RESENHA #162: O MUNDO ESTÁ MUDANDO

AUTORA: Virginia Woolf
SINOPSE: Tudo se passa num dia de junho de 1923. Clarissa, esposa de Richard Dalloway, membro do Parlamento britânico, sai para comprar flores para a festa que dará à noite. No caminho passa por algumas das ruas centrais de Londres e por dois de seus principais parques, encontrando o amigo Hugh Whitbread. Seu trajeto cruza com o de outro personagem central, Septimus Warren Smith, que, acometido de um sério trauma de guerra, encaminha-se, com a esposa que conheceu na Itália, Rezia, para uma consulta com um importante psiquiatra.Já em casa, Mrs Dalloway recebe a visita de um antigo namorado, Peter Walsh. Deixando a casa de Clarissa, ele empreende sua própria caminhada por Londres, regressando, depois, ao seu hotel, de onde sai, ao final da tarde, para a festa da antiga namorada. O romance culmina na festa de Mrs Dalloway, onde se encontram pessoas de suas atuais relações, como o próprio Primeiro-Ministro, e pessoas de seu passado: além de Peter Walsh, também Sally Seton, uma paixão da adolescência.

Quando experienciamos uma história, muita das vezes, ficamos preocupados com spoilers, certo? Isso se deve, sobretudo, ao fato de que essas tramas possuem o intuito de contar uma sucessão de acontecimentos que farão sentido e surpreenderão – ou assim se pressupõem – o leitor. Esses fatos são o centro da narrativa, o que buscamos ao ler esses textos.

Mas se o que importa não são os fatos, mas o que está por detrás deles? Mais ainda, o que está na mente dos personagens? O que eles pensam, quem eles são e o que aconteceu para serem assim ou pensar dessa maneira?

Woolf, como Joyce, possui o talento primoroso e cinematográfico de nos levar além do mero enredo, transforma-nos em espectadores de consciências. Assim, através de uma narrativa de fluxo de consciência em terceira pessoa, o narrador nos encaminha por um dia de junho de 1923.

Esse é um livro bipartido, em que o enredo é ordinário, simples e comum. Dessa forma, os acontecimentos – pequenos momentos da vida cotidiana – não têm de fato importância. No entanto, os dois núcleos da narrativa, representados por Clarissa Dalloway e Septimus Warren-Smith, possuem um aprofundamento psicológico estrondoso

É através dessa divisão de potencialidades e decadências que a trama de Woolf vai ganhando as suas camadas e críticas, as quais permeiam os dois personagens principais e todo o elenco que está por detrás deles. Cada um deles, em algum momento, terá seu espaço, terá sua voz no decorrer das páginas, o que mostra a genialidade de Woolf: todos possuem pensamentos próprios, complexidades e inseguranças.

Ao se tratar de um momento pós-guerra, a escritora opta por tratar, principalmente, da instabilidade política e social tanto da elite quanto daqueles que não fazem parte dela. Tanto essa instabilidade quanto os traumas da guerra afetam todos os personagens, embora alguns sejam mais óbvios do que outros.

Para além da complexidade da narrativa, através das constantes mudanças de consciência, flashbacks e da própria narrativa ser de fluxo de consciência, Woolf apresenta, como sempre, críticas quanto à posição da mulher na sociedade; à política; à guerra; aos tratamentos psiquiátricos; à sexualidade; ao próprio tempo etc.

Por conta disso, acho necessário destacar dois aspectos a respeito dessa obra. O primeiro deles é o nome dos dois personagens principais. Clarissa significa “aquela que é clara, que é brilhante e ilustre”, no entanto, considerando as críticas de Woolf quanto ao posicionamento da mulher, Clarissa – de acordo com Peter, antiga paixão da personagem – deixou de ser tudo o que ela poderia ser para estar ao lado de Richard, apagada de sua própria intelectualidade, desperdiçada para ter segurança no matrimônio.

Considerando uma sociedade em que a mulher não podia nem sequer ter suas próprias posses, ser si mesma sem depender de um homem, algumas das escolhas da personagem, por mais que soem fúteis aos demais que a cercam, acabam se tornando claras para o leitor. Através do núcleo de Clarissa, é possível notar qual era o espaço da mulher e como suas potencialidades, em prol da segurança, eram desperdiçadas.

Por sua vez, como a outra parte da moeda e núcleo da narrativa, encontramos Septimus, cujo sobrenome é comum, mas o primeiro nome nos fala sobre “totalidade, perfeição, consciência, sacralidade, espiritualidade”, mas também representa a “renovação, movimento cíclico”, adquirindo tanto um cunho positivo quanto negativo, caso consideramos os sete dias, as sete cores do arco-íris e os sete pecados capitais.

Dessa maneira, enquanto Clarissa é o movimento incompleto e tem seu final aberto, Septimus encerra seu ciclo, trazendo a totalidade que falta em Mrs Dalloway. Ele representa a consciência da guerra, a instabilidade da totalidade, a imperfeição do que se considerava perfeito, porque o mundo está mudando.

Ele, como Clarissa, é um personagem cuja vida tinha potencial, mas que não se cumpriu, porque a sociedade precisava que ele fosse algo, mas algo que ele não conseguia ser. Já Clarissa, como mulher, percebeu que a sociedade precisava que ela fosse algo e, como sempre, ela como mulher teve que se habituar a ser.

O segundo aspecto que acho necessário destacar é a importância do tempo e da memória, bem como da saúde mental. Através da fala de alguns personagens e do próprio desenrolar do fluxo de consciência, temos o contraste entre a mocidade de Elizabeth e a meia idade dos demais personagens, os quais tiveram a possibilidade de dizer, de sentir, de fazer, mas não conseguiram ultrapassar as barreiras impostas, seja por eles ou pelo que era considerado correto. Mas que, ainda assim, rememoram, tanto o que foi quanto o que poderia ter sido. Dessa forma, Woolf fala sobre as possibilidades também: sejam elas do passado ou do futuro, já que a linearidade do tempo não é uma das preocupações da trama.

Não menos importante, a saúde mental é um tema que se correlaciona ao tempo, à vivência da memória, pois os desgastes mentais enfrentados pelos personagens se devem, sobretudo, às escolhas que fizeram e que foram feitas para e por eles. Somado a isso, fica claro o posicionamento da escritora quanto a como eram conduzidos os procedimentos para lidar com a psiquê humana. 

A edição da editora Autêntica traz uma excelente tradução e ótimas – e informativas – notas de Tomaz Tadeu, uma diagramação fácil e uma jacket muito bonita. A edição de capa dura tem uma excelente qualidade, desde o material da capa até o das folhas. Para além do material gráfico, engloba uma introdução da própria Virginia Woolf e um texto de apoio capaz de auxiliar aqueles que tiveram dificuldade no decorrer da leitura.

REFERÊNCIAS

CHEVALIER, Jean. GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.

WOOLF, Virginia. Mrs Dalloway. Tradução e notas de Tomaz Tadeu. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

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