RESENHA #136: A SOLIDÃO DE PROMETEU

AUTORA: Mary Shelley
SINOPSE: Cego em seu propósito de dar vida à matéria inanimada, o cientista Victor Frankenstein constrói um ser monstruoso a partir de restos humanos – mas, quando enfim alcança o resultado pretendido, foge de sua própria criação! Abandonada e fadada ao desterro e à rejeição, a criatura passa a perseguir o cientista e, depois, a buscar vingança.

 

Quase todos os clássicos reverenciam a cultura greco-latina, isto se deve, sobretudo, ao fato de como os gregos eram vistos e cultuados desde a formação do pensamento ocidental. A cultura greco-latina, ao contrário de muitas do período arcaico, é privilegiada na contemporaneidade, porque é a principal base para entender como funciona a nossa mente hoje, a qual vem embebida de suas referências e filosofias.

Dessa maneira, não é estranho, na educação nada convencional de Mary Shelley, os mitos gregos surgirem através das peças trágicas, como Prometeu acorrentado, e também da Teogonia de Hesíodo. Prometeu é um personagem fundamental aos homens, porque é graças a ele que a humanidade evoluiu pela presença do fogo.

Sua penitência é imortal, seu percurso é solitário. Assim como o de Victor Frankenstein. No entanto, embora a similitude da solidão seja palpável enquanto buscam – ao menos, em teoria – o bem da humanidade, há entre eles diferenças marcantes.

Afinal, seria a ciência de Frankenstein tão altruísta quanto a de Prometeu?

Mary Shelley estreia na ficção científica com um terror gótico, exibindo seu talento em uma idade bem jovem. Como costumo dizer, para mim, Shelley foi capaz de trazer mais aos seus dezenove anos do que muitos autores conseguiram durante sessenta ou oitenta anos de vida.

Há tanto a ser dito em Frankenstein que eu poderia facilmente escrever uma tese sobre a genialidade da escritora, contudo, há de se destacar alguns aspectos biográficos imprescindíveis para compreender a obra de Shelley. O primeiro é a morte. Um dos pontos altos do estilo literário e gótico da escritora é como a morte – tão natural e importante – afeta a dinâmica entre os vivos.

Mary perdeu a mãe quando bebê, o primeiro filho com Percy Shelley e também teve uma irmã suicida. Por diversas vezes, Shelley perdeu alguém e teve de enfrentar o luto e a dor. Tal problemática é cerne em Frankstein, sendo o gatilho para que Victor deseje transcender a ordem natural do mundo. Tal como sua criadora, o personagem perde a figura materna; assim, esse acontecimento guia o Prometeu moderno nas suas escolhas quanto às ciências naturais e às grandezas declaradas pelos famosos alquimistas, como Agrippa e Paracelso.

Victor Frankenstein queria transcender a morte porque, ao contrário do seu antecessor, era incapaz de firmar-se na solidão do luto. No entanto, quanto mais lutava com esse aspecto de sua vida, mais só se tornava. Assim, criou a criatura – a manifestação da solidão causada pela morte.

O segundo aspecto marcante na narrativa de Shelley – provavelmente muito conectado às mazelas ocorridas na vida da autora em sociedade ou até na de sua mãe, a feminista Mary Wollstonecraft – é a humanidade, que muitos figuram como a monstruosidade. A monstruosidade da obra não é reflexo da criatura que, pela sua aparência, é caracterizada nesse estereótipo negativo; mas da humanidade enfadonha de Victor. O ser humano é preconceituoso e intolerante com quem é ou pensa diferente. Firmar-se diante do outro, o qual é, por definição, diferente de si, não é um problema para a figura solitária da criatura, mas para os homens que compartilham o mundo com outros, sim.

O terceiro detalhe, este que mais me conecta a Frankenstein, centra-se na crítica à ciência desenfreada, outra referência à vida de Shelley, amiga de figuras como Galvani. De novo, retomamos a Prometeu como agente altruísta – ao contrário do seu eu-moderno -, o personagem mitológico queria o bem aos homens. Mas e Victor? O que ele de fato queria? Assim, Mary Shelley demarca a ganância e a visão científica acima da bioética, bem como acima da natureza. Victor não estava interessado – embora discurse que sim – no bem da humanidade, mas sim em seu próprio bem e grandeza. Por isso, pergunto: é possível se sobressair diante da natureza? Se não foi possível para Mary, por que seria diferente para Victor?

Há muito mais a ser dito quando pensamos no primeiro livro de ficção científica, visto que elabora – pela primeira vez e de maneira sublime – a criação do sobrenatural com uma explicação plausível. Ademais, também convoca a sobrenaturalidade não como marca de malícia, denotando a criatura como malévola, mas sim uma tábula rasa lockeniana (pronta para absorver do mundo o que dele obtiver). Nem a criação da criatura, nem seus atos são sem sentido e/ou voltados para a magia/demonologia, mas sim para as descobertas científicas e explicadas pelas experiências do personagem (como qualquer outro).

Numa escrita fluída, delicada e descritiva, a obra de estreia de Shelley é um bálsamo crítico e intelectual, ministrando doses de ironia aliadas a um falso senso de justiça. Todos nos sentimos sós como a criatura; mas, também, como homens, somos gananciosos e prepotentes como Victor. Somos os dois, embora só um seja o mais solitário Prometeu.

A criatura, por mais que pereça solitária no livro, definitivamente é a mais compreendida fora dele.

REFERÊNCIA

SHELLEY, Mary. Frankenstein ou O Prometeu Moderno: edição comentada. Tradução, apresentação e notas Santiago Nazarian; tradução dos anexos Bruno Gambarotto. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.