RESENHA #130: O FUTURO PESSIMISTA

AUTOR: H. G. Wells
SINOPSE: Em meio a um jantar, o Viajante do Tempo retorna para contar a um grupo de amigos sua extraordinária experiência no ano 802701… Nas ruínas do que um dia fora Londres, ele esteve entre duas raças degeneradas de descendentes da humanidade: os Elói, criaturas frívolas e infantis cuja existência parece se dar sem lutas, e os Morlocks, habitantes do mundo subterrâneo que, antes subservientes aos Elói, passaram a persegui-los quando a noite cai.

 

O homem é capaz de mudar o futuro ao saber das catástrofes que o esperam por lá? Essa é uma questão que permeia parte da literatura dedicada a viajar no espaço-tempo e, não por menos, da própria ficção científica.

Ao contrário da maioria dos autores anteriores, com exceção de um, para dizer a verdade, Wells não trouxe magia ou fantasia ao navegar pela quarta dimensão – ou seja, pelo tempo –, mas pura ciência. Essa cientifização de sua obra, não só por ter referências literárias como Mary Shelley, também se explica a partir de seu período histórico, em que o progresso científico tinha ganhado camadas e mais camadas com figuras, como, por exemplo, Darwin e Huxley.

Assim, teorias darwinistas, críticas políticas e referências a literatura greco-latina vão permear o decorrer das páginas desse curto e complexo romance, embora, a sua complexidade possa se perder pela escrita simples e os fatos narrados no ponto de vista de um viajante do tempo decepcionado.

Em toda boa ficção científica, nós encontramos críticas às sociedades dos seus escritores. Com Wells, não ocorre diferente. O escritor de obras como A guerra dos mundos era idealista e socialista, sendo um crítico ferrenho ao modelo capitalista e, para demonstrar sua insatisfação, utilizou-se de armas como a literatura, mais especificamente, com o seu antigo conto reformulado em romance.

Em A Máquina do Tempo, é possível encontrar duas criaturas que teriam se originado dos seres humanos: os Elói e os Morlocks. Os primeiros, belos e sem intelecto, fazem parte de um mundo destinado à perda dos valores humanos; em contrapartida, há também os feios, serviçais e viscerais, que continuam a seguir um padrão de caça e sobrevivência acima de tudo. Nesses dois polos, encontramos a luta de classes entre uma elite – agora, não pensante – e o proletário, muito mais devastado do que no tempo do Viajante.

Dessa maneira, é interessante notar como Wells formula o seu futuro e a sua crítica ao presente. Misturando história, sociologia e biologia, o autor se aproveita da teoria da evolução e da luta de classes para chamar atenção dos seus contemporâneos para um futuro cada vez mais degradado por essa segregação que, por vezes, soa maniqueísta.

Há, em A Máquina do Tempo, muitos aspectos interessantes que podem ser comentados, como: a língua simples dos Elói, pois, pela falta de intelecto, falta  metaforização; a falta de nomes dos personagens, para provavelmente exemplificar partes importantes da sociedade do Viajante; a mistura complexa dos Elói e dos Morlock na figura do próprio Viajante; a degradação do mundo ideal através do ócio; as referências clássicas a peças como Édipo, em que a presença da esfinge e da descoberta do futuro se interconectam etc.

Essa, antes de tudo, é uma obra que não só mistura fatos e ficção com vistas à verossimilhança, mas também fantasia a ciência e a transveste como uma distopia, trazendo o seu futuro pessimista. Será um texto atemporal enquanto o homem não olhar para o outro e entendê-lo como seu semelhante.

Ou seja, é meramente atemporal, como todo clássico.  

REFERÊNCIA

WELLS, H. G. A Máquina do Tempo. Tradução, apresentação e notas de Adriano Scandolara. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.