RESENHA #119: O PROPÓSITO DA MORTE

AUTOR: Lev Tolstói
SINOPSE: Tolstói narra a história de Ivan Ilitch, um juiz de instrução que, depois de alcançar uma vida confortável, descobre que tem uma grave doença. A partir daí, este passa a refletir sobre o sentido de sua existência, numa experiência-limite de rara força poética, que só a grande literatura consegue traduzir.

 

O que você fez durante a sua vida? Já parou para pensar nisso? A cada dia que passa, nós vivemos atolados de tarefas, problemas e, com a modernidade, o dia passa em segundos. Você notou que hoje o dia já está quase no fim? Ou está apenas no início? Não importa, vai ser rápido.

A vida ser breve é o que dá sentido a ela, pois é seu oposto, a morte, que faz com que destinemos atenção às pequenas ou grandes coisas. Pelo menos, essa deveria ser a nossa intenção.

Ao menos, deveria.

Trabalhar a morte, falar sobre ela é uma das maiores habilidades de Tolstói. Aficionado pela temática, o autor traça uma linha narrativa que conta a história de Ivan Ilitch no final dos seus dias – e como foi a percepção do personagem sobre a vida e o seu final.

Desde a busca por um propósito até o transcorrer da vida, como em um filme, Tolstói opta por trabalhar a vida e não, de fato, a morte de Ilitch. O que a vida lhe trouxe? Qual foi o sentido e a importância dele em tudo isso? Será que valeu a pena fazer as escolhas que fez?

Tolstói, então, não fala só sobre a morte – tema cerne –, mas também sobre todas as aflições que consideramos durante o decorrer da vida, visto que, para falar de um dos opostos, é necessário – com maestria – falar do outro.

Maestria é um dos sobrenomes do autor, devo ressaltar. Em uma escrita fluida e uma novela arrebatadora, o escritor metaforiza as relações humanas e a ausência da empatia. Um exemplo disso, é a comparação feita entre o ofício de juiz de Ivan Ilitch com a função dos médicos que se consultava. Nesse momento, o personagem se recorda de como tratava os casos que apareciam em sua frente. O quanto de fato ele se importava com as pessoas que julgava? Assim, em uma associação à falta de resoluções, Ivan comparava os médicos a ele próprio.

Essa metáfora é extremamente rica de nuances sobre as nossas relações com o decorrer da vida cotidiana: o que nos é comum ou desimportante, em algum momento, pode vir a ser essencial. Na maior parte das vezes, tarde demais.

Outra nuance do texto, muito bem encaixado com o contexto de Tolstói, é a relação das pessoas com a morte de alguém. Elas são definidas a partir do que sentem por esse alguém. Alguns se importam com o morto; outros desejam saber como ficarão; há aqueles que nem uma coisa e nem outra. Afinal, quem era ele mesmo? Essa efemeridade demonstra também a crueza e a certeza de que a nossa não-eternidade pode gerar o mero esquecimento. Ou a glória, nunca se sabe.

É um livro que Tolstói pode ser dois personagens: o amigo de Ivan, como foi de Turguêniev; ou o próprio Ivan. No entanto, também demonstra o quanto o autor valorizava o pensamento simplista, a partir da figura de Guérassim.

Em uma crítica social e, podemos dizer, até religiosa, o escritor questiona a vida e a morte em um texto de poucas páginas, mas com muitos significados. É uma obra clássica que foi muito bem traduzida pelo Boris Schnaiderman, lembro de ter encontrado apenas um erro no decorrer da leitura. Além disso, a edição não traz nenhuma introdução, o que pode ser positivo aos leitores, já que vão direto ao texto – ou negativo, porque podem perder nuances possivelmente mencionadas nos textos primários das edições.   

REFERÊNCIA

TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman; texto em apêndice de Paulo Rónai. 2ª edição. São Paulo: Editora 34, 2009.