RESENHA #121: MULHERES DE SEIS LETRAS

AUTOR: Sylvia Plath
SINOPSE: Dos subúrbios de Boston para uma prestigiosa universidade para moças. Do campus para um estágio em Nova York. O mundo parecia estar se abrindo para Esther Greenwood, entre o trabalho na redação de uma revista feminina e uma intensa vida social. No entanto, um verão aparentemente promissor é o gatilho da crise que levaria a jovem do glamour da Madison Avenue a uma clínica psiquiátrica.

 

Esther, em um momento efusivo de sua vida, tentando determinar um rumo para ela, diz que vai escrever um romance. O nome de sua protagonista vai ser Elaine, pensa, porque tem a mesma quantidade de letras que Ester: pois Elaine era Esther.

Em todos os sentidos.

Assim, começo esse texto questionando: se Elaine era Esther, por que Esther não é Sylvia? São seis letras, certo?

A redoma de vidro é, na minha perspectiva, uma ficção biográfica, como, atualmente posso comparar, faz Patti Smith, em O ano do macaco. Há elementos biográficos como a ida a clínica e as tentativas de suicídio, que resultam, no ano de publicação desse único e último romance (1963), em fatais. De acordo com alguns teóricos, é uma semibiografia. Assim, pergunto: por qual motivo seria semi se todos os sentimentos de Plath, os mais doloridos e dolorosos, apresentam-se ali, terríveis e fortes de um jeito que só ela sabe fazer?

Essa é a segunda vez que leio esse livro e sinto que ele continua a me tomar por inteira e, a cada releitura, eu sinto o seu peso nos meus ombros – é dolorido, frio e, ao mesmo tempo, estranha e assustadoramente acolhedor. Muito de Plath, devo admitir, habita em mim.

A obra conta com Esther como protagonista, semelhante a escritora do romance, a personagem sempre foi requisitada e premiada. Era excelente aluna. No entanto, em algum ponto, tudo acabou se perdendo porque ela ficou presa em uma redoma de vidro. Às vezes, penso que literalmente; outras, retomo a ideia de que é uma metáfora.

Plath tem uma escrita leve e poética, revelando uma série de metáforas complexas, como, uma das que eu mais gosto, o desejo pelo futuro através de uma árvore de figos. Em que eles murcham porque ela é incapaz de se decidir.

Ela sempre quer mais de uma coisa e é chamada de neurótica por isso e admite a sua neurose, no fim. Assim, podemos observar que muito da depressão de Esther é a cobrança dela para si e do mundo em relação a si.

Dessa maneira, deve-se lembrar do contexto social que a escritora e a personagem estavam inseridas. Após a guerra, a mulher teve mais espaço no mercado de trabalho, possibilitando-a se dividir entre uma mulher voltada para o lar e outra, para o trabalho. Contudo, naquele período, não existia a possibilidade de ser as duas: ou você era do lar; ou era do emprego.

Através de uma posição progressiva e feminista, a obra rechaça posições servis ao homem, a imposição social da mulher voltada à domesticação feminina, tomando, de certa maneira, ojeriza ao casamento e a família. Não porque a personagem não quisesse a priori, mas porque a hipocrisia dos homens a enojava.

Além disso, também encontramos uma narrativa em primeira pessoa extremamente complexa, flutuando entre a realidade e o seu fluxo de consciência, o que não somente mescla o que é com o que poderia ser; mas aliena a protagonista, o que faz com que personagens secundários, por exemplo, não tenham aprofundamento psicológico ou até mesmo de construção.

É necessário destacar também como a depressão faz com que Esther não enxergue as suas possibilidades e a si mesma, as suas conquistas se tornam irrelevantes para a sua saciedade, sua felicidade, levando-a a necessidade de tratamento. O que entra em outro detalhe interessante da obra, lembrando da nossa Nise da Silveira, aquela que trouxe a terapia ocupacional como um dos melhores modos de tratamento psicológico.

Nesse livro, é possível ver o quanto um bom médico faz diferença, um psicólogo que entenda e seja humano com seu paciente; ao contrário daquele que não se importa de fato com os seus problemas. É um livro que eu indico para futuros psicólogos e psicólogos.

A tradução do Mattoso é excelente, trazendo a fluidez do texto original. A edição da Biblioteca Azul tem uma capa singela e que combina assustadoramente com a obra – porque ela inspira a poesia. É uma edição que diz, mesmo sem ter introduções ou apêndices.

Por fim, levanto outro e último questionamento: por que Plath optou por publicar no pseudônimo Victoria Lucas? Seria por que os finais eram diferentes demais? Esther, com suas seis letras, viu a redoma se afastar; Sylvia, com suas seis letras, não conseguiu e os sinos – numa piada do inglês, já que a obra original se chama The bell Jar – tornaram-se insilenciáveis.

REFERÊNCIA

PLATH, Sylvia. A redoma de vidro. Tradução de Chico Mattoso. 2ª ed. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2019.