RESENHA #157: SURPRESA NOSTÁLGICA

AUTOR: William Peter Blatty
SINOPSE: Inspirado no caso real do exorcismo de um adolescente, o escritor William Peter Blatty publicou em 1971 a perturbadora história de Chris MacNeil, uma atriz que sofre com inesperadas mudanças no comportamento da filha de 11 anos, Regan. Quando todos os esforços da ciência para descobrir o que há de errado com a menina falham e uma personalidade demoníaca parece vir à tona, Chris busca a ajuda da Igreja para tentar livrar a filha do que parece ser um raro caso de possessão. Cabe a Damien Karras, um padre da universidade de Georgetown, salvar a alma de Regan e ao mesmo tempo tentar restabelecer a própria fé, abalada desde a morte da mãe.

É interessante perceber como o nosso imaginário é povoado pela indústria do cinema, além da nostalgia a respeito daquilo que recordamos com carinho ou medo. Muito provavelmente, esse foi o motivo principal para O Exorcista ser um livro tão surpreendente.

Um leitor isento de opiniões ou experiências anteriores, talvez, não se surpreenda tanto com a execução da história, bem como, muito provavelmente, não será surpreendente para aqueles que conhecem os dogmas religiosos propostos pela Igreja quanto à prática do exorcismo. Só que, (in)felizmente, é impossível que eu transmita a vocês uma percepção isenta dessa surpresa. O que, ao mesmo tempo, é positivo e negativo.

A característica positiva tem por cerne, sobretudo, o fato de que a história pode ser lida por aqueles que antes a temiam, por ser similar àquela memória terrível da adaptação; negativa, porque é surpreendente como a execução da trama não te leva ao medo, mas à reflexão. E, para quem achava o contrário, saber que não tem o intuito de gerar medo pode tirar essa imprevisibilidade.

Mas, mesmo sem a imprevisibilidade do medo, a trama criada por Blatty é, por si só, um poço de qualidades. A começar por sua narrativa extremamente fluida, o autor possui uma escrita visual, capaz de levar o leitor a se imaginar na ação ao lado dos personagens; utiliza – e muito – do trato psicológico para se firmar entre a realidade psíquica e o medo sobrenatural; e, não menos importante, constrói uma crítica familiar surpreendente através de uma criança solitária, uma mãe solteira e um pai ausente.

A desestrutura familiar é o princípio e também parte da problemática, bem como a presença e ausência da fé religiosa pelos padres. Girando em três núcleos diferentes – o problema de Regan, a Igreja e a investigação policial –, a obra se destina a problematizar nossas percepções de bem versus mal.

Em relação aos dados psicológicos e ao trato que o autor dá quanto a isso, não há dúvida de que Blatty faz um trabalho excepcional. Também utiliza o cenário cinematográfico e o estrelato para fazer alusão a uma Hollywood já pré-disposta a julgamentos, bem como a mulher no mercado de trabalho e a percepção do mundo a respeito desse fenômeno.

No entanto, é necessário avisar que a obra pode conter gatilhos aos sensíveis quanto a crianças. Como Regan é uma menina, a trama acaba gerando desconforto em relação ao que ocorre com ela, desde o comportamento até algumas cenas focadas na presença demoníaca. Assim, a narrativa não é recomendada para esse público, já que possui cenas de violência física e emocional.

A edição apresentada pela editora Harper Collins tem como tradutora Carolina Caires Coelho, fazendo um ótimo trabalho. A diagramação é de excelente qualidade tal como a capa, sendo esta dura e também com pintura trilateral.

REFERÊNCIA

BLATTY, William Peter. O Exorcista. Tradução de Carolina Caires Coelho. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2019.