RESENHA #129: À QUEBRA DE IDEAIS

AUTOR: Lucy Maud Montgomery
SINOPSE: Anne Shirley agora tem 16 anos. Terminados os estudos de nível médio, desistiu do curso superior para ficar com a mãe adotiva, Marilla, em Green Gables.
É a nova professora da escola da vila, assim como vários de seus amigos são professores em outros condados da ilha. Tem conceitos idealistas e românticos sobre ensinar, mas acaba descobrindo quão difícil – e gratificante – o ensino pode ser.
Quando Marilla “herda” dois parentes, órfãos de 6 anos, Anne ajuda a criá-los. E encontra também outros desafios, desenvolvendo alguns projetos de melhoria da vila, nem todos com resultados positivos…Apesar das responsabilidades e de já ser considerada adulta pela sociedade, a história não deixa de mostrar o lado inocente, alegre e inventivo de Anne Shirley, e seu amor pela vida, sempre cheia de possibilidades.

A página da Anne menina tinha sido virada,
como por um dedo invisível,
e a página da Anne mulher estava diante dela,
com todo o seu encanto e mistério, toda a sua dor e alegria. 

Todos nós temos expectativas de como a vida poderia ser, com quem poderíamos nos casar ou como seria o emprego dos nossos sonhos. Todos possuímos esperanças e ideais que, muitas vezes, afastam-se da realidade. Com o decorrer do tempo, se não todos, quase todos são quebrados.

Para Anne Shirley, não é diferente.

No primeiro livro de Montgomery, Anne de Green Gables, conhecemos Anne Shirley, uma menina órfã que é adotada por um casal de irmãos, Marilla e Matthew. A menina é extremamente sonhadora, bem como capaz de quebrar estereótipos e mudar um pouco cada um à sua volta. Todos a consideram, mesmo com seus cabelos ruivos – os quais simbolizam, na cultura ocidental, algo negativo.

Tal menina, aos poucos, torna-se mulher. Em Anne de Avonlea, vemos parte dessa transição para a maturidade. De uma criança além do seu tempo, repleta de aventuras, sonhos e imaginação, Anne Shirley se torna uma adolescente madura, perspicaz e gentil, cujos objetivos e sonhos diferem do comum.

No entanto, ainda é imaginativa, sonhadora e continua a arranjar confusões. Embora fale menos do que no início de Anne de Green Gables, é notável como Anne continua a expressar suas opiniões para além da esfera padrão feminina: ela deseja a universidade; não concorda com os parâmetros sociais impostos; e busca, na docência, ser uma professora que entende e respeita seus alunos.

Um dos pontos mais altos desse segundo volume de Montgomery, definitivamente, é o ideal de docência de Anne. Hoje, após muito entendermos do comportamento infantil e também estudarmos as relações entre alunos e professores, sabemos que existem meios e técnicas mais adequados para uma sala de aula. O castigo físico não é uma solução para tornar um aluno melhor, como Anne percebe antes dos seus amigos professores.

Assim, as ideias elaboradas pela personagem são extremamente progressistas para o seu tempo, já que ela pressupõe que: (1) castigos físicos não são solução; (2) o ensino deve ser feito através da dedicação para com o aluno; (3) o ensino do conteúdo não é a única coisa que importa, mas também aqueles dos valores sociais, já que a sala de aula é o principal – quando não o único – círculo de convívio social de uma criança fora de casa etc. Por mais que, nos dias atuais, esses pressupostos nos pareçam óbvios, não era assim no tempo de Montgomery.

Contudo, Anne não foge completamente do padrão, visto que segue os dogmas religiosos daquele período e também parece cada vez mais conectada aos afazeres domésticos (muito embora eles não sejam sua prioridade em nenhum momento). É uma personagem que faz sentido dentro do seu período histórico, mas ainda reivindica uma posição para além do alcance das figuras femininas. Sua evolução é coerente e muito bem executada pela autora, da mesma forma como ocorre com outros personagens que apareceram no primeiro volume, como, por exemplo, Marilla e Rachel.

A mãe adotiva de Anne muda muito suas atitudes, aceita e compreende a progressão da protagonista, apoiando-a ir à universidade, mesmo quando obstáculos a impedem disso; também a melhor amiga de Marilla, Rachel, tem sua opinião alterada acerca dos estudos de Anne, já que antes achava desnecessário e, por fim, apoia-a em seu sonho.

Assim, por diversas vezes, o livro traz pautas feministas e progressistas, ainda que tenha seus padrões comuns e dogmáticos. Esses padrões se repetem e aparecem a partir de alguns novos personagens, como Davy, um dos gêmeos que passa a morar em Green Gables. Ele, a todo instante, questiona a religiosidade, a fé e as atitudes dogmáticas e padrões, embora, até o final, parece ter se convertido a crença.

Para além dos pontos já destacados, o tema do livro gira em torno da idealização. Desde o primeiro volume, Anne é uma menina sonhadora – e continua a sê-lo no segundo. Com os sonhos, surgem os ideais. Ela tem um ideal de emprego, de matrimônio etc. Tudo, para a personagem, insere-se em uma perspectiva idealizada, como muitos adolescentes realmente possuem, tendo sua visão de mundo fragmentada entre o que conhecem e o que descobrem no mundo.

No entanto, a cada capítulo e situação, acompanhamos essas expectativas serem rachadas e, até, quebradas. Graças a isso, conseguimos ver a mudança e a evolução da protagonista com muita fluidez e similaridade à vida cotidiana, ao ponto, de ela finalmente perceber algo que estava bem diante dos seus olhos todo o tempo (e que todos nós éramos capazes de notar, menos ela).

Aos fãs de Gilbert Blythe, vale o aviso de que o personagem quase não aparece nesse volume e, em sua última aparição nesse exemplar, para ser honesta, não faz nem sentido ele estar onde está. No entanto, para a história de Anne e o desenvolvimento da personagem, nessa cena em específico, a sua presença é essencial. No mais, pode-se dizer que ele está mais maduro e responsável, tendo também seus ideais e sonhos a serem conquistados.

A tradução da Márcia Soares Guimarães continua maravilhosa, fluida e também delicada – muito coerente com a escrita original de Montgomery. O capricho da edição da editora Autêntica também é formidável, tornando-se uma excelente aquisição para aqueles que desejam colecionar essa série.

Por fim, preciso destacar o capítulo Poesia e Prosa, o qual cede ao texto uma metalinguagem profunda e poética. É uma parte do livro que demonstra não só o amor da personagem pela literatura, mas também demonstra o poder/ a força da literatura no cotidiano.

Embora, para muitos, a vida seja mera prosa; para Anne e seus ideias – mesmo quando rachados e quebrados –, ela soa como poesia.

REFERÊNCIA

MONTGOMERY, Lucy Maud. Anne de Avonlea. Tradução de Márcia Soares Guimarães. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.