da escritora e também consideram a idade de Christie (80 anos). O material é de qualidade e a diagramação é confortável.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Passageiro para Frankfurt. Tradução de Bruna Beber. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2021.