RESENHA #161: AMO-O E ODEIO-O

AUTORA: Alexandre Dumas
SINOPSE:“O conde de Monte-Cristo” gira em torno de Edmond Dantè, que é preso por um crime que não cometeu. Ao sair da prisão, Edmond vai à busca de vingança contra seus inimigos. Uma trama repleta de reviravoltas dignas de um jogo de xadrez.

Quantas histórias sobre vingança e aprisionamento já tivemos a oportunidade de ler durante as nossas vidas? E o quanto elas foram capazes de nos tocar e, ainda mais, cativar? Talvez tenham sido muitas; ou até poucas, mas acho que uma das certezas da vida é que são raras as histórias que mexem com o leitor como O conde de Monte Cristo.

Tratando da minha opinião pessoal, como uma releitura, a obra de Alexandre Dumas se tornou controversa: eu a amo enlouquecidamente; a odeio fervorosamente. E esses sentimentos conflitantes se devem, sobretudo, à riqueza apresentada pela história e sua magnitude. Se ela não fosse tão incrível, meus sentimentos não seriam tão fortes.

No entanto, acho que é necessário explicar o motivo pelo qual o amor e o ódio se intercalam dentro dessa narrativa, o que acredito ser mais plausível do que incompreensível.

Amo-a, particularmente, porque o Alexandre Dumas consegue nos levar, de maneira fluida e engenhosa, para dentro da vingança de Edmond Dantès, mostrando-nos as oscilações sociais e os jogos políticos hipócritas da época, bem como trata sobre temas caros, como a justiça, a vingança e o perdão. O conde deixa de ser um prisioneiro injustiçado para ser um homem rico cada vez mais ambíguo – mas nunca no limite supostamente imposto por Dumas – que luta contra três classes dominantes: os banqueiros, os militares e os juízes. Assim, o cenário francês apresenta-se sobre todas as formas possíveis, dando um valor histórico primordial à obra.

No entanto, na mesma medida, odeio-a. Esse ódio advém do fato de ter me sentido enganada pelo autor quando li a trama pela primeira vez. Torcer para o conde completar a sua vingança é uma das ambições de Dumas para o romance publicado em formato de folhetim – o que explica a sua grossura –, porém, ao fazer isso, o autor demonstra uma divinização ao personagem que não condiz com algo positivo, muito pelo contrário. Entender as atitudes de Edmond e percebê-las compreensíveis em relação aos acontecimentos, faz todo sentido, mas o narrador defender tais ações e colocá-lo divino e correto não. Além disso, por conta da formação do próprio Alexandre Dumas, as personagens femininas são menosprezadas pela sua aparência ou colocadas como santificadas pela devoção ao ser masculino.

Essa representação do feminino somado ao narrador tentar justificar as atitudes do personagem mostram a França da época, mas também pontuam diferenças entre ele e autores contemporâneos, como Victor Hugo. No entanto, mesmo com todas as críticas e erros cometidos pelo autor, por exemplo, cronologia de acontecimentos e algumas vinganças não serem tão bem formuladas ou até terem um exagero sem sentido, o autor nos cativa, impressiona e nos faz ler muitas e muitas páginas sem nos darmos conta.

Tive contato com ambas as traduções, tanto a do André Telles com o Rodrigo Lacerda – tradução que rendeu um prêmio Jabuti – quanto a de Herculano Villas-Boas. Todas as duas traduções são ótimas, o trabalho de diagramação é maravilhoso, ainda que a versão comentada da Zahar ganhe pontos por trazer detalhamentos e explicações a mais, bem como ilustrações. No entanto, o leitor pode ficar tranquilo e adquirir qualquer uma das versões.

REFERÊNCIAs

DUMAS, Alexandre. O conde de Monte Cristo: edição comentada e ilustrada. Tradução, apresentação e notas de André Teles e Rodrigo Lacerda. 3ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

DUMAS, Alexandre. O conde de Monte Cristo. Tradução de Herculano Villas-boas. 1ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2017.