RESENHA #125: NOMES COMUNS

AUTOR: Neil Gaiman
SINOPSE: O prestigiado escritor Neil Gaiman e o brilhante ilustrador Lorenzo Mattotti se encontram para recontar o clássico João e Maria. Familiar como um sonho e perturbador como um pesadelo, o conto narra a saga de dois irmãos que, em tempos de crise e falta de esperança, são abandonados pelos próprios pais e precisam enfrentar com coragem os perigos de uma floresta sombria.

Os contos de fadas fazem parte do nosso imaginário desde antes de autores consagrados e conhecidos os escreverem no papel. Como exemplo, podemos citar Perrault, Andersen e os irmãos Grimm, muito famosos no seu ofício e que atravessaram o tempo e chegaram a nós como cernes desse tipo narrativo. Todos eles eram apenas portadores de narrativas capazes de se popularizar imensamente que, sem a sua presença, provavelmente teria se perdido.

Com esse intuito de manter a tradição, os irmãos Grimm resolveram compilar uma série de relatos e histórias que faziam parte da imaginação e desfrutavam de um lugar especial na mente de todos, fossem em seus sonhos ou pesadelos. Nessa época, o conceito infância, bem estabelecido no nosso cotidiano e conectado aos contos de fadas, não existia. Assim, as histórias populares eram sangrentas, violentas e terríveis enquanto misturavam fantasia e realidade.

Os estudos do gênero são fundamentados – geralmente, mas não sempre – em psicanálise, justamente pelo fato de trazerem simbolismos e referências intrínsecas à psiquê humana, à construção e formação social do indivíduo ou do coletivo (congruente a outras sociedades). João e Maria não é diferente, tendo sofrido mudanças fundamentais com o decorrer do tempo.

A adaptação do Neil Gaiman segue a maior parte do conto, sem mudar muitos detalhes, tanto pelo fato de não ser interessante psicanaliticamente quanto por não ser correto fazê-lo. A única mudança que Gaiman faz, consistente no viés histórico, é a percepção da bruxa como uma velha senhora.

Tal mudança é interessante porque pontua a presença da senhora não como figura medonha do imaginário do período de execução, mas, pelo contrário, ao fazê-lo, Gaiman se propõe a realçar a fome (acrescentada na quinta versão do conto dos irmãos Grimm) e a guerra presentes na formação e na construção do conto.

Ambos os elementos são características marcantes para aquele povo que vivia em constante violência, dor e fome. Ao demarcar esses elementos e retirar a bruxaria, Gaiman retira o fantástico e o torna cru e palpável com o cotidiano. Essa é a mudança que faz com que a história, nos dias de hoje, deixe de ser para crianças e se torne essencial para um público mais velho entender o passado e a violência marcada nele.

Com simbolismos presentes desde o conto original, Gaiman mantém os elementos essenciais para a construção do enredo, principalmente, para a construção dos jogos de poder. Um dos jogos mais claros é o patriarcal, já que a mudança mais presente no texto é a aceitação paternal, em que o pai aceita as sugestões da mãe ao invés de fazer a sugestão conjuntamente, e a presença materna – ora da mãe, ora da madrasta. Nas vertentes primeiras e conhecidas, é sabido que ambos os pais chegam a conclusão que o correto seria abandonar os filhos (a versão contada por Dortchen, a esposa de um dos irmãos Grimm); nas posteriores, o pai se torna uma espécie de cúmplice-vítima, ora só obedecendo a esposa, ora se lamuriando pelo ocorrido.

A mãe, por vezes, torna-se madrasta, por seu simbolismo estrangeiro à família e de crueldade com a criança que não é sua. No entanto, sempre a responsável é a mãe, o que foge do estereótipo maternal, mas assegura ao pai um pedestal de excelência, o que, na minha concepção, não faz sentido. Entretanto, complementa a visão de teóricos de que a morte da mãe e da senhora/bruxa são interconectadas (o que provavelmente fez com que Gaiman permanecesse com a versão posterior dos Grimm).

A escrita do Gaiman segue um padrão simples, retirando os elementos presentes e que marcavam a oralidade do “conto original” (proposital a proposta histórica, ao que parece). Além disso, combina e muito com o traço pintado e marcado de Mattotti, já que o terror está a espreita das crianças o tempo todo, mesmo quando eles voltam para casa. É um traço simples e bonito, o qual retira as expressões, os rostos e a própria noção de reconhecimento dos personagens (já que eles podem ser todos e ninguém ao mesmo tempo).

Mattotti, ao fazer uma arte simplista e sem detalhes, relembra que João, Maria, Hansel, Gretel, o Irmão menor e a Irmã maior podem ser literalmente qualquer pessoa, que aquela história de contos de fadas – seja a da tradição popular alemã ou a que chegou na Itália – é parte do inconsciente coletivo, do povo, de suas histórias e raízes. Não há nomes na origem, porque podia ser qualquer criança perdida na floresta.

REFERÊNCIA

GAIMAN, Neil. João e Maria. Ilustração de Lorenzo Mattotti. Tradução de Augusto Calil. 1ª ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.

HEINER, Anne. SurLaLune Fairy Tales. The Grimms’ Notes For the Tale, 2013. Disponível em: <www.surlalunefairytales.com/hanselgretel/notes.html#ONE>