RESENHA #147: OS TROPEÇOS DA VIDA

AUTORA: Lucy Maud Montgomery
SINOPSE: Com 18 anos, Anne Shirley agora é aluna do Redmond College, na movimentada cidade de Kingsport, onde estão também seus amigos de Avonlea, Priscilla Grant e Gilbert Blythe. Anne conhece pessoas interessantes, faz amigos, incluindo a rica, charmosa e indecisa Philippa Gordon. Na companhia deles, vai estudar e experimentar uma nova e emocionante vida social, com danças, jantares e jogos de futebol. Independente e atraente, a jovem conquistará muitos admiradores e receberá pedidos de casamento.

Suas aventuras românticas são cheias de drama e suspense, da primeira à última página do livro. Muitas vezes, no entanto, as lágrimas cedem lugar às gargalhadas, como quando Anne e suas amigas se mudam para uma casa pequena e adorável, em uma rua nobre de Kingsport, e um gato de rua rouba seu coração.

Os anos de faculdade certamente serão divertidos, mas serão também um tempo para investigar a própria alma e tomar grandes decisões. Anne descobrirá, da maneira mais difícil, que talvez seu coração não esteja batendo de acordo com sua mente. A vida em Kingsport será para ela uma rica jornada de descobertas e crescimento pessoal.

Todos já paramos para pensar sobre a brevidade da vida, sobre o quanto as coisas mudam constantemente e nós somos incapazes de controlar. Essa montanha-russa faz parte das melhores e também das piores coisas que podemos enfrentar. Claro que alguns podem levar isso como negativo; outros, por sua vez, verão algo positivo nisso tudo enquanto idealizam a tragédia e se alegram com a comédia.

Anne com E é do segundo tipo. Embora tenha amadurecido e esteja vivenciando cada vez mais experiências novas, a protagonista de Anne de Green Gables, no terceiro volume da série, intitulado Anne da Ilha, continua uma sonhadora incontrolável – e isso é tanto para o bem quanto para o mal da narrativa.

Dessa vez, Anne irá à universidade, o que é extremamente moderno para o seu período histórico. Com isso, Montgomery continua a sua proposta feminista e a frente do seu tempo, que já vinha se apresentando nas obras anteriores, como Anne de Avonlea. Continuar com essa proposta permite mostrar a evolução do público feminino daquele período, bem como as pessoas que eram avessas a perspectiva de mulheres estudando até o ensino superior.

Esse é um ganho aliado à sororidade apresentada no decorrer da história, em que nenhuma figura feminina reduz a outra independente da situação. Por mais que o cenário propicie uma rivalidade, ela não acontece. Assim, a autora ganha destaque em relação a outros romances de época do seu tempo e também atuais.

Outro ponto positivo da narrativa é a divisão muito bem marcada entre todos os exemplares, visto que a autora tenta propiciar ao leitor a experiência de viver cada etapa separadamente. A infância, a adolescência e, nesse, o início da fase adulta. A partir disso, encontramos questões pertinentes, como: encontrar a si mesmo, tornar-se independente, amadurecer longe da família, entender as mudanças do mundo e também a brevidade do tempo. É interessante observar como Montgomery irá trabalhar o passado refletido no presente e, também, a vida e a morte em paralelo.

Contudo, embora tenha muitos pontos positivos em relação à parte acadêmica e de desenvolvimento feminino, o romance em Anne da Ilha deixa a desejar, justamente porque soa desnecessário (considerando o final do segundo livro, Anne de Avonlea). Todas as dúvidas da personagem refletidas na sua idealização e a realidade do mundo, debatidas na obra anterior, retornam de maneira incoerente, justamente porque ela já teve esse conflito anteriormente.

Além disso, há mais dois aspectos incômodos na trama. O primeiro se define a partir das passagens de tempo, as quais se tornam cada vez mais espaçadas. Dessa forma, perdemos muito dos quatro anos de Anne como estudante universitária, durante os quais poderíamos entender o processo da Academia e de como funcionava a presença feminina na universidade no princípio, quais preconceitos sofriam dentro da cidade (já que os do campo foram debatidos). Assim, quem já estava desgostoso em relação a esses times skip, ou seja, saltos na passagem do tempo, vai ter um leve desprazer com esse volume. O segundo, embora já aparecesse levemente nos outros volumes, define-se a partir de uma quantidade de cenas e situações um tanto forçadas, como milagres financeiros e de saúde que claramente foram postos para resolver situações desnecessárias.

Entre todos os volumes até então, esse foi – estruturalmente – aquele que se tornou incômodo, no entanto, ainda é uma leitura rápida e agradável para quem quer passar o tempo e se divertir. A edição da editora Autêntica continua com uma excelente diagramação, bem como com a tradução incrível da Márcia Soares Guimarães, mostrando a fluidez e a simplicidade da escrita original da Montgomery. Embora essa edição quase não tenha detalhes em alto-relevo, a capa segue o padrão das demais com um design elegante.

REFERÊNCIA

MONTGOMERY, Lucy Maud. Anne da Ilha. Tradução de Márcia Soares Guimarães. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.