RESENHA #159: O APELO DA AIA

AUTORA: Margaret Atwood
SINOPSE: O conto da aia se passa num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no Muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Para merecer esse destino, não é preciso fazer muita coisa – basta, por exemplo, cantar qualquer canção que contenha palavras proibidas pelo regime, como “liberdade”. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América.

Tudo o que temos, nós podemos perder.

Ao dizer isso, não falo de objetos ou quinquilharias, mas de direitos e deveres como cidadãos. Na verdade, o status cidadão também pode desaparecer num piscar de olhos, como ocorreu com as mulheres durante a Revolução Islâmica e também na adaptação literária O conto da aia.

Baseado em acontecimentos reais, seja na execução dos fatos ou até nas propostas elaboradas dentro da história para a criação de Gilead, Atwood traz um cenário terrivelmente palpável. Essa história ainda não aconteceu no Ocidente, mas pode vir a ocorrer, sendo assim, a escritora canadense utiliza como palco o país mais rico do mundo e também aquele capaz de proporcionar o que conhecemos como “sonho americano”: os Estados Unidos da América.

Dessa forma, o país que antes proporcionava ao indivíduo a liberdade de ser quem ele quisesse, slogan convincente para os imigrantes, passa a ser aquilo que o estado teocrático de Gilead permite que ele seja. A diferença entre liberdade de e liberdade para é um dos questionamentos críticos da escritora no decorrer da narrativa.

Gilead possui um significado duplo, já que tanto é um refúgio de cura quanto um lugar para conhecer os preceitos bíblicos. Essa terra é o exemplo e também a salvação dentro dos padrões adotados pela Bíblia. Por isso, não é de se estranhar essa mudança de nomenclatura marcada pela Atwood, considerando a queda da natalidade, o desejo de melhora em relação a sociedade e também o fato de ser o único país a adotar essa percepção social.

Outro detalhe que não é estranho advém do fato da aia não ter nome. Dar nome a alguém ou alguma coisa é conferir-lhe um estatuto de importância que era negado às mulheres, tanto as aias quanto as marthas ou as tias. Toda a estrutura social de Gilead influencia tanto na relação construída entre as mulheres quanto no silenciamento, ódio e inveja. Por conta disso, muitos consideram O conto da aia uma história feminista, porém, em discordância, devo dizer que não é uma história feminista, mas possui um apelo feminista. A diferença se deve, sobretudo, à dinâmica apresentada até o final do enredo e também ao apêndice final extremamente esclarecedor.

O conto da aia é uma obra muito bem elaborada, contando com uma atemporalidade que trata sobre a natureza humana e como as relações políticas se constroem. Além disso, como os jogos de poder entre gêneros se manifestam. Social e filosoficamente, a narrativa de Atwood traz, assim como 1984, um estudo antropológico muito bem embasado.

Hoje, vivemos em um cenário em que política e religião estão cada vez mais unidos, trazendo líderes populistas que usam discursos religiosos para a permanência ou ascensão ao poder. Tais aspectos eram comuns em culturas antigas, como o Egito, porém não deveriam ser normalizados nos dias atuais. Entretanto, por mais que Atwood tenha escrito esse romance em 1985, ele possui uma presença cada vez maior no cenário estadunidense e mundial.

A escrita de Atwood, tal como de Woolf, é trazida através de fluxos de consciência da personagem protagonista e narradora. Assim, em alguns momentos, a obra pode soar confusa, mas, aos poucos, os fluxos vão se tornando regulares e mais compreensíveis. Somado a isso, entende-se a necessidade deles através do desenvolvimento narrativo e das progressões e digressões da aia, na tentativa de comparar o passado com o presente.

Não menos importante, um dos questionamentos externos mais interessantes da obra é a sua classificação de gênero. Embora pesquisadores considerem O conto da aia uma ficção-científica, Margaret Atwood não, colocando-o como ficção especulativa, já que trata sobre as possibilidades/especulações quanto ao futuro. Assim, por se tratar de um futuro distópico, muitos o englobam em uma caixa, mas, no meu ponto de vista, a escritora tem razão de não englobar seu livro num caixote tão abrangente enquanto tem um texto único e que merece um espaço só seu.

A edição apresentada pela editora Rocco traz a tradução de Ana Deiró, contando com um material resistente e folhas de qualidade. A capa possui referências bíblicas que não são literais na narrativa, mas metafóricas.

Por fim, lembre-se: essa é uma obra que clama por prestarmos atenção aos apelos da aia; não à construção de Gilead.  

REFERÊNCIA

ATWOOD, Margaret. O conto da aia. Tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.