RESENHA #138: VIVER ENTRE LIVROS

AUTOR: Rosana Ouriques
SINOPSE: Bina é uma adolescente que adora literatura. Quando ela entra na nova livraria de sua cidade, ela descobre um universo mágico! A Fantástica Livraria dos Livros Vivos manifesta sua magia apenas para pessoas especiais e ali dentro da livraria os livros têm vida própria. Bina conhece personagens fabulosos como o livrogato e o livrochorro, Graveto e Dino, dois livros infantis que a acompanham em toda essa aventura. Ela também se encontra com Cris, o garoto-livro por quem se apaixona.
Mas dentro da livraria mágica existe também muitos perigos e Bina precisa atravessar todos os setores da livraria, romance, aventura, ficção científica, terror, suspense, policial entre outros, para conseguir encontrar a saída.
Cris ajuda Bina nessa extraordinária jornada e juntos enfrentam todos os desafios, surpresas e segredos que a livraria esconde. Uma leitura fascinante!

Obras com livrarias, bibliotecas ou conteúdo metalinguístico – escrever sobre escrita – sempre me encantam, porque elas fazem parte da grande ode à literatura e à leitura. Esse é um canto capaz de encantar muitos leitores, porque sempre acabamos nos identificando com os personagens amantes de livros.

A obra A fantástica livraria dos livros vivos é exatamente esse tipo de literatura, só que voltada para um público infanto-juvenil. Com ilustrações e intercalando entre gêneros literários, Ouriques investiga os percalços da literatura em solo nacional, trazendo não somente o amor pelos livros, mas críticas contundentes a certos aspectos dos leitores e dos conteúdos que publicamos.

Entre a divisão de setores em que Binna, Cris, Graveto e Dino passam, encontramos o romance, a ficção científica e as histórias de guerra, contudo, os dois setores que mais me chamaram atenção por seu conteúdo crítico foram: Espiritualidade e Autores Nacionais.

Em Espiritualidade, encontramos uma forte crítica ao conteúdo, já que diversas obras do gênero se colocam como as únicas adequadas e com as respostas corretas sobre o mundo e as relações. No entanto, a autora pontua como essa linha de raciocínio, além de injusta, é incorreta, porque – na realidade – não podemos pressupor uma verdade única e intransponível.

Em contrapartida à crítica forte aos autores, também há uma crítica ao mercado editorial e ao consumo dos leitores na seção de Autores Nacionais. Acostumados ao cinema hollywoodiano e às contínuas publicações estrangeiras, os leitores de solo nacional não buscam literatura brasileira, por mais incrível que ela possa ser. Essa síndrome, conhecida como complexo de vira-lata, se faz presente não só na literatura, mas em diversos outros setores, como no cinema e nas relações político-sociais. Nós somos levados a acreditar que o que vem de fora é melhor, contudo, Ouriques pontua como isso não faz sentido.

E concordo plenamente com ela. Devemos sim aproveitar o que pudermos do conteúdo estrangeiro, mas sem jamais esquecermos dos grandes nomes de nossa literatura, como Machado de Assis, Ana Maria Machado, etc.

Outras duas críticas muito fortes na narrativa se relacionam à busca incessante de alguns leitores de fugir da realidade, encontrando na literatura um refúgio e estagnando-se nele, além desse, há também o poder do dinheiro. Tais críticas são importantes para um público-leitor jovem, justamente porque é nessa fase da infância que formamos as nossas primeiras percepções do mundo.

É um texto não só leve, como também divertido. Num par de horas, conhecemos personagens ótimos e nos questionamos sobre nossos valores literários. Inclusive, ressalto aqui a maturidade e a destreza de Cris, o garoto-livro. Esse, entre os personagens principais, foi uma grata surpresa. No entanto, como ponto negativo, confesso que o romance presente na narrativa poderia ter sido implícito, ao invés de explícito. Trazendo-o à tona de maneira muito rápida, a autora deixou a desejar no desenvolvimento dessa relação, soando muito apressada.

Por fim, preciso confessar: eu adoraria que meus livros falassem.

REFERÊNCIA

OURIQUES, Rosana. A fantástica livraria dos livros vivos. 1ª ed. São Paulo: Coerência, 2020.

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