RESENHA #148: FORA DE CONTROLE

AUTORA: Rebecca Serle
SINOPSE: Onde você se vê daqui a cinco anos? Dannie Kohan sabe exatamente o futuro que deseja e o que deve fazer para conquistá-lo. Depois de arrasar na entrevista para seu emprego dos sonhos em um dos maiores escritórios de advocacia de Nova York e de ser pedida em casamento pelo namorado, ela vai dormir com a certeza de que está no caminho certo para realizar todos os seus planos.  

Quando acorda, entretanto, ela está em um apartamento diferente, com outro anel de noivado no dedo e um homem que nunca viu antes ao seu lado. A televisão mostra que é a mesma noite — 15 de dezembro —, mas cinco anos no futuro.  

Depois de uma hora intensa e chocante nesse cenário, Dannie acorda de novo, de volta ao presente, como se nada tivesse acontecido. Profundamente abalada e sem entender o que houve, ela decide acreditar que foi apenas um sonho, por mais realista que tenha sido. E parece funcionar. Isto é, até quatro anos e meio depois, quando  Dannie encontra o homem que viu naquela noite inusitada.  

Ao mesmo tempo divertida e emocionante, Daqui a cinco anos é uma história sobre lealdade, amor, amizade e a natureza imprevisível do futuro. 

O que você faria se pudesse ter acesso a um dia do seu futuro, mas ele não fosse nada do que você tivesse planejado? Uma pessoa espontânea talvez conseguisse apenas aproveitar o momento; só que Danielle Kohan não é espontânea.

Desde a morte de seu irmão, Dannie sabe exatamente os passos que quer dar, quando quer dá-los e a ordem em que deve fazer isso para que absolutamente nada saia de seu controle. Conseguir seu emprego dos sonhos, ficar noiva de David, casar-se com ele e morar no bairro de seus sonhos. Esses são os passos que, aos vinte oito anos, está pronta para (e certa de que deve) dar.

Por isso, quando sem querer cochila na noite de seu noivado e acorda cinco anos no futuro, em um loft desconhecido, ao lado de um homem que nunca viu, Dannie tem a única reação possível: surtar. Quando finalmente acorda e se vê ao lado de David, convence-se de que tudo não passou de um sonho muito insano e impossível, por mais real que tenha parecido; e mantém-se convencida disso por quatro anos e meio, até que, numa noite, Aaron, o homem de seu sonho, aparece em carne e osso na sua frente.

Por mais que eu ame negar, continuo sendo (repetidamente e de forma vergonhosa) conquistada por enredos envolvendo triângulos amorosos. Mas, poucas vezes, levo um tapa na cara tão forte como o que Daqui a cinco anos fez questão de me dar. Quando a obra de Rebecca Serle caiu nas minhas mãos, com aquela capa simples e encantadora, eu não fazia ideia do peso que ela representaria, de como seria simples e complexo lê-la – linhas e entrelinhas.

A primeira coisa que me sinto obrigada a informar sobre o livro é: não o julgue pela sinopse. Ele não é um romance centrado no dilema de Dannie, nem mesmo num triângulo amoroso típico. Na verdade, a história passa bem, bem longe disso.

Ainda assim, para os fãs do gênero, ele é um livro sobre amor –  sobre todo tipo de amor, embora destaque a amizade (o mais importante e lindo deles). Também preciso ressaltar que é uma obra sobre o futuro, com seu total e completo descontrole. Não controlarmos a vida faz com que saber do futuro torne-se um grande fardo.

Embora eu não tenha enfrentado uma perda como a de Dannie, pelo menos não em uma idade em que eu fosse capaz de compreender a dor e a grandeza do que eu estava perdendo, eu entendo sobre a necessidade de controle. Acho que, por conta desse motivo em especial, a obra conversou intensamente comigo, apesar de não ser nada realmente inovador. Não há nenhum elemento no enredo e em seu desenvolvimento que eu já não tenha visto antes, mas, ainda assim, vê-los reunidos, transmitindo a mensagem que Serle nos transmite, mexeu comigo em um nível muito pessoal.

O que Daqui a cinco anos grita é: o destino não segue agendas e planos. Não há horários marcados para tudo dar certo ou errado; você pode lutar intensamente por uma coisa, acreditar que está no caminho certo para ela e, no fim, chegar a um lugar completamente diferente. Você nunca vai poder compreender e controlar a vida totalmente, porque ela é assustadora assim: um trem desgovernado no qual embarcamos no nascimento e ao qual estamos sujeitos.

Dannie tem o vislumbre de um dia de um futuro no qual, aparentemente, perdeu o controle, já que seus planos (David, casamento, etc.) pareciam ter ido pelos ares. Com isso, ela enlouquece, especialmente quando conhece o Aaron de verdade. No entanto, o quanto um dia é capaz de dizer sobre o que veio antes dele e o que virá depois? Um momento específico é capaz de sozinho dizer tudo o que nos conduz a ele? O suposto triângulo amoroso que imaginei ao ler a sinopse é apenas uma desculpa para esses e outros questionamentos.

Antes de encerrar esse texto, quero voltar ao que eu falei sobre a amizade ser o amor mais bonito retratado no livro. Danielle tem uma amiga de infância, Bella, que é seu completo oposto e talvez por isso seja a pessoa que mais a completa. A relação das duas é uma das mais, senão a mais, importante de todo o livro. Acompanhar o amor que uma nutre pela outra, o carinho e o cuidado que se dedicam, é precioso e valeu cada página – mesmo as que me deram alguma raiva.

Não vou insinuar que Daqui a cinco anos é uma espécie de obra prima sem defeitos. Na verdade, é um livro bem comum, com algumas cenas e explicações bem contestáveis. Às vezes, é dramático além do recomendável. No entanto, a mensagem que traz é, sim, uma mensagem poderosa, que passa bem longe da simplicidade que a sinopse faz supor. Embora não seja inovador, é o tipo de texto já lido que sempre pode ganhar novas perspectivas. Por isso, é uma leitura que acho que vale muito a pena, não por ser leve, mas por ser o tipo de peso que, às vezes, é necessário carregar.

REFERÊNCIA

SERLE, Rebecca. Daqui a cinco anos. Tradução de Alexandre Boide. 1ª ed. São Paulo: Paralela, 2020.