RESENHA #152: CÃES QUE MORDEM

AUTOR: Federico Finchelstein
SINOPSE: Neste livro breve mas abrangente, o historiador de renome mundial Federico Finchelstein explica por que os fascistas consideravam mentiras simples e muitas vezes odiosas como verdade, e por que muitos de seus seguidores acreditavam em suas falsidades. Ao longo da história do século XX, muitos defensores das ideologias fascistas consideraram mentiras políticas como a verdade encarnada em seu líder. De Hitler a Mussolini, os líderes fascistas capitalizaram com a mentira como base de seu poder e de sua soberania popular.

Antes, durante e depois das eleições, devemos nos questionar o poder do nosso voto. Contudo, acima de todas as perguntas que devemos fazer a respeito do nosso cotidiano e de como melhorá-lo, precisamos pensar o que é verdade e o que é mentira naquilo que ouvimos, lemos ou vivemos.

Atualmente, é muito difícil definir o que é ou o que não é verdade. Há manipulação de imagem, voz e até mesmo daquilo que lemos constantemente. O que é uma fonte confiável? A quem devemos recorrer para saber se tal assunto condiz com a realidade? Então, brilhantemente, Finchelstein, baseado em autores como Arendt, diferencia a verdade e a realidade.

A verdade pode – e muita das vezes é – subjetiva. Ao contrário da realidade, a verdade pode ser aquilo que acreditamos como real. Essa ideia de que, por mais absurda que possa parecer na realidade, na nossa cabeça uma mentira pode vir a ser uma verdade inquestionável, realmente acontece. Acreditamos naquilo que queremos acreditar e não importa o que a ciência diz se assim pensarmos.

Pode parecer uma loucura? Para muitos, com certeza é, mas definir esse padrão como loucura torna-se um dos questionamentos do autor. Inclusive, pautado em como os fascistas viam até mesmo a psicanálise freudiana, Finchelstein nota que deduzir loucura nesse padrão comportamental é negar a influência que ele pode ter nas camadas populares que são racistas ou estão desesperadas por uma solução dos seus problemas. Chamar de loucura um processo de crendice é negar o poder do mito, da potência divina que populistas e fascistas adquiriram e aprenderam a reproduzir.

Dessa forma, o autor traz um panorama histórico a respeito de como as relações humanas e políticas se dão no decorrer da vida humana, focalizando, em nível global, os regimes em que a mentira ganha o estatuto de verdade. Mesmo que a mentira seja óbvia, muitos acreditam; mesmo que a mentira seja absurda, muitos seguem o líder que a proclama simplesmente por enxergar nele uma autoridade divina.

Esse processo pautado em padrões do inconsciente é explicado pelo autor argentino, trazendo-o para o nosso cotidiano a partir da presença de figuras como Donald Trump e também Jair Bolsonaro.

Comparando o populismo apresentado pelos presidentes atuais com o processo fascista, o autor estabelece a diferença entre esses dois modelos: o primeiro, pertence aqueles que dizem; o segundo, aqueles que fazem. Então, esperemos que os cães só ladrem e não mordam o sistema democrático.

A edição da Vestígio é muito bem diagramada, no entanto, pessoalmente, não gosto quando as obras trazem as notas no final e não, na mesma página. Isso atrapalha o desenvolvimento e o envolvimento com a leitura. Quase não há erros, assim, a tradução de Mauro Pinheiro encaminha o leitor a conhecer o nosso passado enquanto questiona o presente.

REFERÊNCIA

FINCHELSTEIN, Federico. Uma breve história das mentiras fascistas. Tradução de Mauro Pinheiro. 1ª ed. São Paulo: Vestígio, 2020.