RESENHA #127: ÀS FAMÍLIA (IN)FELIZES

AUTOR: Liev Tolstói
SINOPSE: Com absoluta maestria, Tolstói conduz o leitor por um salão repleto de música, perfumes, vestidos de renda, num ambiente de imagens vívidas e quase palpáveis que têm como pano de fundo a Rússia czarista.Nessa galeria de personagens excessivamente humanos, ninguém está inteiramente a salvo de julgamento: não há heróis, tampouco fracassados, e sim pessoas complexas, ambíguas, que não se restringem a fórmulas prontas. Religião, família, política e classe social são postas à prova no trágico percurso traçado por uma aristocrata casada que, ao se envolver em um caso extraconjugal, experimenta as virtudes e as agruras de um amor profundamente conflituoso, “feito de sombra e de luz”.

 

Um livro clássico é atemporal; e todo livro assim tem algo de bom e de ruim. É positivo pensar que uma narrativa seja capaz de vencer o tempo e a distância, não só pela presença do texto, mas por sua identificação com a realidade. No entanto, é terrível pensar que o mundo não mudou, que as leis, os costumes e as tradições mantenham parte do seu passado e deslegitimem classes, gêneros e pessoas.

Anna Kariênina é um livro polêmico e a sua atualidade tem um gosto agridoce. É uma obra que encanta, mas machuca. Com personagens ricos, palpáveis e cheios de significados e sentidos, falar de cada detalhe é impossível e soa como um pecado não os explicitar um a um.

Contudo, todo texto – por si e pelas percepções que dele podemos tirar – é infinito em si mesmo. O autor não está lá para responder as perguntas e o que podemos por vezes é confabular, só que há coisas impossíveis de negar: a condução magistral dos fatos históricos, a crítica à sociedade vigente, os problemas de classes e a posição feminina. Por diversas vezes, Tolstói é capaz de ser visceral e talentoso, seja na execução da narrativa ou na própria construção do texto.

A obra pode ser retratada como um romance psicológico, isto se deve ao fato de que Anna Kariênina conta com o aprofundamento e a defesa do consciente dos personagens, tomando perspectivas para se figurar e se apresentar. Assim, somos levados – como numa dança – pelos personagens e o que eles acreditam naquele momento. Todas essas defesas seguem o realismo presente na literatura tolstoiana, transformando-os em humanos, demasiadamente humanos (numa paráfrase do Nietzsche).

Não somente a construção psicológica dos personagens é incrivelmente bem delineada, como também a própria estrutura do texto. A primeira cena marcante e a última se assimilam em uma só, trazendo ao texto uma estrutura cíclica, congruente a proposta de que as coisas não mudaram – mas deveriam. Dessa forma, reforçando a crítica à sociedade vigente. Outro aspecto interessante da construção narrativa é o constante paralelo que Tolstói faz entre suas críticas e seus personagens: Anna e seu irmão; Anna e Liévin; Aleksei versus Aleksei; adultério feminino e masculino; homem do campo e urbano; entre outros.

A todo momento, o leitor é levado a observar o contraste entre situações e personagens que não se encontram de fato no decorrer da história, como ocorre com uma cena sobre os direitos femininos e a traição, em que se tem uma conversa a respeito da mulher e como ela é vista socialmente. Em seguida, existe uma conversa sobre duas situações: a traição feita pela figura masculina; e, depois, a feita pela mulher – e as consequências para seus cônjuges e para os traidores. Nesse diálogo, é possível destacar não só uma leitura progressista e feminista do autor, como também de que maneira se dá a sua crítica.

Outras críticas, muito fundamentadas no panorama geral da Rússia no tempo de Tolstói – também historicizantes –, marcam a narrativa, como a presença do diálogo entre dois personagens que pontua os direitos dos mujiques e o privilégio dos nobres, além da presença de escolas e hospitais no campo.

Ademais, é possível destacar que há dois personagens centrais na narrativa: Anna Kariênina e Konstantin Liévin. Anna é a adultera; Lievin é o alter ego de Tolstói (possível perceber para quem conhece os dogmas e a vida do autor). É perceptível que, no decorrer da narrativa, a relação heroica deles com outros personagens entra em conflito: enquanto Anna é dotada de um carisma enigmático que conquista a sociedade, por sua vez, Liévin é rejeitado por seu jeito rural. No entanto, até o fim, há uma valoração às avessas, fazendo com que a posição de Liévin e Anna se alterne ao ponto de se alterar completamente.

Contudo, a similitude entre os dois se deve ao fato de que ambos querem fugir dos estereótipos e restrições da sociedade em que vivem, desejando seguir seus sonhos, suas ambições e desbravar suas dúvidas, casar-se por amor e ser amado. São personagens além do tempo, tanto ela quanto ele, só que há uma diferença crucial entre os dois: o gênero. Obviamente, os valores de ambos os personagens diferem – e muito –, mas a estrutura de Tolstói, dos seus paralelismos, demonstra a relação fundamental entre os dois personagens não pelas suas atitudes e situações, mas por suas ambições.

Essa é uma obra profunda e complexa, ainda que tenha uma escrita de fácil acesso. A tradução, apresentada pela Companhia das Letras, de Rubens Figueiredo se encaixa perfeitamente com a escrita do autor, buscando contemplar sua sintaxe e recursos linguísticos. É uma obra que, no panorama nacional, lembra muito Dom Casmurro, por usar as relações de um microespaço para falar de toda a sociedade.

Por isso, cada família infeliz é infeliz a sua maneira, mas todas as que são felizes se parecem.   

REFERÊNCIA

TOLSTÓI, Liev. Anna Kariênina. Tradução de Rubens Figueiredo. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.