RESENHA #149: SER-VIVA NA MORTE

AUTORA: Yangsze Choo
SINOPSE: Até que a morte os aproxime “Certa noite, meu pai me perguntou se eu gostaria de me tornar uma noiva fantasma…” 1893. Li Lan é uma jovem que recebeu educação e cultura, mas que vive sem grandes perspectivas depois da falência de seus pais. Até surgir uma proposta capaz de mudar sua vida para sempre: casar-se com o herdeiro de uma família rica e poderosa. Há apenas um detalhe: seu noivo está morto.

Você acredita em vida após a morte? Desde os antigos egípcios, essa é uma crença comum: de que, após os dias vividos na terra, você será encaminhado para um julgamento e, depois, poderá continuar sua jornada pelo mundo dos mortos. Outras culturas e mitologias manifestaram crenças similares, como os persas e os gregos.

Na cultura oriental, mais especificamente malaca-chinesa, apresentada na obra de Choo, não é diferente. A cultura chinesa se consolidou fortemente nos lugares que hoje conhecemos como Malásia e Cingapura, embora houvesse misturas locais com a cultura europeia; e é nesse espaço que a obra A Noiva Fantasma amarra sua trama e define os seus laços histórico-sociais.

A primeira informação que chama atenção na história contada por Choo é o fato de a cultura em destaque não ser a que costumamos vislumbrar e sim, uma vertente muito similar à cultura praticada na China. Em seguida, aos poucos, conhecemos um pouco desse universo mitológico e das múltiplas crenças que, em 1893, uma pessoa – numa cultura extremamente miscigenada entre oriente e ocidente – podia ter.

Dessa forma, muito de historiografia, geografia e antropologia é utilizado no decorrer da narrativa publicada, traduzida e editada pela Darkside. Choo não economiza espaço no momento de explicar a história cultural de Malaca e também das suas relações com o continente europeu e asiático, fazendo de seu livro, ao meu ver, uma fantasia histórica muito similar a Golem e o Gênio, trazido para o Brasil pela mesma editora.

Tanto quanto a obra de Wecker – Golem e o Gênio –, a trama de Choo foi uma aposta muito acertada, justamente pelo fato de ter um enredo muito bem elaborado e amarrado. Assim, é possível encontrar um misto de informações reais – históricas – e fantasiosas – provindas da crença popular do povo daquele período – conectadas à imaginação da autora.

Além desse grande atributo, A Noiva Fantasma conta com personagens coerentes com seu passado histórico e também social. Por exemplo, é crível que um rapaz mimado queira se vingar do seu primo charmoso; a menina repleta de cultura e educação voltadas às figuras masculinas de seu tempo, capaz de ler e escrever, seja ingênua por falta de vivência de mundo; o pai desolado pela avaria de uma doença perca o que pode ou não pode nos negócios; a amah, que perdeu os amores da vida para a morte, agarrar-se às crenças populares e a religiosidade. Todos os personagens possuem sua verossimilhança numa excelente construção e caracterização. Embora, por vezes, possam soar maniqueístas, eles não o são.

Trazendo o romance na medida certa, Choo não cai nos clichês românticos de mocinhas indefesas, comuns a alguns dramas históricos e romances de época, ainda que seu par romântico tenha o seu lado clichê. Dessa maneira, ela aborda uma protagonista ingênua sim, mas que tenta achar respostas por si e para si mesma num período em que isso não era permitido às mulheres. É o tipo de personagem que idealiza as relações amorosas, mas que é capaz de se desprender dos ideais sexistas de seu tempo e cair na realidade.

Ou na fantasia.

Numa mistura de fuga da idealização, reencontro familiar e embate religioso, Choo traz o universo dos mortos e os rituais fúnebres comuns até hoje na cultura chinesa, mesclando a história e as múltiplas religiões e crenças praticadas pelo povo de Malaca. É uma leitura agradável e instigante, não só por ser repleta de magia, mas por conter em si o mais empolgante de um romance policial: a investigação para achar culpados e respostas enquanto é “ser viva na morte”.

Por fim, deve-se ressaltar que a edição da Darkside está praticamente impecável, com exceção de alguns erros de revisão. O material gráfico é excelente e a edição conta com notas adicionais no fim, as quais complementam a experiência e ensinam a cultura trabalhada. No entanto, devo informar que a pequena exposição de como realizar a dobradura de um tsuru é extremamente vaga.

REFERÊNCIA

CHOO, Yangsze. A Noiva Fantasma. Tradução de Leandro Durazzo. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2015.