RESENHA #154: UM HOMEM BOM

AUTOR: Trent Dalton
SINOPSE: A vida de Eli Bell é complicada. Ele não conhece o pai, sua mãe está na cadeia e seu padrasto é um traficante de heroína. O adulto mais estável na vida de Eli é Slim — um notório criminoso famoso por ser o maior recordista de fugas de prisão do país — que cuida de Eli e August, o menino gênio que fez voto de silêncio e irmão mais velho de Eli.

Exilado no subúrbio de Brisbane, o garoto de doze anos de alma velha e mente adulta quer apenas seguir o seu coração, descobrir o que significa ser um bom homem e começar sua carreira jornalística. A vida, no entanto, insiste em colocar obstáculos no caminho de Eli — sendo que o maior deles é Tytus Broz, o lendário traficante de drogas de Brisbane.

Você já se perguntou o que é ser “um homem bom”? Talvez, para alguns, possa parecer muito óbvio a priori, mas há uma questão que pode quebrar toda a lógica que construímos no decorrer da vida: uma questão de perspectiva.

Nossa perspectiva é moldada por aquilo que vivemos, a forma como nos relacionamos, etc. A perspectiva de bem e mal também é um padrão social de prestígio ou não. Se pensamos em um traficante, provavelmente, a primeira palavra que pode vir a nossa mente é: um homem ruim, mal ou um péssimo exemplo. Afinal, que traficante é bom, não é mesmo? Mas e se ele cuida de duas crianças que não são dele e arrisca a própria vida para fazer isso por não encontrar outro meio?

Mas há outros meios, não é?

Assim, entramos em uma discussão sobre valores morais e possibilidades sociais. Com isso, abordamos aspectos de cada sociedade, desde sua cultura até a sua história, como ocorre no decorrer da obra Garoto devora universo.

Dalton traz uma estrutura narrativa singular, apropriando-se de uma escrita extremamente poética e metafórica, ao mesmo tempo, em que as passagens de capítulos combinam com a maneira que vemos o decorrer do nosso tempo afetivo. Nossa infância parece mais longa que nossa adolescência e a fase adulta, certo? O autor privilegia essa estrutura de realidade dentro do texto, construindo um início extremamente lento que, passo a passo, começa a ganhar mais rapidez e fluidez. Essa medida se dá a partir não só dos fatos, mas do amadurecimento do personagem protagonista e narrador.

Outro estranhamento da narrativa é a abordagem dos cartéis australianos. Embora conheçamos, na realidade brasileira, a estrutura do tráfico, pouco sabemos como ele funciona em países de primeiro mundo como a Austrália. Além disso, o autor aborda um bairro mais pobre e também periférico ao que geralmente temos acesso quando pesquisamos sobre o país. Assim, Dalton, em uma espécie de autobiografia, trabalha a sociedade que cresceu e conheceu de perto.

Essa realidade dura e crua australiana entra em confronto com o teor mágico apresentado no decorrer das páginas, através da presença do irmão de Eli, August. August é um personagem extremamente ambíguo, podendo ser considerado paranormal ou normal, ficando ao critério do leitor pensar se há ou não algo sobrenatural na história.

Intercalada a essa magia, se assim podemos chamar, há uma infância extremamente complicada. Eli e August possuem diversos traumas da primeira infância que afetam sua percepção de mundo, principalmente, em relação à paternidade.

A paternidade é um tema exaustivamente trabalhado no decorrer do livro, em que a responsabilidade do homem, não somente do pai, entra em cheque toda vez que algo ruim ocorre. Eli, por conta de seu passado, toda vez pressupõe que algo de ruim aconteceu porque um homem fez isso ocorrer. Essa estrutura, por mais que seja compreensível na mente do personagem, pode soar machista em alguns momentos, já que desresponsabiliza as mulheres de seus atos.

Garoto devora universo é uma narrativa que tem um ritmo próprio, fazendo com que os leitores demorem a se engajar na leitura. Contudo, é uma trama que vale a pena ser conhecida porque traz muito conhecimento sobre o subúrbio australiano, os homens e também sobre a nossa noção de bondade. Afinal, o que é um homem bom?

A edição de brochura traz uma diagramação pouco espaçada e com tamanho de fonte pequeno em comparação a outras literaturas do gênero, fazendo com que o livro pareça menor. No entanto, por mais que tenha alguns erros básicos de digitação, a tradução está muito boa e é uma excelente experiência cultural para quem quer conhecer outra perspectiva da Austrália.

REFERÊNCIA

DALTON, Trent. Garoto devora universo. Tradução de Regiane Winarski. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2019.