RESENHA #141: DEUS-MULHER E SEM DEUS

AUTOR: Hilda Hilst
SINOPSE: Aos sessenta anos, após a morte do marido, Hillé ― a senhora D ― percebe que está absolutamente sozinha. Em seu luto, a protagonista decide viver no vão da escada de casa e experimentar o mais profundo isolamento. Num intenso fluxo de consciência, ela se vê às voltas com lembranças do passado ao mesmo tempo que se pergunta sobre o verdadeiro sentido da vida.

E se você se sentisse abandonado por Deus? Por seus amores e por tudo? E se você questionasse tudo e o nada viesse como resposta? E se você, por você, fosse mero Nada e não importasse mais? Como você agiria? Interpretaria? Pensaria?

E se Nada, que você é, não tivesse sentido, porque você não queria ser Nada, mas ainda é? E se tudo é um fluxo de consciência não-contínuo por que você perdeu o único que amava e entendia? No fim, você pode ser Nada porque tinha Tudo, não é verdade?

E se também não é nada disso? Mas a busca incessante por aquele conhecimento que você ambiciona, mas que Nunca vai ter resposta? De onde viemos? Para onde vamos? Qual a origem de tudo, meu Deus? E se você questiona também Deus? Você acredita ou não? Você grita com Ele ou reza? Ou está sozinha numa escada enquanto relembra e lamuria a sua solidão, ao mesmo tempo, pensa no lascivo e no luxurioso? No corpo, na carne e na alma? Pode ser tudo isso e nada ao mesmo tempo.

Essa é a prosa poética e literatura densa que Hilst traz e transborda em seu público-leitor. Numa tentativa de achar respostas sem conclusão, num desejo súbito por mostrar a potência feminina diante de Deus, Hilst traz uma prosa obscena: não pela vulgaridade, mas pelo teor complexo que a decadência humana pode atingir – tanto por seus atos quanto pelo desejo (in)sano por respostas de perguntas jamais respondidas.

Contudo, acredito que tudo faça parte de achismos quando argumentamos sobre essa novela, visto que há uma gama absurda de referências literárias, simbólicas e filosóficas a respeito da morte, da vida e da religião. É um texto com alta complexidade, já que conta um fluxo descontínuo do consciente da personagem Hillé, ou senhora D, como é conhecida.

É necessário pontuar que a voz narrativa não é só a de Hillé no decorrer do texto, mas duplo e, às vezes, triplo – em um monólogo que se torna diálogo e, por fim, intercala. Em diversos trechos, a presença do narrador é ambígua e cortada, fazendo com que a personagem pareça ser louca ou seja capaz de se comunicar com seu amante morto, Ehud.

Inclusive, é importante mencionar que tal nome faz parte do Antigo Testamento, sendo o nome de um dos juízes. Assim, pode-se deduzir – mas sem nenhuma certeza – que, no decorrer dos diálogos, há também um julgamento: mas de quem? Deus? Hillé? Menino-Porco? Dos homens?

Outro detalhe marcado é o porco. Tendo o seu simbolismo frequentemente associado e conotado como negativo, apresenta-se, na obra de Hilst, como parte da construção do caráter da senhora D, nomeada como porca e também protagonista do texto, o que coloca em cheque o seu status continuamente. Ou não coloca?

Esse é um livro que não é para todos os públicos. Na verdade, pode-se dizer que muitos dos leitores não irão gostar do texto por conta de sua confusão, já que Hilst muda o narrador sem aviso prévio e, às vezes, no mesmo parágrafo; também não tem uma continuidade dos fatos e a prosa é completamente abstrata, com momentos na realidade da personagem. É um livro do qual se tiram muitas reflexões sobre a figura feminina, a religião, a humanidade e a própria razão de ser e existir, mas são necessárias diversas releituras para sermos capazes de enxergar boa parte do que a autora quis transmitir.

Sem necessariamente ter sucesso de entender esse Deus-Mulher e essa Mulher-Sem-Deus.

REFERÊNCIA

HILST, Hilda. A obscena senhora D. Posfácio de Eliane Robert Moraes. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.