RESENHA #145: AOS VITORIANOS, CUIDADO!

AUTOR: Charles Dickens
SINOPSE: Considerado o maior escritor inglês da era vitoriana e admirado por Dostoiévski e Van Gogh, Charles Dickens, de todas as suas obras, tinha uma favorita: David Copperfield. Neste romance de formação, em muito inspirado na vida de seu autor, acompanhamos o amadurecimento e a tumultuosa jornada de David, um menino nascido à meia-noite de uma sexta-feira — o que, segundo a superstição, o condenaria a ser infeliz. Em uma narrativa repleta de tensão, encontramos não apenas personagens memoráveis, mas também um retrato contundente da realidade social da época.

Há, no âmbito literário, referências a estruturas de histórias e classificações que nos fazem compreender o intuito de uma obra, até mesmo a sua proposta, antes mesmo de começarmos a leitura. Por isso, um livro pode ser melhor para alguns, pior para outros. Tudo é uma questão de perspectiva quando se trata de gostos literários.

Contudo, nem todos possuem acesso a esse conhecimento de saber o que é o que, onde cada coisa vai e por qual motivo classificaram aquilo de um jeito ou de outro. Assim, também fica difícil entender por que um livro tem tantas tramas enquanto outros só tem meia dúzia.

Ainda mais alguns como David Copperfield, do Charles Dickens.

O livro favorito de Dickens, não à toa, é uma trama que surgiu de um folhetim. Na classificação, folhetim é uma narrativa novelesca que saía de tempos em tempos em um jornal ou uma revista. Tal como os seriados de hoje, que tomam duas, três ou dezessete temporadas, os folhetins tinham o intuito de serem longos, terem muitos personagens e desenvolverem muitas críticas. É por isso que obras como Anna Kariênina, O Conde de Monte Cristo e David Copperfield são tão extensas, complexas e lembram bastante as famosas novelas.

Além disso, David Copperfield também é classificado como um “romance de formação”, dizê-lo é entender que vamos acompanhar o protagonista desde sua infância até sua fase adulta. Assim, vamos ver a formação de conceitos, caráter, moralidade, entre outras coisas. O romance de formação é uma proposta que acaba circundando não só o personagem principal da narrativa, mas a sociedade em que ele vive. Afinal, somos também o que nosso meio nos ensina, não é verdade?

Isso serve inclusive para o autor. Na construção, a obra antes de ser um romance de formação em modelo folhetim, é uma autobiografia ficcional. Partes da vida de David Copperfield são memórias de Charles Dickens, mesmo que não retratem exatamente a realidade. Uma amostra essencial disso é que as iniciais do protagonista são as mesmas de Dickens, só que ao contrário.

Dessa maneira, encontramos não um personagem autocentrado, mas um jornalista que observava a sociedade à sua volta, tal como o próprio autor. David Copperfield observa a diferença de status da sociedade, bem como a desigualdade social e o que essa desigualdade acarreta para alguns que, sem o privilégio de nascença, não conseguem espaço para crescer. Com isso, vemos uma crítica ácida à sociedade vitoriana e também à indústria.

Entre todas as críticas, que são muitas, as que mais saltam aos olhos são as feitas : (1) ao trabalho infantil, tanto que foi por essa época que surgiu uma lei que inibia a quantidade de tempo de labuta, bem como a obrigatoriedade de estudos para crianças; (2) ao puritanismo, na presença do padrasto de David; (3) ao matrimônio e ao feminino, desenvolvendo personagens femininas convictas e brilhantes, bem como empoderadas (com exceção de duas); (4) à desigualdade social, pela presença de ricos e pobres duelando pelo espaço social; (5) ao sistema educacional, na diferença entre três modelos de ensino; entre outras.

Por conta do olhar de Dickens para todas as classes, bem como a mudança do cenário educacional, obras de folhetim eram para um público mais amplo do que a aristocracia. Assim, a linguagem do autor é fluida, leve e fácil. Não só porque era o seu estilo literário, mas também porque era dessa forma que ele poderia alcançar várias camadas sociais com seus posicionamentos. Sem elitismos, Charles Dickens quis mostrar a todos que o mundo precisava mudar para melhor.

Os personagens são bem construídos e suas personalidades casam perfeitamente com as tramas elaboradas pelo o autor. No entanto, há um maniqueísmo tangente em algumas obras da literatura francesa e inglesa, caso de Dumas e Dickens, que fazem com que ambos os textos tragam personagens heroicos e bons, contrários àqueles que são malévolos. Só que, nesse sentido, eles inovam pensando que a bondade e a maldade não são inerentes às classes sociais, mas advém do caráter e da moralidade do indivíduo.

A edição utilizada para essa leitura foi a versão disponível da Nova Fronteira. A tradução do Costa Neves é de qualidade, só que traduz os nomes de alguns personagens, como Agnes e Emily. Com exceção disso e de alguns pequenos erros, a edição vale a pena. Ela, ao contrário de outras versões, é dividida em um box com dois livros, o que facilita na hora da leitura.

REFERÊNCIA

DICKENS, Charles. David Copperfield. Tradução de Costa Neves; introdução de Josué Montello. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.