RESENHA #163: PERCALÇOS DA MATERNIDADE

AUTORA: Ashley Audrain
SINOPSE: Blythe Connor está decidida a ser a mãe perfeita, calorosa e acolhedora que nunca teve. Porém, no começo exaustivo da maternidade, ela descobre que sua filha Violet não se comporta como a maioria das crianças. Ou ela estaria imaginando? Seu marido Fox está certo de que é tudo fruto do cansaço e que essa é apenas uma fase difícil.

Conforme seus medos são ignorados, Blythe começa a duvidar da própria sanidade. Mas quando nasce Sam, o segundo filho do casal, a experiência de Blythe é completamente diferente, e até Violet parece se dar bem com o irmãozinho. Bem no momento em que a vida parecia estar finalmente se ajustando, um grave acidente faz tudo sair dos trilhos, e Blythe é obrigada a confrontar a verdade.

Neste eletrizante romance de estreia, Ashley Audrain escreve com maestria sobre o que os laços de família escondem e os dilemas invisíveis da maternidade, nos convidando a refletir: até onde precisamos ir para questionar aquilo em que acreditamos?

A nossa sociedade é patriarcal. Essa é uma afirmação óbvia e simples, mas, para quem não entende o que isso significa, basta dizer que é uma sociedade em que o poder masculino está no centro e, nas arestas, encontra-se a mulher subjugada a tudo aquilo que é ditado como certo ou não em relação aos seus direitos, deveres e escolhas.

E, bem, quem disse que a mulher tem escolhas?

Claro que, na prática cotidiana, podemos sim escolher o que queremos ser, o que queremos fazer, ainda mais nos dias atuais. No entanto, talvez, muitas das escolhas que façamos não sejam realmente escolhas que tomamos, mas sim fazemos porque precisamos agradar a alguém ou a toda a sociedade.

O modelo tradicional da família patriarcal é o pai, como centro de poder econômico e do lar, a mãe, subjugada a esse poder de dominância enquanto educa as crianças, e seus filhos (se for um casal, ainda melhor). Esse modelo tradicional é perpetuado por séculos e também aparecerá nas páginas de O Impulso.

Audrain escolhe esse modelo não por mero acaso, mas sim para mostrar como o papel da mulher, principalmente da mãe, se dá na sociedade (afinal, ao se tornar mãe, você perde o estatuto de mulher). Faz isso através da narração de Blythe, uma narradora não-confiável de uma família desestruturada por gerações.

Justamente por essa desestrutura familiar e pelo passado sombrio de sua mãe e avó, histórias intercaladas à sua no decorrer das páginas, o drama psicológico ganha um caráter de thriller. Blythe duvida da sua sanidade, das suas escolhas e de seus próprios olhos a todo momento, porque, antes de se colocar no papel de mãe que a sociedade a impõe – principalmente o seu marido, Fox – ela se coloca no papel de filha, de como ela foi a filha desprezada por uma mãe ruim. Esse aspecto é interessante dentro da obra, porque, ao contrário de livros, como Precisamos falar sobre Kevin, que pontuam as malícias infantis, O Impulso traz à tona o papel da mãe em si na sociedade.

Assim, não é sobre a criança ser ou não violenta, cometer ou não um crime e a responsabilidade da mãe em relação a isso, mas sobre a mulher, a maternidade e principalmente a construção e idealização desse “amor maternal/instinto materno” promovida como propaganda para que mais e mais mulheres escolham ter filhos.

A narrativa extremamente fluida e direta de Audrain remete ao ciclo vivido por mulheres. Na mesma medida, trata sobre a objetificação feminina em prol da fertilidade, o apagamento do discurso através das falas do marido, problemas de trauma pós-parto e, principalmente, trabalha o mito de que a maternidade é uma bênção sem defeitos.

Embora eu tenha encontrado dois problemas de continuidade da narrativa em si, essa é uma obra que preza pela linearidade dos fatos, constrói bem seus personagens e faz com que a sucessão dos acontecimentos tenha sentido. Contudo, por mais que ele tenha essa quase impecabilidade e críticas bem interessantes e contundentes, O Impulso não necessariamente será um livro a cativar o leitor, para alguns, ele pode ser arrastado; para outros, elétrico. É um bom livro para ler e refletir sobre a posição feminina na sociedade, discuti-la, mas só.

REFERÊNCIA

AUDRAIN, Ashley. O Impulso. Tradução de Ligia Azevedo. Prova antecipada. São Paulo: editora Paralela, 2021.