RESENHA #126: POR TRÁS DE HOLLYWOOD

AUTOR: Taylor Jenkins Reid
SINOPSE: Lendária estrela de Hollywood, Evelyn Hugo sempre esteve sob os holofotes — seja estrelando uma produção vencedora do Oscar, protagonizando algum escândalo ou aparecendo com um novo marido… pela sétima vez. Agora, prestes a completar oitenta anos e reclusa em seu apartamento no Upper East Side, a famigerada atriz decide contar a própria história — ou sua “verdadeira história” —, mas com uma condição: que Monique Grant, jornalista iniciante e até então desconhecida, seja a entrevistadora. Ao embarcar nessa misteriosa empreitada, a jovem repórter começa a se dar conta de que nada é por acaso — e que suas trajetórias podem estar profunda e irreversivelmente conectadas.

 

Alguma vez, após a leitura de um livro, você já conferiu as informações contidas nele? Porque, em Os sete maridos de Evelyn Hugo, vontade não falta. É possível procurar as referências aos filmes, aos estúdios e, principalmente, a atriz e personagem que dá título à obra.

No entanto, por mais que não exista, Evelyn Hugo é uma personagem fictícia tão bem montada e construída que fica difícil você acreditar que ela não existiu. Isso se deve ao fato de que Reid fez uma pesquisa minuciosa sobre o funcionamento de Hollywood no período datado e também das estrelas, as quais com certeza inspiraram Hugo. Assim, na mistura entre nomes reais e ficcionais, ficamos perdidos no que é realidade ou imaginação da autora.

Em contrapartida, temos Monique. Monique, por vezes, é reduzida a jornalista que entrevista Hugo para uma biografia autorizada. Quando não é isso, o enredo da entrevistadora é mascarado pela presença do seu marido e da marca que o matrimônio curto fez na repórter, sendo a relação matrimonial a analogia e paralelismo da obra mais comum e claro entre as personagens principais. Assim, constantemente, os problemas de Monique se focam nesse personagem que só conhecemos literalmente quase no fim, muito mais do que em outros aspectos mais imediatos e importantes, tanto para a narrativa quanto para a própria personagem, que seriam a família e a carreira. Esse destaque ao casamento da entrevistadora, confesso, é incômodo.

É possível compreender a escolha de Reid, justamente porque as relações amorosas se tornam foco da obra, só que isso faz com que o plot twist final se esvazie de importância: o princípio dele é óbvio, mas seu desenvolvimento beira a um Ex Machina. E, ao dizê-lo, entendo aqui que não é a falta de aparição do personagem – já que a expressão latina se refere a personagens ou elementos não presentes durante a trama, porém que resolvem situações com sua aparição no final –, mas falta de pistas no texto que indiciem isso.

Por isso, parece surpreendente. Mas não é.

Dessa maneira, enquanto Reid brilha com a presença e a representatividade que Evelyn Hugo traz, como uma estrela brilhante que é, deixa – e muito – a desejar na construção e desenvolvimento de Monique, embora tudo possa ter sido proposital, colocando Monique à sombra de propósito. Assim, o fio narrativo entre presente e passado se faz: de um lado, o presente de Monique; do outro, o passado de Hugo.

Hugo ensina lições, não somente à entrevistadora, mas ao público-leitor. O que é muito bom, porque ela nos demonstra os podres de uma carreira de sucesso; como buscar ter dinheiro não vale tanto a pena quanto a gente pensa; e a importância de ser quem você é, lutar pelo que você ama e empoderar a si mesma.

Essa última lição é incrível, pois, como literatura representativa, Os sete maridos de Evelyn Hugo dá um banho na maioria dos livros do gênero. Na questão feminista, Hugo mostra que mulheres sofrem violência e abuso constantemente, mas também são capazes de sentir prazer e devem demonstrar isso; na questão racial, encontramos Monique e seus dilemas de mestiçagem em um país – Estados Unidos – em que há uma disputa racial mais acalorada do que a que ocorre no Brasil; bem como a própria Hugo, que é latina e cubana num momento em que a ascensão de Fidel Castro ao poder equivale a sua no cinema; na questão LGBTQ+, a obra não esquece que existem mais siglas além de l e g. O que é fantástico, porque, geralmente, a representatividade se centra nos dois primeiros, mesmo na literatura. 

Em minha concepção, e aqui conto com o amor da vida da atriz, todos os relacionamentos de Hugo – com exceção de dois, do primeiro e quinto maridos – não foram nem um pouco saudáveis. Além desses, os que não foram problemáticos, não foram nem sequer reais. Isso faz com que sua história seja muito palpável, justamente pelo âmbito que Hugo vivia, o período histórico apresentado e os tabus.

Ao dizer que as relações não eram saudáveis, ressalto que nem todas elas ficam muito óbvias, mas abandonar objetivos de carreira, ter crises de ciúmes que podem afetar o outro, maldizê-lo porque a pessoa não quer fazer o que você deseja, transformá-lo em mero troféu e não buscar o indivíduo, tudo isso também não é saudável e, por vezes, toca o abusivo. A linha se torna muito tênue.

A escrita de Reid é simples e direta, bem apostada para um estilo que mistura entrevista e vida cotidiana. A tradução está boa e com poucos erros por parte de Boide e seus revisores – o que é muito positivo.

No entanto, preciso fechar com algo que – e posso estar errada, agradeço correções caso sejam necessárias – é o grande erro da obra. É possível compreender o título Os sete maridos de Evelyn Hugo por conta do título da biografia apresentada por Monique. Contudo, isso não faz sentido no passado de Evelyn Hugo. Dessa forma, preciso trazer um SPOILER.

Evelyn Hugo teve o passado com o primeiro marido apagado por Ari Sullivan, dessa maneira, é impossível que a imprensa descubra seu passado cubano sem fazer escândalo, por conta do período e o problema americano com Cuba. Afinal, Evelyn Hugo é famosa por seus matrimônios. No entanto, o livro, sendo intercalado entre presente e entrevista, também apresenta matérias de jornais da época que simplesmente saltam do terceiro marido para o quinto. Não há menção nenhuma de que o passado de Hugo foi descoberto, além disso, as matérias continuam a tratar Don como o primeiro marido. No entanto, como num passe de mágica, todos sabem que Hugo teve sete maridos.

Não faz sentido e, o fato da escritora não o mencionar, constitui sim um erro de construção da obra, porque é algo essencial não só para o título, mas para a importância das próprias matérias ali que focam nas suas relações amorosas e em outros detalhes de sua vida. Contudo, devo ressaltar que, mesmo sendo um erro da obra – ou meu, mas realmente averiguei e reli e não encontrei menção da descoberta pela imprensa –, isso não tira o mérito de Reid de criar uma história representativa, forte e com uma personagem fantástica, mostrando que, por trás, Hollywood é uma coleção de hipocrisias.   

REFERÊNCIA

REID, Taylor Jenkins. AMORES VERDADEIROS. Tradução de Alexandre Boide. 1ª ed. São Paulo: Paralela, 2020.