RESENHA #115: MITO NO CAMINHO

AUTOR: Neil Gaiman
SINOPSE: Ele sabia que os adultos não conseguiriam — e não deveriam — compreender os eventos que se desdobravam tão perto de casa. Sua família, ingenuamente envolvida e usada na batalha, estava em perigo, e somente o menino era capaz de perceber isso. A responsabilidade inescapável de defender seus entes queridos fez com que ele recorresse à única salvação possível: as três mulheres que moravam no fim do caminho. O lugar onde ele viu seu primeiro oceano.

Quanto mais curto, mais denso um livro pode ser. Assim, a dificuldade de falar sobre tal obra se torna imensa, quase um trabalho hercúleo e inalcançável! Contudo, evitar essa labuta não é o método adequado de lidar com uma obra que pode trazer o mundo, o inconsciente, o mito, o eu.

O Oceano no fim do caminho é um romance, quase conto, do Neil Gaiman – mas definitivamente não é uma fábula. Para quem não está habituado as loucuras literárias dele, saiba que é um tipo de autor que se propõe a falar do mito, da experiência do homem com o princípio, com e como é a origem de tudo. No entanto, quando pensamos em mito, não podemos deixar de lado tudo que essa parte do illo tempore pode nos trazer, ou seja, desse tempo primordial.

A história é sobre um homem, um homem-menino, ou só menino. Quem é que diz que a idade se refere ao tempo de experiências? Não é certo, muito menos em Oceano. O tempo é perdido na memória e a memória se perde com o tempo – essa é uma das grandes sacadas da obra e, principalmente, do que vem a ser mito. Contudo, dizer que a obra é sobre o homem é tão errado quanto dizer que a história é uma fábula: a história é sobre o que vale a pena em alguém que tem um buraco no peito, também é sobre sacrifício e experiência.

Isso soará mais claro para alguém que já leu o livro, mas pode soar plausível para quem não leu: porque todos temos um buraco no peito que exige respostas e precisa ser preenchido com experiências, não é para isso que lemos? Isso também fala sobre o que entendemos quando estudamos a mitologia: mitos nada mais são que buraquinhos no peito para os quais não temos explicação.

Essa não-explicação, numa noção mítica ou até kafkaniana, é um ponto chave na obra de Gaiman, porque o mundo começa num tempo antes do tempo, antes da narrativa e exigir explicações quanto a isso é tentar entender a naturalidade do mundo. E quem é que realmente sabe? O mito está aqui, nessa história, como está em todas as histórias da Antiguidade para tentar achar uma resposta para algo que não se tem explicação.

Gaiman trabalha o mito; as suas obras se lambuzam no que de mais essencial existe no homem: o inconsciente, o coletivo – na metáfora prototípica da obra, é o próprio oceano. Profundo, abissal, tal como a trama que, por mais infantil que possa parecer, é assombrosa. O Oceano está no centro da narrativa, sendo um personagem e espaço importantes para a construção tanto do protagonista sem nome quanto de todo o resto.

Assim, o cerne é o mito. Após isso, vem o que vale a pena e o sacrifício, mas, não menos importante é a construção dos próprios personagens. Os personagens são tão míticos e arquetípicos quanto o mito exige deles, pela própria questão da identificação – não por uma questão da fábula, da noção de crítica social, por mais que seja possível encontrar visceralmente o desejo financeiro e a corrupção humana.

Mas isso é parte da natureza do homem e, assim, retomamos a noção mítica. Essa noção, inclusive, envereda na presença das três Hempstock: representações positivas da Deusa Mãe e também das divindades tripartidas de diversas mitologias, como demonstra a ideia da costura, do entendimento do passado, do presente e do futuro, além da própria aparência e da passagem do tempo: a jovem, a mulher e a velha. Há múltiplas leituras possíveis quanto a isso; como a própria pulga, cuja ideia – pelo nome – está conectada aos celtas.

É uma obra que brinca com a memória, com a passagem do tempo e a inocência dos homens numa escrita cativante e simples, sem muitas extravagâncias metafóricas (até porque a metáfora já é o próprio texto). Além disso, seu tom maniqueísta se constrói, mas se desprende no decorrer das ações de todos os personagens, trazendo mais do mito moderno e das tendências contemporâneas de fazer mito e ser mito. É um jogo inconsciente e profundo como um oceano.

Por isso, só resta ele no fim do caminho. 

REFERÊNCIA

GAIMAN, Neil. O oceano no fim do caminho. Tradução de Renata Pettengill. 1ª ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013.