RESENHA #122: ÓRFÃ DOCE E INOCENTE

AUTOR: Lucy Maud Montgomery
SINOPSE: Quando os irmãos Marilla e Matthew Cuthbert, de Green Gables, na Prince Edward Island, no Canadá, decidem adotar um órfão para ajudá-los nos trabalhos da fazenda, não estão preparados para o “erro” que mudará suas vidas: Anne Shirley, uma menina ruiva de 11 anos, acaba sendo enviada, por engano, pelo orfanato.
Apesar do acontecimento inesperado, a natureza expansiva, sempre de bem com a vida, a curiosidade, a imaginação peculiar e a tagarelice da menina conquistam rapidamente os relutantes pais adotivos. O espírito combativo e questionador de Anne logo atrai o interesse das pessoas do lugar – e muitos problemas também.
No entanto, Anne era uma espécie de Pollyanna, e sua capacidade de ver sempre o lado bonito e positivo de tudo, seu amor pela vida, pela natureza, pelos livros conquista a todos, e ela acaba sendo “adotada” também pela comunidade.

 

Com um ar trovadoresco e uma imaginação sem limites, Anne com E, também conhecida como Anne de Green Gables, é uma personagem cativante. Tão cativante quanto a sua história, sendo capaz de deixar até os mais carrancudos apaixonados e com um sorriso no rosto.

Se eu pudesse definir a sensação que tive durante o decorrer dessa leitura, eu diria exatamente isso: fiquei completamente apaixonada por essa menina esquisita e tagarela – e que eu tive, um par de vezes, vontade de mandá-la calar a boca. Ao menos, no princípio e, agora, quero que ela continue falando e falando sem parar.

A trama se passa em Prince Edward Island (em português: Ilha do Príncipe Eduardo), a província canadense em que Lucy Maud Montgomery – a autora – viveu durante a sua infância. Contudo, não somente a localidade, mas a história de Anne em si se parece com a de Montgomery em alguns momentos.

Ambas ficaram órfãs muito jovens, foram criadas por um casal de idosos e viveram de imaginação e literatura. Por conta disso, muito da trama parece extremamente verossímil, principalmente, em relação a uma menina em fase de crescimento e que, pouco a pouco, começa a ganhar maturidade e experiência. Inclusive, em uma parte da história, é possível encontrar um pseudônimo de Anne extremamente parecido com o da autora original.

No entanto, os mundos de Anne e Montgomery assumem posições distintas a partir daí. O passado de Anne é conturbado e boa parte foi vivida em lares provisórios e num orfanato, mas nada nesses lugares tirou a sua vivacidade e alegria, o que faz com que essa obra seja leve, delicada e extremamente fofa. Não tem palavra além dessa para descrevê-la.

Só que há um fator interessante e muito enraizado na obra da escritora: a religiosidade. Por diversas vezes, encontram-se lições ou morais bíblicas, as quais são instruídas por Marilla – a mãe adotiva de Anne – ou por outras personagens marcantes, como a professora, a vizinha ou a esposa do pastor. Essa religiosidade bem arraigada, leva também a um padrão social e preconceituoso daquela e de outras sociedades (mas que influenciaram a de Anne, definitivamente).

O cabelo ruivo, por muitas vezes, é visto de maneira extremamente negativa pelos personagens e, por mais que hoje encontremos diversas protagonistas com as madeixas dessa cor, na verdade, esse preconceito era bem comum naquele período e até em outros no decorrer da história. O cabelo vermelho, considerado bem raro, para os egípcios e os gregos, por exemplo, já estava associado a divindades ruins (ao menos, após o período persa, como é o caso de Seth) e a criaturas sobrenaturais, como os vampiros.

Dessa maneira, é possível perceber uma construção de características sociais próprias de uma sociedade pequena, pacata, antiga e conservadora. Além do preconceito com o cabelo ruivo, o destaque do papel da mulher na sociedade também era voltado aos afazeres femininos, o que significa dizer que mulheres não eram colocadas no mesmo patamar social do que os homens.

Inclusive, Montgomery faz uma jogada brilhante em relação a adoção de Anne, já que o casal de irmãos, Matthew e Marilla, queriam um menino, porém acabaram se encantando com a menina. Esse erro – ou Providência – faz com que pensemos nos papéis de cada um enquanto existe essa discussão implícita – às vezes, explícita – no decorrer da narrativa.

A obra, então, tem um cunho feminista. Anne, por vezes, questiona tais padrões; outras, simplesmente os aceita – o que de certa forma me causou um leve desconforto, embora seja justificado pelo período de criação. Assim, a construção dos personagens faz jus ao tempo histórico e também aos dogmas sociais impostos, levando em consideração características únicas no decorrer de sua criação.

Como uma obra voltada ao público infantil, ainda que possa ser devorada por todas as idades, a escrita da autora não é somente fluida, bem como moralizante, leve e cheia de descrições pitorescas (basicamente trovadorescas), próprias para levar as crianças a imaginar Green Gables. Assemelha-se, nesse aspecto, a Howard Pyle – autor de diversos livros sobre Rei Arthur –, ainda que a escrita de Montgomery seja mais rebuscada.

Esse rebuscamento, inclusive, vai se alterando com o decorrer do tempo e das situações no livro, cenas que ocorrem cada vez mais rápido aos nossos olhos. Contudo, isso se justifica de duas maneiras: (1) a passagem de tempo se relaciona ao ponto de vista dos personagens, considerando que Anne, ao crescer, ganhava cada vez mais responsabilidades, assim, a narrativa também se acelera; (2) a própria escrita se torna “menos complicada”, com menos palavras “difíceis”, isto se deve, sobretudo, ao entendimento de Anne que palavras fáceis são melhores para se expressar do que as difíceis.

A edição da editora Autêntica traz uma tradução esplendorosamente fluida da Márcia Soares Guimarães, muito embora tenha alguns erros de revisão. Além disso, possui notas sobre algumas curiosidades, bem como comenta sobre as citações, apreciadas Montgomery, de outras obras no decorrer do livro, instruindo-nos a conhecer mais textos. O material gráfico ficou excelente, desde a capa muito bem desenhada e acabada até a parte de dentro, que conta com diversas imagens cheias de significados para a história, inclusive, com algumas ilustrações de cenas específicas.

Aos poucos, conhecemos e nos apaixonamos por Anne. Anne com E. Anne de Green Gables. Uma órfã doce e inocente.

REFERÊNCIA

MONTGOMERY, Lucy Maud. Anne de Green Gables. Tradução de Márcia Soares Guimarães. 1ª ed. 4ª reimp. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2020.