RESENHA #123: INFÂNCIA NO HOLOCAUSTO

AUTOR: Anne Frank
SINOPSE: O depoimento da pequena Anne Frank, morta pelos nazistas após passar anos escondida no sótão de uma casa em Amsterdã, ainda hoje emociona leitores no mundo inteiro. Seu diário narra os sentimentos, os medos e as pequenas alegrias de uma menina judia que, como sua família, lutou em vão para sobreviver ao Holocausto.

Quero continuar vivendo depois da morte!

Um dia, tudo o que conhecemos pode desabar. O que garante o nosso futuro? O que garante a estabilidade de um país? A ida a escola ou ao supermercado?

Você pode ser uma criança desamparada ou até mesmo um adulto com posses. Não importa. Quando ocorre uma guerra, sempre há vítimas. Elas são vistas, geralmente, como meros números em uma tabela histórica.

Mas e se essas vítimas forem selecionadas por características? Por ser negro ou por ser judeu? Quantas vezes, no decorrer da história, ocorreram genocídios? Quantas crianças, que jamais soubemos o nome, morreram? Quantos pais choraram a morte dos filhos e os filhos, dos pais?

São números, mas também são pessoas. O diário de Anne Frank mostra que as teorias dos especialistas, deduzindo que cinco a seis milhões de judeus morreram, não qualificam o desastre por completo, porque além de números imprecisos, não há quase nomes, histórias, paixões, vivências daqueles que se foram.

No entanto, alguns nomes se destacam no mar de desaparecidos. Anne Frank, por exemplo, é um deles. Ela deixou sua marca e, como a própria queria, continuou vivendo mesmo depois da morte. Dentre muitos sofridos, ela foi uma “felizarda”, não somente porque foi lembrada, mas também por ter vivido em um lugar escondida por quatro anos, o Anexo Secreto.

A história de Anne, embora muito dolorida, talvez pela experiência que já tive lendo obras de genocídio e guerra, não me comoveu tanto quanto eu acho que deveria ou faria. Isto se deve ao fato de que ela teve mais oportunidades do que outros na mesma situação. Assim, aqui entra um conflito da própria trama epistolar – ou seja, feita a base de cartas – de Anne: seria melhor chorar pelos próprios problemas ou pensar que é feliz mesmo na adversidade por que há muitos outros em situação pior?

Essa resposta fica a critério de cada um. No entanto, a obra de Anne Frank é uma autobiografia, isto quer dizer que é a perspectiva da personagem histórica. O texto se apresenta em formato de diário, mas não da maneira que estamos habituados: a menina exibe, no decorrer das páginas, cartas direcionadas a Kitty – sua amiga imaginária.

Contudo, deve-se levar em conta que é uma história extremamente bem detalhada e com fundamento histórico demais para uma simples criança, o que é problemático tendo em vista que ela não deveria saber tanto, ainda que vivesse nesse período. Mas, mesmo com essa mazela vivida pela protagonista, a narrativa não me deixou do jeito que eu acho que eu deveria estar. Não sei se foi pela personalidade pouco cativante e que, no decorrer das cartas, melhora muito; ou porque a tradução pecou em me apresentar todo o sentimento pela figura histórica.

Acredito que muito dessa minha relação com Anne se deva ao fato de que eu demorei a entender os seus sentimentos, por mais que, algumas vezes, eu tenha me visto na minha adolescência. Há crescimento, e é possível observar pela escrita e também pelo próprio conteúdo do texto o quanto ela amadurece e entende a situação terrível que está.

O fator idade é um peso enorme no decorrer da obra. Não só porque é brilhante uma menina de treze anos ser capaz de escrever tantas informações, mas também porque a puberdade e os hormônios influenciam as suas atitudes e pensamentos descaradamente. Não só eles, os demais habitantes também o fazem, já que conviver com as mesmas pessoas, todos os dias, fazendo as mesmas tarefas em um racionamento e num esconderijo é complicado.

Assim, embora não intencionalmente, Anne Frank demonstra como a convivência social e as relações familiares podem ser desgastantes para qualquer um dos membros e envolvidos. É terrível pensar a maneira em que as falhas dela – tão nítidas para o leitor – possam fazê-la parecer menos do que talvez ela tenha sido. Isso me incomoda.

Obviamente, ela era uma menina bem a frente de seu tempo, vivendo em um período conturbado em que a educação, as opiniões e a própria formação mental ainda estavam se desenvolvendo. Isso não só a torna mais madura, mas também demonstra o quanto a liberdade para ver novos horizontes e novas expectativas é importante para os jovens.

Há muito nesse diário que pode ser dito, analisado, refletido e pensado. O nazismo, a sua forma de execução, as barbaridades, as experiências de uma criança que cresce escondida do mundo e não é aceita e muito mais. No entanto, entre tudo que Anne Frank apresentou, acredito que a única coisa que me comoveu foram os seus sonhos: porque, desde o início, você já sabe que nenhum deles irá se concretizar. Querer ser mãe, se casar, virar escritora ou repórter… Quantos sonhos morreram por ganância, preconceito e guerra?

Incontáveis. Indizíveis. Incalculáveis.

A edição da Record, por mais que seja de capa dura, contenha fotos e um belo design, peca na apresentação geral do próprio texto: há títulos de obras que não foram traduzidas ou não se menciona o seu autor, notas que poderiam ter sido inseridas para explicação etc. Pressupor que todos vão entender títulos em inglês ou vão ter conhecimento histórico de alguns detalhes soa insensível e incompleto por parte de uma edição que deveria ser mais caprichada por dentro e não só por fora. Assim, pequenos detalhes teriam feito a diferença.

Como os pequenos e grandes detalhes fazem toda a diferença numa infância no Holocausto.

REFERÊNCIA

ALTARES, Guillermo. Por que falamos de seis milhões de mortos no Holocausto? El País. Internacional: 16/01/2017. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/13/internacional/1505304165_877872.html>

FRANK, Anne. O Diário de Anne Frank. Tradução de Alves Calado. 78ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2019.