RESENHA #134: SOBRARAM AS BATATAS

AUTOR: Machado de Assis
SINOPSE: Pedro Rubião de Alvarenga, um modesto professor, herda do dia para a noite a fortuna de seu amigo Quincas, passando de professor a capitalista. Após isso, Rubião vai a Corte e desfruta dos prazeres do dinheiro enquanto se apaixona, aos poucos, por Sofia.

 

Você já se imaginou ganhando uma fortuna? Imagine, então, que um amigo seu “muito querido” veio a falecer e lhe deixou como herdeiro universal de sua riqueza e, como condição, você só teria que cuidar de seu cão.

A tarefa soa fácil, não é mesmo?

Mas não para Rubião, porque, embebido pelo luxo e dinheiro, cercado de homens corruptos e interesseiros, o modesto professor se atira a Corte oitentecista para viver e aproveitar o que nunca teve oportunidade antes. Sendo esse o começo de seu declínio, claro.

Machado de Assis, um dos mais incríveis escritores da literatura nacional, traz – através de seu estilo realista – aspectos intrínsecos da sociedade de seu período, o que faz com que Quincas Borba seja uma obra fenomenal tanto no viés histórico quanto no trato psicológico e social.

De praxe, com obras atemporais como essa, há muito o que se explorar dentro dos ditos e não ditos do enredo. No entanto, vamos começar pelo título duplo e ambíguo: Quincas Borba.

Dentro da trama, encontramos dois personagens com esse nome peculiar: o primeiro é o filósofo e amigo morto, personagem presente desde Memórias Póstumas de Brás Cubas; o segundo, não menos importante, é o próprio cão, cujo nome é o mesmo de seu dono falecido.

Mas por quê?

Ao contrário dos outros dois romances da trilogia (Memórias e Dom Casmurro), em Quincas Borba, encontramos a narração em terceira pessoa. Essa narração se deve, sobretudo, a condição existencial de Rubião. Ao contrário de Brás e Bentinho, o personagem não vem de uma camada social abastada, pelo contrário, dando a entender que o pobre/proletário, mesmo endinheirado, não tem voz de fato. E, caso adquira algum status, é mero recurso aos interesseiros.

Essa crítica é a primeira dentre as possíveis a se destacar. Outra, congruente a primeira, está no fato de que tudo que é de Rubião, até mesmo o cachorro, pertence a Quincas Borba. Nenhuma posse é sua, nem mesmo a filosofia que transparece de cabo a rabo no livro (embora a sua explicação faça mais sentido a partir da leitura de Memórias Póstumas). Assim, tudo o que Rubião deseja, tudo o que Rubião tem e tudo que ele virá a ter fazem parte do que pertencia ao outro – até mesmo a mazela final.

Assim, o autor cria um ciclo ininterrupto e interessante ao se apropriar de um movimento contínuo em que o bem e o mal do homem podem recair sobre o outro, como uma herança ou um resgate. Encontramos em Quincas Borba, um triângulo de personagens – Quincas, Rubião e Deolindo – que fazem parte de um movimento social constante, ou seja, Machado de Assis demonstra que a vida oitentecista e hipócrita é um ciclo que, na crença popular, não tem fim (e devemos concordar que permanecemos nele).

Há muito mais a ser dito sobre esse romance de Machado, como, por exemplo: (1) a diferença entre a burguesia e a nobreza – em que o burguês, para legitimar seu status, precisa assimilar-se ao nobre; (2) da mesma forma, há o professor e o capitalista – em que, para marcar seu espaço social, ele precisa alcançar a riqueza e os meios prolixos de se manter na sociedade hipócrita, devastadora e gananciosa. (3) O homem contra os modelos sociais vigentes, em que ele precisa entender o meio em que vive ou será engolido por ele, e (4), por isso, há um crescente incômodo ao pensamento positivista do período e a ambição de afrancesar-se constantemente para adquirir prestígio.

Ademais, também encontramos o homem como coisa. Rubião, por exemplo, é um degrau para os interesseiros que ambicionam as riquezas recém-adquiridas. Sofia, por sua vez, é outra personagem que está entre mulher e objeto, já que sofre com os avanços de Rubião, o qual a vê como objeto de desejo, e o voyeurismo de Palha, seu marido. Maria Benedita, prima de Sofia, ao divinizar o seu futuro pretendente, também se torna mero objeto de glória ao outro. Com tais personagens, marcados e presentes, Machado conota como a humanidade torna a si mesma, em sociedade, mera ferramenta ou objeto.

Não menos importante, outro tema abordado – e muito a frente do seu tempo – é como a condição social (a mudança de status) pode afetar a mente humana. Ao contrário dos estudiosos de seu período, Machado de Assis não precisava elaborar teses e comprová-las a partir do positivismo, deixando o seu lado criativo fazer o trabalho. Por conta disso, podemos notar a exímia construção narrativa em relação a manifestação da loucura.

Machado de Assis, em Quincas Borba, condiciona a loucura a partir de situações, objetos de desejo e mudanças na condição de vida do personagem, e não a etiquetando a um problema físico. Dessa forma, ele conduz a loucura em um fio narrativo muito bem delineado aliado a ironia comum de seus textos, observando as características e a evolução da condição de um louco.

Essa é uma obra cheia de relevância cultural, ironia pontual e críticas contundentes a uma sociedade que, até hoje, somos capazes de ver. É um encontro entre o eu e o outro, mas também do proletário, burguês e nobre: todos que fazem a sociedade ser uma loucura – tão incongruente quanto o Humanitismo.

Por isso, só sobraram as batatas.

REFERÊNCIA

ASSIS, Machado de. Quincas Borba. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics. Companhia das Letras, 2012.