RESENHA #142: ESPECTROS E FANTASMAS DA VELHICE

AUTOR: Yasunari Kawabata
SINOPSE:Completamente fora de si, o velho Eguchi resolve se aventurar em uma casa onde paga-se para observar jovens virgens dormindo.

Devo iniciar essa resenha dizendo que esse é provavelmente um dos livros mais perturbadores que eu já li. Publicado em 1961, A Casa das Belas Adormecidas foi a obra que inspirou, anos mais tarde, o mundialmente aclamado Memórias de Minhas Putas Tristes do escritor Gabriel García Márquez. Não é um enredo agradável, especialmente se você for uma mulher ou um idoso.

O senil Eguchi passa a conhecer, através da recomendação de um amigo, uma casa onde homens acima dos 60 anos podem observar jovens virgens adormecidas e onde possuem a oportunidade de dormir ao lado delas. Curioso e inicialmente cético, o velho resolve fazer uma visita à casa e experimentar os eventos a ele descritos em primeira mão.

A cada noite, ele encontra diferentes moças e, através delas, reencontra mulheres que de alguma forma marcaram o seu passado. O que há em comum entre os fantasmas de seu passado e essas meninas é o que o assola: a distância, a solidão. Mãe, filhas, amores cujos momentos divididos pertencem a um passado inalcançável. A partir do primeiro encontro noturno, Eguchi exporá ao leitor discussões que conectam intrinsecamente a velhice, a masculinidade e a morte. Tudo isso enquanto nos fechamos (e afligimos) num pequeno cômodo com moças inconscientes, em meio a cortinas carmesim e cobertores elétricos de um minúsculo hotel à beira-mar.

A crítica subjetiva, máxima e poderosa se dá quanto à objetificação da mulher e nos reflexos da fragilização da masculinidade do homem com o passar do tempo. O medo do envelhecimento é um sentimento que aflige a grande maioria dos seres humanos, pois os efeitos irreversíveis do tempo implicam em pensamentos negativos envolvendo aspectos físicos e mentais (perda da mobilidade, dificuldades de memória e raciocínio, doenças degenerativas, fatores estéticos) que levam, na cultura brasileira de modo geral, a construção de uma certa apatia e desinteresse pelos idosos na sociedade. Similarmente, no Japão existe também a ideia do idoso como um “inútil” que pode morrer pois a sociedade não teria a necessidade de sustenta-lo. Tal pensamento é terrivelmente comum e leva muitos idoso ao suicídio.

Dessa forma, uma observação que não pode passar despercebida é a de que homens e mulheres enfrentam a velhice de formas muito distintas, especialmente porque deve-se levar em consideração o modelo patriarcal no qual estamos inseridos – Japão, Brasil e a grande maioria dos países no mundo – em que o homem é o simbolismo supremo da virilidade, que se personifica através da sexualidade.

Mas, para evitar o constrangimento aos velhos que não eram mais homens, fizeram dela um brinquedo vivo. Não um brinquedo propriamente dito, mas talvez a própria vida para esses velhos. Talvez a vida que eles pudessem tocar com tranquilidade.

Portanto, no trecho acima, fica evidente que a atividade sexual não é praticada, mas que a figura feminina inconsciente, incapaz de reagir com a típica aversão associada à figura idosa, serve como um ato de incontestável dominância. Com a moça desacordada, o velho pode fazer o que quer. Há a supremacia do masculino e do velho sobre o feminino e a juventude. Contudo, a vitória se transforma em melancolia, pois, ao cultuar as formas e a inocente indiferença das belas adormecidas, Eguchi compreende, cada vez mais, o quanto a velhice é solitária e de quais maneiras ele foi responsável por esse sentimento no decorrer dos seus relacionamentos.

Ao longo da narrativa, acompanhamos as tentativas do senhor em acordar as jovens, numa busca desenfreada por fazer com que “os mistérios daquela casa” perdessem o seu sentido. Como se, ao acordar as moças, ele se visse livre da maldição e da vergonha, devolvendo a elas o prazer da liberdade e a consciência de que não deveriam estar ali, a mercê de uma lista de “pobres velhotes”.

Vale ressaltar que o perfil de Eguchi é de um rebelde leviano. Sempre que imposições lhe são postas, ele busca ou, ao menos, questiona-se, sobre formas de desviar do que é esperado de um senhor da sua idade. Exemplos claros estão no fato dele enfiar o dedo na boca de algumas meninas adormecidas, o que lhe é mencionado como algo a não ser feito na fala de abertura do livro. Fica evidente ao leitor o desejo do idoso pelo outro, a necessidade de um contato que exceda o físico, uma conexão que atinja o mundo das emoções. Parte do fascínio que mantém o velho preso a casa vem do poder evocativo que as jovens adormecidas exercem nas memórias dele.

A partir de então, estabelece-se um jogo magnético que oscila entre a atração e a aversão sempre que Eguchi é tentado a trespassar as regras da estranha casa de uma forma ou de outra. Entretanto, os maiores e mais infames atos contra a casa (o assassinato e o estupro), que lhe garantiriam a expulsão do estabelecimento e simultaneamente a ruina da casa, Eguchi não tem coragem de cometer.

Em meio à contradição moral, o leitor se vê dividido entre a pena, a melancolia e a repulsa; e ficamos ululando tal qual as ondas que Eguchi repetidamente ouve quando está dentro do pequeno quarto. Às Belas Adormecidas, nenhum príncipe. Pois não há, naquela casa e em nenhuma parte do mundo, um toque ou um beijo abusivo, na calada da noite dado por um completo estranho, capaz de despertar o amor de uma mulher desacordada.

REFERÊNCIA

KAWABATA, Yasunari. A Casa das Belas Adormecidas. 7ª ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.