RESENHA #146: ALMA GÊMEA DO “EU”

AUTOR: Virginia Woolf
SINOPSE: Virginia Woolf considerava “simples brincadeira de criança”, “as férias de uma autora”, “uma escapadela depois desses livros sérios de experimentação poética, tão exigentes em matéria de forma”, “uma narrativa ao gênero de Defoe” para diverti-la, ela brinca com toda a seriedade não apenas com o leitor, a literatura e a pessoa biografada (no mundo chamado real, sua amiga e amante, Vita-Sackville West). Do mesmo modo que uma criança brinca (também com toda a seriedade) a fim de apreender o mundo em que vive e aprender a lidar com ele, ela busca captar nuances do ser a partir de temas como a história, as convenções sociais, as leis que governam os homens, os costumes de seu país, a política, o amor, o poder, a morte, o casamento, a busca de liberdade, a fantasia e a realidade, a busca de uma unidade identitária, a pluralidade de “eus”, as diferenças de sexo e gênero, a natureza e a civilização, o tempo, a geografia. E, mais que tudo, a própria literatura.

Em O Banquete, texto de Platão, Aristófanes nos conta sobre o “mito da alma gêmea”. Zeus, frustrado e irritado, tenta tornar os mortais mais fracos. Sendo assim, outrora, criaturas de quatro braços e quatro pernas foram divididas e se tornaram dois seres incompletos que passaram a buscar seu par eternamente. Contudo, esses dois podem ser divididos em homem-homem, mulher-mulher e homem-mulher.

Ao ler Orlando: uma biografia, em toda sua complexidade, muitas das referências gregas que eu conhecia me vieram à mente. Não só porque Orlando, protagonista, era um poeta que gostava dos mitos e escrevia sobre eles, mas porque a androginia presente na obra sempre me recordava essa passagem do diálogo platônico. Também, não se pode esquecer, pelo fato de essa história ser considerada “a mais longa carta de amor da literatura”, destinada à Vita Sackville-West (amiga e amante da autora).

Só que Woolf, na condição de mulher suprimida, foi além e viu perspectivas que Platão, como homem de seu tempo, não conseguia enxergar. Na minha concepção, a escritora, brincando de fazer uma biografia, provavelmente para importunar seu pai, primeiro editor da Dictionary of National Biography, questiona os gêneros, seja textual ou sexual, bem como toda a percepção da sociedade.

Orlando é, além de carta, além de brincadeira, um livro que critica não a sociedade, mas a percepção de mundo que a sociedade traz. Tudo é arbitrário, nada é natural. Seja a inferioridade feminina, seja a construção de sexualidade dos homens ou até a própria noção de tempo.

Quando Einstein escreve que o tempo é relativo, ou seja, o passado, presente e o futuro são apenas uma maneira de perceber a realidade, Woolf constrói uma biografia na qual trinta anos são trezentos, na qual o tempo que passa para uns, não passa para outros. Outra possível prova de que o texto não abarca uma temática social, mas todas juntas, é a própria temporalidade do texto.

Essa noção se espelha nas diferentes sociedades, do século XVI ao XIX, em que Orlando contracena ora como ator, ora como atriz (nem sempre convincente nos seus múltiplos papéis). Ao fazer esse panorama, Woolf demonstra que as diferenças entre homem e mulher se constroem a partir dos pressupostos do coletivo, não no próprio indivíduo. O mesmo se dá às ações destinadas aos homens e as mulheres, na função de dominador e de submissa corroboradas socialmente. Também, e não menos importante, ao mercado editorial-literário que evoca o prazer da leitura de textos de autoria masculina e passada, partilhando de um ponto de vista dominante. O passado evocando o belo, o bom e o melhor em contraponto com as mudanças gradativas da sociedade que, pouco a pouco, vão gerindo possibilidades à sensibilidade feminina.

Orlando também é uma ode à natureza e à memória que, na mistura de ficção histórica, mera ficção e biografia, traça as definições possíveis de realidade e não-definições da sociedade, bem como formula a proposição do Eu, ou melhor, dos seus Eus. Enquanto Platão e seus contemporâneos pensavam na completude através da alma gêmea, Virgínia Woolf entende que para alguém ser completo, deve acalentar e aceitar não o próximo, mas o seu Eu-atual e seus outros Eus do passado. O ser humano é repleto de múltiplas camadas, os seus dois lados: feminino e masculino. Sem sobrepor, só coexistindo.

A edição da Martin Claret traz a tradução da Eliane Fittipaldi e da Katia Orberg. Foi uma obra revisada inúmeras vezes, ao ponto de vez ou outra vermos as marcas da revisão esquecidas no texto. É uma edição com uma tradução riquíssima, na medida do possível, e com algumas notas de rodapé complementares. Além disso, possui um prefácio incrível escrito por Fittipaldi que nos faz pensar e repensar o texto (recomendo como leitura posterior à obra). 

REFERÊNCIA

WOOLF, Virginia. Orlando: uma biografia. Tradução e notas de Eliane Fittipaldi Pereira e Katia Maria Orberg. São Paulo: Martin Claret, 2019.