RESENHA #155: LINDOS E DESTRUÍDOS

AUTORA: Taylor Jenkins Reid
SINOPSE: Todo mundo conhece Daisy Jones & The Six. Nos anos setenta, dominavam as paradas de sucesso, faziam shows para plateias lotadas e conquistavam milhões de fãs. Eram a voz de uma geração, e Daisy, a inspiração de toda garota descolada. Mas no dia 12 de julho de 1979, no último show da turnê Aurora, eles se separaram. E ninguém nunca soube por quê. Até agora.
Esta é história de uma menina de Los Angeles que sonhava em ser uma estrela do rock e de uma banda que também almejava seu lugar ao sol. E de tudo o que aconteceu ― o sexo, as drogas, os conflitos e os dramas ― quando um produtor apostou (certo!) que juntos poderiam se tornar lendas da música.

Há personagens, cuja personalidade é tão palpável, mas tão palpável que acabamos por nos questionar se eles de fato existem. Assim, buscamos nas redes sociais ou até mesmo nas páginas de pesquisa. Não achamos nada, somente percebemos o quanto o autor ou a autora fez um trabalho magistral.

Reid possui essa capacidade. Ao publicar Os sete maridos de Evelyn Hugo, a escritora deu vida a uma personalidade cinematográfica inexistente na nossa realidade; agora, repete o feito ao trazer não só uma, mas uma banda inteira de pessoas possíveis e bem construídas. O seu segredo, embora pareça complexo, é muito simples: a verossimilhança da sua narrativa se dá porque utiliza características boas e negativas na construção dos personagens, sem transformá-los e estereotipá-los em cem porcento em alguma coisa. Todos somos um pedaço da nossa desgraça e alegria.

Embora alguns sejam mais uma coisa do que outra.

Ao repetir a fórmula apresentada em Os sete maridos, Reid não traz uma novidade marcante ao enredo de Daisy Jones & The Six, pelo contrário, reproduz boa parte dos mesmos dilemas em um cenário, agora, voltado à indústria musical ao invés da cinematográfica. Contudo, inova ao reproduzir um texto documentário. Ainda que seja um estilo já conhecido, a proposta casa perfeitamente bem com o intuito ambíguo apresentado pela autora: nenhum dos personagens é confiável, por isso, por mais que as situações narradas se assimilem, são apresentadas sob diferentes pontos de vista. Essa diferença nos mostra as suas personalidades, as verdades e as mentiras possíveis por detrás de suas palavras. Com isso, podemos pressupor que uma banda não pode falar por si mesma, mas seus coadjuvantes, principalmente Camila, sim. Eles, por vezes, podem ser mais centrais que a própria banda.

Da mesma forma que Os sete maridos de Evelyn Hugo, Daisy Jones mira e acerta em polêmicas, a começar pelas bases familiares e desestruturadas, encaminha-se para os problemas da aceitação do eu e da posição social, bem como sobre o uso de entorpecentes, o amor conjugal e a traição. Questiona, como princípio, dois temas feministas marcantes até hoje: a mulher na posição de poder (não mais Musa inspiradora, mas artista); e a maternidade.

Há todo tipo de pessoas, todo tipo de mulheres, então, por que limitá-las a uma só vivência? Esse questionamento é importante e atemporal enquanto não entendermos e aceitarmos que o outro é diferente de quem somos.

Daisy Jones & The Six é uma trama muito bem elaborada, com uma base de informações coletadas pela autora muito confiável. Sendo assim, é possível se sentir imerso nesse ambiente tóxico e instigante enquanto visualiza essas figuras cara a cara através do papel. Elas vão lhes contar, através de uma perspectiva pouco confiável, as suas amarguras, loucuras, paixões e desgraças.

REFERÊNCIA

REID, Taylor Jenkins. Daisy Jones & The Six. Tradução de Alexandre Boide. 1ª ed. São Paulo: editora Paralela, 2020.