RESENHA #120: MEDO DOS VIVOS

AUTOR: Hugo Tavares
SINOPSE: Relatos Urbanos reúne treze contos com narrativas breves, ágeis e concisas, que abordam a obsessão e a barbárie humana no cotidiano. Ambientadas nos anos 80 e 90, as estórias são marcadas pelo ar sombrio, realista e sarcástico.

A vida sem ironia é incongruência.

Quando a oportunidade de ler a obra de Hugo Tavares surgiu, eu não fazia ideia do que encontraria. Apesar de ter procurado informações a respeito do livro, tudo o que consegui descobrir foi que leria treze histórias, passadas entre as décadas de 80 e 90, as quais retratariam as diversas faces da crueldade e da obsessão humanas.

Com essa única expectativa, virei a primeira página de Relatos Urbanos. O primeiro conto me convidava a adentrar o bar do Seu Clóvis e eu mal sabia o que me esperava a partir dali.

Ao longo dos doze contos seguintes, a sensação de perturbação e de desconforto foram minhas companheiras constantes. Isso porque todos os enredos, sem exceção, propõem a queda de máscaras que, uma vez no chão, revelam as piores facetas humanas. Contudo, essas sensações incômodas possuíam uma contraparte: o divertimento, cuja origem é o humor ácido com que Hugo pincela suas páginas. Dessa forma, durante a leitura, senti como se estivesse assistindo de camarote a uma sucessão de pequenos e grandes pecados, motivados pelas mais diversas circunstâncias e flagrados por lentes um tanto irônicas e mordazes. Assim é a escrita do autor.

Ao nomear sua obra de Relatos Urbanos, Tavares cria um paralelo interessante e bastante coerente com as famosas lendas urbanas, partes do folclore popular amplamente divulgado (quem nunca ouviu falar da Loira do Banheiro ou do Homem do Saco?). Os contos apresentados têm esse ar de história fantasiosa, aquelas que “aconteceram com um amigo de um amigo”. Alguns aspectos similares são: as datas não muito precisas; os personagens recebendo apenas um primeiro nome ou apelido, mas nunca o nome todo (os narradores às vezes não recebem nenhum dos dois); frequentemente, quem narra assume a imprecisão da própria memória. Assim, as histórias ganham um quê vago, fantástico, incrível.

A escrita de Tavares é fluida e os erros de revisão são quase nulos, o que torna a leitura tranquila, não impondo aos leitores grandes problemas na compreensão do conteúdo; a exceção fica por conta daquelas cenas que deixam acontecimentos implícitos, exigindo certo esforço de interpretação. As duas únicas coisas que prejudicam um pouco o caminhar da obra é o excesso de palavrões – não por um puritanismo qualquer meu, mas pela frequência com que aparecem –; e o uso regional do “tu” com a antiga conjugação, o qual pode soar arcaico em algumas localidades do Brasil e, assim, gerar estranhamento.

Gostei muito das temáticas dispostas pelo o autor, pois, embora as histórias se passem nas décadas de 80 e 90, todas são bastante atuais e plausíveis no contexto urbano em que vivemos, marcado pela mesma violência extrema, insegurança constante, corrupção desmedida e ausência de empatia; e, para além de tudo isso, pelo medo que nos cerca como uma cortina de ferro.

Relatos Urbanos é um livro capaz de agradar por diversos motivos, como: a escrita fácil; as possíveis referências de lendas urbanas; as histórias curtas, de rápida leitura; os enredos instigantes; etc. No entanto, eu sinto que o maior mérito da obra é essa capacidade de perturbar e entreter ao mesmo tempo. Ao acompanhar, através das páginas, quão esquisitos, mesquinhos e desumanos os seres humanos podem ser, eu não pude evitar relembrar uma frase que minha mãe dizia quando eu era pequena:

Não tenha medo dos mortos, tenha dos vivos. Eles que vão acabar destruindo você.

REFERÊNCIA

TAVARES, Hugo. Relatos Urbanos. Rio de Janeiro: Multifoco, 2019.

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