RESENHA #139: POLICIAL E PSICOLÓGICO

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Jacko Argyle é detido sob alegação de que teria assassinado sua mãe em um surto de loucura, sendo condenado à prisão perpétua. Dois anos depois, surge uma prova, encontrada pelo doutor Arthur Calgary, de que o preso é inocente, mas a descoberta chega tarde demais: Jacko morre atrás das grades. Os achados do doutor reabrem as feridas dos membros da família, que passam a encarar uns aos outros com desconfiança e suspeita, assombrados com a possibilidade de que o verdadeiro assassino ainda esteja entre eles.

Não é o culpado quem importa. São os inocentes.

Embora pais não tenham filhos favoritos (e essa é uma informação discutível), escritores possuem livros prediletos. Histórias que, quando escreveram, cativaram-nos muito mais do que outras. Como isso acontece e por qual razão? Só o escritor para saber, bem como só Agatha Christie sabia o motivo de Punição para a Inocência ser um dos seus queridinhos.

O seu público cativo pode estranhar bastante o desenvolvimento e a maneira através da qual esse romance policial vai encontrando o final, justamente porque foge em alguns aspectos do que a autora costuma propor. No entanto, para mim, faz bastante sentido Punição para a Inocência ser tão importante para a autora, porque ele traz ao romance policial uma abordagem psicológica e social tão bem amarrada e caracterizada que pode surpreender até os mais atentos.

O seu desfecho tem certa previsibilidade, ao menos, no meu entendimento, só que, mesmo que seja um romance policial e o assassinato seja parte crucial da narrativa, a solução do mistério não é o conteúdo mais importante. Christie, aqui, retrata problemas ocasionados pela guerra, a maternidade obsessiva, a natureza humana, o abandono, a culpa e diversos valores sociais.

O tema principal da narrativa consta no próprio título: a punição para os inocentes. É da natureza humana julgar o outro, mesmo sem provas. Fazemos, constantemente, tribunais populares que possuem resultados escusos, como acontecia fortemente na Caça às Bruxas. Nessa obra, Christie pontua como todos os inocentes, pela falta de provas contra o culpado, seriam julgados como assassinos.

Trabalhando esse teor, a autora vai compondo o cenário familiar. Este, por mais estruturado que pareça, está completamente fora de ordem. A vítima, tão boa para com os demais, não era saudável com os próprios filhos, transmitindo uma relação materna abusiva e obsessiva; os filhos, transtornados com o passado e o abandono, são marcados pelas experiências e transformados por elas. Todos são infelizes e miseráveis, com exceção de Tina, a única personagem negra, a qual entende como a sociedade pode ser nociva. Assim, é importante pontuar como Christie foi criteriosa ao colocar um detalhe gigantesco como esse no enredo psicológico-social de Punição para a Inocência.

A nova edição da Harper Collins, contando com a tradução de Luisa Geisler, traz alguns erros pequenos, mas que não comprometem a leitura. A nova edição é de capa dura e, como toda obra da Christie, a arte é extremamente importante para a resolução do mistério. Essa é uma obra que pode ser lida por todos os públicos, porém, é possível que menores de treze anos não a compreendam muito bem.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Punição para a inocência. Tradução de Luisa Geisler. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2020.