RESENHA #133: CONHECIDO (IN)VISÍVEL

AUTOR: Tarsis Magellan
SINOPSE: Rosa Villar, agente da ABIN, é chamada às pressas para investigar o atípico envenenamento do filho de uma influente jornalista australiana que passava férias numa praia isolada no nordeste brasileiro. O que Rosa não imaginava é que o bem-estar da criança estaria ligado a membros do alto escalão da embaixada americana. Para sanar os problemas diplomáticos que surgem, Rosa corre contra o tempo à procura do antídoto para a criança.
A agente tem fortes indícios de que a Biotech, uma grande empresa farmacêutica chinesa que comanda uma empreitada gigantesca no país, está envolvida no incidente. Sua investigação leva ao centro de controle da corporação, na distante Ilha de Trindade. Lá, Rosa é apresentada à Iniciativa Unicelular, um projeto que imaginou existir somente em histórias fantásticas.
No entanto, ela sente que algo mais está à espreita, capaz de colocar não só a sua vida, mas a de todos em risco. Envolta em uma teia de mentiras, conspirações, segredos corporativos e inúmeras mortes, Rosa, para conseguir o que quer, deve descobrir os mistérios escondidos em um lugar onde não só o homem, mas também a natureza: eles serão seus piores inimigos.

Descartes nos ensinou que, para entendermos e aceitarmos a nossa existência, primeiro, precisamos pensar. A ideia de refletir, a qual já permeou a humanidade, faz com que questionemos de onde viemos e para onde vamos; instiga-nos a investigar qual é a origem da vida e de todas as coisas; e, com certeza, foi isso que fez – pelo menos uma vez – você virar sua cabeça para o céu ou para o chão e se perguntar: o que mais existe que eu não sei? Será que estamos sozinhos?

Esse tipo de questionamento é muito presente na ficção científica, cuja elaboração pode variar em enredo, mas não em forma. Dentro do gênero, nós encontramos distopias, mundos paralelos, viagens no tempo ou ao centro da terra; porém, por mais diferente que uma obra possa ser da outra no quesito “imaginação”, a ficção científica busca conhecimento, bem como questiona os padrões presentes no cotidiano.

Unicelular é um livro que entende e assimila o gênero, intercalando conhecimento científico com enredo e investindo em críticas contemporâneas. Ao mesmo tempo em que traz consigo a inventividade e a curiosidade acadêmico-científica, a obra também questiona o desejo por poder de grandes corporações e até onde o homem pode ir pela ambição de respostas ou vantagens pessoais.

No entanto, Magellan não se limita à ficção científica como gênero literário, justamente porque compreende as necessidades do público atual. Nós vivemos em uma era na qual a informação é processada muito rapidamente, sendo assim, uma escrita dinâmica, fluida e envolvente é necessária no decorrer de leituras em que haja abundância de conteúdo e conhecimento, como ocorre no decorrer do texto que explica espécies unicelulares, doenças mentais e computação. Com isso, é possível entender porque o autor se compromete a trazer uma linguagem mais cinematográfica do que propriamente literária, investindo em capítulos rápidos, sem perder tempo com embromações.

Outro aspecto positivo de Unicelular, aliado à execução do texto, é a própria fluidez e necessidade de explicações científicas que o enredo constrói. No decorrer da história, as informações acadêmico-científicas não são jogadas em cima do leitor de maneira leviana, mas de maneira muito bem acertada – porque originam-se de uma necessidade de verossimilhança. Nesse quesito, Magellan acerta em cheio.

Não somente de ficção científica se faz a obra que traz Rosa Villar como protagonista (muito embora possamos dizer que a verdadeira protagonista da trama é a própria Iniciativa Unicelular), mas também de investigação, própria de romances policiais e thrillers. No decorrer da história, encontramos diversos núcleos narrativos que culminam na investigação de uma agente da ABIN, cujos interesses são salvar a população e, ao mesmo tempo, o dinheiro investido por autoridades. Dessa maneira, há também críticas quanto ao sistema de saúde nacional, as próprias autoridades do país e as suas coligações que podem vir a afetar a população.

Contudo, devo confessar que – para mim – Unicelular convence mais como ficção científica do que thriller propriamente. É uma leitura instigante, fluida e rápida, mas os mistérios mais intrigantes, aqueles capazes de chamar mais atenção do leitor, relacionam-se ao passado de Rosa, não aos acontecimentos que culminam no final do thecno-thriller. Isso se deve ao fato de que a personagem é extremamente interessante, envolvente, empoderada e bem trabalhada, enquanto, em contrapartida, pouco dos resultados da investigação são capazes de surpreender.

Com tal personagem, Magellan ganha muitos pontos quanto a representatividade, não somente dela e do empoderamento feminino, mas de outras pautas de minorias. É um texto com base no qual podemos fazer referências literárias a grandes obras do gênero literário e cinematográfico, como Michael Crichton, sem perder a originalidade e, principalmente, a nacionalidade.

Devo elogiar – e muito – o trabalho editorial realizado pela Martin Claret, justamente porque a diagramação e o trabalho gráfico ficaram impecáveis, ainda que existam erros de revisão a serem acertados (poucos, mas presentes). Além disso, há um acesso on-line informacional via QR code sobre as criaturas unicelulares presentes no enredo. É um trabalho que demonstra não só a valorização do autor e de seu trabalho, mas também o investimento na literatura nacional.

Por fim, embora não menos importante, é uma obra que nos lembra que não estamos sozinhos, já que aquilo que não podemos ver continua nos cercando o tempo todo. Eles são desconhecidos o suficiente para nos preocupar; ou precisam crescer o suficiente para nos assustar?

REFERÊNCIA

MAGELLAN, Tarsis. Unicelular. 1ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2019.

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