RESENHA #143: AO MODERNO DECADENTE

AUTOR: Charles Baudelaire
SINOPSE: O poeta e crítico Charles Baudelaire marcou as últimas décadas do século XIX e As flores do mal é sua obra prima. Julgado imoral para a época, o livro levantou polêmica e despertou hostilidades na imprensa. Baudelaire e seu editor foram processados e, além de pagar multa, tiveram que reimprimir a obra, excluindo poemas da primeira publicação. Nesta edição, disponibilizamos para o leitor a versão completa de As flores do mal, com os poemas censurados e os incluídos posteriormente. A primorosa tradução é de Mário Laranjeira, professor da Universidade de São Paulo.

Muitos estudiosos comentam que o mal do século é a depressão, o homem sujeito a sua própria psique e perdido no miasma da sociedade enquanto tenta encontrar a felicidade. E se eu dissesse que, em Flores do Mal, Charles Baudelaire despontava como um precursor dessa percepção?

Contudo, ao reler a obra baudelairiana, fiquei atenta a detalhes de sua lírica que antes não tinha notado. Ao criticar a sociedade de seu tempo, Baudelaire dá as primeiras amostras de um homem decadente, de um herói corrompido pelo que o cercava através das divisões temáticas de sua obra. Ele, como homem e herói perdido, constantemente, estava tentando encontrar algo. Algo que pode ser ou não corpóreo, algo que pode ser ou não a solução às aflições que o dominavam por completo.

Ao contrário dos românticos, poetas anteriores, observando o que o passado lhes tinha feito de mal, o escritor, ao meu ver, notava o que lhe fazia mal naquele momento e o quanto isso se relacionava à sociedade em que vivia. Nas flores que destoavam de suas cercas e desabrochavam com uma fragrância venenosa, as classes sociais se marcavam de maneira degradante e as hipocrisias morais estavam no pico junto das revoluções econômicas do período.

É também o instante do dândi, do nobre que perde sua pompa; é o momento de a poesia erudita ganhar camadas de podridão temática, mesclando a lírica e tornando-a nova e única no período; é o segundo em que a sociedade culmina para a decadência pura e simples da humanidade, pela angústia e melancolia geridas nessa construção social capitalista e produtora.

Ao reler Flores do Mal, na tradução de Laranjeira, relembrei as impurezas e problemas da França dessa época, mas, como uma novidade, pensei que Baudelaire nos traz em sua lírica o momento de transição do homem de ontem para o que ele se tornou o que é hoje: frágil, perdido em si mesmo. Talvez seja por isso que Walter Benjamin, o mais consagrado especialista do poeta, comenta a importância da literatura baudelairiana para definirmos a modernidade e o seu mal-estar.

Ler Charles Baudelaire é enfrentar o nosso vazio existencial, a melancolia e angústia que invade nosso âmago, é lembrar da nossa podridão e corrupção. Ao mesmo tempo, é aproveitar uma lírica similar a poesia clássica, que referencia constantemente a mitologia greco-latina e o cristianismo. É literatura de alto nível sintático e do mais terrível grau semântico.

É uma literatura imoral e recusada por aqueles incapazes de enfrentar as próprias hipocrisias. É uma literatura que já foi proibida enquanto devia ser consumida, pois fala da transição do homem e do seu momento de ruptura consigo mesmo.

A minha primeira experiência com o poeta foi através da tradução de Jamil Almansur Haddad, a qual me impactou o suficiente para me fazer refletir a sociedade, embora talvez eu não tivesse maturidade o suficiente para entender suas profundas complexidades. A versão atual é a segunda produzida pela editora Martin Claret, com a tradução – e similaridade sintática impressionante em relação ao poeta – de Mário Laranjeira.

O material da edição é de excelente qualidade e a própria diagramação e capa são realmente excepcionais. Ao meu ver, o único defeito da edição é não ser bilíngue, o que auxiliaria perceber o ótimo trabalho do tradutor. O texto introdutório comenta sobre algumas das traduções brasileiras da obra baudelairiana, pontuando detalhes sobre a tradução da edição atual que fazem total diferença.

REFERÊNCIA

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mário Laranjeira. 2ª edição. São Paulo: Martin Claret, 2019.