RESENHA #137: SÍNDROME DE HERÓI

AUTOR: Susan Elizabeth Phllips
SINOPSE: Annie Hewitt chega a Peregrine Island no meio de uma tempestade de neve. Está falida e desanimada – mas não a ponto de desistir. Tudo que tem são seus fantoches, seus amados livros de romances e um pouquinho de coragem.
Mas ela não está preparada para o que a espera no chalé Moonraker. Nem para o homem que vive em Harp House, o misterioso casarão que assoma sobre o chalé. Quando Annie era adolescente, ele a enganou de tal maneira que ela nunca conseguiu esquecer nem perdoar. E os dois estão agora presos em uma ilha gelada, cujos moradores aparentemente não sabem cuidar da própria vida.
Será que ele ainda é o mesmo vilão do passado? Ou teria ele mudado? Este inverno promete ser longo e quente.

Todos nós já tivemos uma queda por algum herói de livro, quadrinho ou filme, não é verdade? Nos apaixonamos e suspiramos na presença de diversos personagens que nos cativam e parecem muito distantes da realidade.

Bem, e se eles existissem?

Ajudar alguém e salvar uma pessoa são duas coisas completamente diferentes. Cada um de nós pode estar predisposto a ajudar se isso não ferir a nossa integridade. No entanto, quando se tem a síndrome do super-herói, fica um pouco difícil diferenciar e isso pode significar sacrifício de uma pessoa em prol de outra – independente de quanto esse processo pode vir a afetar o psicológico do herói em questão.

Quantas vezes os mocinhos e mocinhas das narrativas fazem isso? Nós achamos um máximo, mas será que para eles é tão incrível assim? Nessa pegada – e talvez até nesse questionamento –, encontramos Minha queda por heróis, da Susan Phillips.

Com isso, Minha queda por heróis é um livro excepcional, porque questiona o clichê usando o próprio clichê como base de construção narrativa. Phillips recorre a aspectos psicológicos e pessoais dos personagens ao mesmo tempo em que critica alguns aspectos dos romances góticos, dos personagens quebrados e do protecionismo exagerado.

Tanto a mocinha quanto o seu par romântico são muito bem construídos. Ambos sofreram desgastes emocionais constantes durante a vida e precisam lidar com as feridas não cicatrizadas. No entanto, cada um luta do seu jeito: Annie fragmenta sua personalidade e desejos entre seus fantoches; Theo exterioriza o sufocamento a partir das cenas macabras de seus livros.

Dessa forma, afetados por seu passado sombrio, compartilhado e isolado ao mesmo tempo, já que os dois personagens se conhecem desde os quinze anos, eles precisam lidar com suas diferenças e perceber o quanto a perspectiva do passado afeta as relações que constroem no presente.

Constantemente, podemos ser influenciados pelas ideias de Annie de que Theo é um psicopata; Theo, também foco narrativo, demonstra que Annie é um problema justamente por saber de “seu lado sombrio”. Assim, é possível ser convencido pela narrativa de que ele é um problema, por mais que eu não tenha me sentido assim.

Os mistérios apresentados e até mesmo o passado de Theo me soaram extremamente previsíveis, mas isso não significa que foi ruim – só clichê. De fato, o mais surpreendente em Minha queda por heróis não está na fluidez narrativa e no padrão da história, mas sim no apego psicológico que a autora teve em criar todos os seus personagens, mesmo os fantoches e os secundários.

A elaboração cuidadosa das personalidades, a delicadeza das nuances dos problemas psicológicos, a própria preocupação em passar a necessidade de especialistas para a resolução dos problemas foi sublime.

Numa escrita fluida, rápida e leve, a obra não demora a chamar atenção e engatar por ser extremamente divertida. Além disso, a escritora mostrou um lado muito criativo ao acrescentar uma atriz – fracassada – ventríloqua. Ainda mais, ao usar essa característica da personagem para aprofundar seu passado, seus pensamentos, suas intenções e até mesmo os seus conflitos, como na transição, por exemplo, entre dois dos seus fantoches: Peter e Leo.

Minha queda por heróis é um livro proposto a um público mais velho, justamente pelas cenas eróticas e também pelo próprio aparato psicológico que Phillips traz. A edição está muito bem trabalhada, com uma capa coerente e minimalista. Embora seja possível encontrar alguns erros de revisão, nada vai atrapalhar a leitura enquanto você encontra e se apaixona por mais dois heróis.

REFERÊNCIA

PHILLIPS, Susan Elizabeth. Minha queda por heróis. Tradução de Carolina Caires Coelho. Belo Horizonte: Editora Gutenberg, 2020.