RESENHA #131: AMOR EM DUAS TAÇAS

AUTOR: Taylor Jenkins Reid
SINOPSE: Emma Blair casou com seu namorado do colegial, Jesse, quando tinha vinte anos. Juntos, eles construíram uma vida diferente das expectativas de seus pais e das pessoas de sua cidade natal, Massachusetts. Sem perder nenhuma oportunidade de viver novas aventuras, eles viajam o mundo todo, curtindo a vida ao máximo.
Mas, em vez do tradicional “e viveram felizes para sempre”, uma tragédia separa os dois, no dia do seu aniversário de um ano de casamento. O helicóptero com o qual Jesse sobrevoava o Pacífico desaparece e, simples assim, o amor da vida de Emma se vai para sempre.
Emma volta para sua cidade natal em uma tentativa de reconstruir a vida e, depois de anos de luto, reencontra um velho amigo, Sam, que lhe mostra ser, sim, possível se apaixonar novamente. E quando os dois ficam noivos? Emma sente que a vida lhe deu uma segunda chance de ser feliz.
Pelo menos é o que parece — até que Jesse é encontrado. Ele está vivo e tentou voltar para casa, para Emma, todos esses anos que passou desaparecido. Agora, com um marido e um noivo, Emma precisa descobrir quem ela é e o que quer, enquanto tenta proteger todos que ama. Emma sabe que precisa escutar seu coração, ela só não tem certeza se sabe o que ele está querendo dizer.

Mas acho que é por isso que o amor verdadeiro é uma ideia tão atraente, para começo de conversa. É difícil de encontrar e manter, como todas as coisas que valem a pena. Como ouro, açafrão ou a aurora boreal.

O que você faria se, dois meses depois de ficar noiva, você recebesse um telefonema do seu marido, que havia sido dado como morto há mais de dois anos? Parece um cenário completamente impossível, até acontecer com Emma Blair. Agora, com os seus dois amores vivendo na mesma cidade e ao mesmo tempo, ela precisa descobrir o que seu coração deseja: resgatar a sua história com Jesse, continuando-a do ponto onde havia sido interrompida; ou se permitir escrever uma nova ao lado de Sam.

Amores Verdadeiros me ganhou na sinopse. A situação em que Emma se envolve é tão específica e tão cruel que, pela primeira vez, eu acreditei que um triângulo amoroso era perfeitamente possível. Fazia sentido que ela estivesse dividida entre dois amores, uma vez que o primeiro deles tinha sido interrompido de forma tão abrupta. Então, animada com a perspectiva de finalmente ver um triângulo amoroso bem desenvolvido, eu iniciei a leitura.

A primeira coisa que eu quero destacar sobre a obra é que escrita de Reid é muito envolvente. Na verdade, parece uma espécie estranha de vórtice – uma vez que se inicie a leitura, você é sugado por ela, independente de estar ou não gostando do andamento da história. Assim, posso dizer que eu não li o livro, eu praticamente o devorei. Cada página me empurrava para a seguinte de uma forma tão imperativa que, quando dei por mim, já estava na última. 

Por outro lado, se a escrita envolve, o desenvolvimento do enredo decepciona e muito. Até a metade do livro, tudo caminha muito bem. Nessa primeira parte, Emma conta a história de como se apaixonou por Jesse, se casou com ele e, depois, perdeu-o de forma abrupta. Arrasada pela perda irrecuperável, ela se afoga em um mar de dor profundo, do qual só consegue emergir às custas de muitas mudanças físicas e psicológicas, sem as quais jamais seria capaz de seguir em frente. Por fim, liberta do luto debilitante, Emma se permite, aos poucos, apaixonar-se por Sam e, ao seu lado, ressignificar a felicidade.

Mas, então, Jesse volta e todo o desenvolvimento da protagonista é simplesmente jogado no lixo. Toda a maturidade que ela adquiriu com o luto parece evaporar. Sua indecisão com relação a que caminho seguir é crível, uma vez que o primeiro deles fora interrompido em pleno curso e de forma bastante violenta; mas a forma com que ela lida com essa indecisão é completamente infantil, egoísta e sem sentido. Emma age como se tivesse duas taças de vinho diante de si e sentisse necessidade de beber das duas repetidas vezes para ter certeza de qual garrafa deseja levar para casa. O problema é que, embora isso dê certo com bebidas, funciona muito pouco com pessoas.

Essa forma de agir de Emma acaba por ofuscar o conflito interno da personagem, o qual parece subjazer à indecisão entre um homem e outro. Reid apresenta como se a questão real a ser respondida fosse quem Emma queria ser: a mulher que era ao lado de Jesse ou aquela que era ao lado de Sam. Contudo, quando Emma escolhe tratar o conflito como uma experimentação de vinhos, fica difícil levar suas questões de autoimagem e identidade a sério.

Apesar disso, não é uma leitura da qual eu desgostei de todo. Com exceção da protagonista, os outros personagens são bem desenvolvidos. É verdade que Jesse e, principalmente, Sam estão além de qualquer homem real (nenhuma criatura na Terra teria uma determinação tão estoica para aguentar a forma como Emma age), o que talvez os torne mais apaixonantes. Mas, em geral, o que conhecemos são personagens reais e profundos. Marie Blair, a irmã de Emma, tornou-se uma das minhas favoritas. A forma como ela evolui ao longo do enredo é incrível. Os pais das duas, por sua vez, também são figuras preciosas.

A verdade é que, se a parte romântica deixa a desejar, os conflitos familiares compensam – não completamente, mas bastante. A questão envolvendo o futuro da livraria dos Blair, por exemplo, representa um crescimento gigantesco para as duas irmãs, que, em nome do sucesso do negócio, precisam aprender a lidar com o orgulho e os problemas não resolvidos entre si; através disso, acabam descobrindo mais sobre si mesmas.

Assim, apesar de tudo, o saldo de Amores Verdadeiros não é completamente negativo. Graças à escrita de Jenkins e aos poucos erros de revisão, a leitura é fácil e gostosa; os personagens secundários são incríveis; e, até a metade, não há muito do que reclamar.

No entanto, por mais bonita que tenha sido a visão do amor romântico verdadeiro que Reid quis passar, eu não fui capaz de comprá-la. Concordo que seja possível amar de verdade mais de uma pessoa na vida, mas não acho que seja possível colocar o amor em duas taças e experimentar das duas ao mesmo tempo. Amor não se bebe assim.

REFERÊNCIA

REID, Taylor Jenkins. Os sete maridos de Evelyn Hugo. Tradução de Alexandre Boide. 1ª ed. São Paulo: Paralela, 2019.