RESENHA #114: O PODER DAS MULHERES

AUTORA: Anne Fortier
SINOPSE: Diana Morgan é professora da renomada Universidade de Oxford. Especialista em mitologia grega, tem verdadeira obsessão pelo assunto desde a infância, quando sua excêntrica avó alegou ser uma amazona – e desapareceu sem deixar vestígios.
No mundo acadêmico, a fixação de Diana pelas amazonas é motivo de piada, porém ela acaba recebendo uma oferta irrecusável de uma misteriosa instituição. Financiada pela Fundação Skolsky, a pesquisadora viaja para o norte da África, onde conhece Nick Barrán, um homem enigmático que a guia até um templo recém-encontrado, encoberto há 3 mil anos pela areia do deserto.
Com a ajuda de um caderno deixado pela avó, Diana começa a decifrar as estranhas inscrições registradas no templo e logo encontra o nome de Mirina, a primeira rainha amazona. Na Idade do Bronze, ela atravessou o Mediterrâneo em uma tentativa heroica de libertar suas irmãs, sequestradas por piratas gregos.
Seguindo os rastros dessas guerreiras, Diana e Nick se lançam em uma jornada em busca da verdade por trás do mito – algo capaz de mudar suas vidas, mas também de despertar a ganância de colecionadores de arte dispostos a tudo para pôr as mãos no lendário Tesouro das Amazonas.
Entrelaçando passado e presente e percorrendo Inglaterra, Argélia, Grécia e as ruínas de Troia, A irmandade perdida é uma aventura apaixonante sobre duas mulheres separadas por milênios, mas com uma luta em comum: manter vivas as amazonas e preservar seu legado para a humanidade.

Você se acha mais forte que o Destino?
Todos nós somos cálices, e nosso destino
é servido segundo medidas que não podemos
compreender nem influenciar.

A ideia de uma sociedade matriarcal guerreira que não precise de homens para nada, exceto a reprodução, habita o imaginário popular há um longo tempo. Não é à toa que, bem antes de Cristo, na mitologia grega, encontramos várias referências às mulheres chamadas amazonas, as quais, segundo diz o mito, queimavam o seio direito na infância, porque facilitava o manuseio da lança. Com uma ou outra diferença, encontramos referências a elas na Odisseia; nos doze trabalhos de Hércules (ou, em grego, Héracles); no mito de Jasão e os Argonautas; em descrições do trágico grego Ésquilo.

O tempo não matou o mito. Em 2015, Anne Fortier presenteou-nos com uma história que, intercalando passado e presente, aborda criativa e cuidadosamente (embora ficcionalizando-os) os relatos e registros por trás dessas mulheres míticas. A autora tece sua narrativa apoiada em mitos, autores clássicos e documentos oficiais, sustentando um enredo que passeia pela História e pela Mitologia sem impor limites claros de onde termina um e começa o outro. Embora existam alguns desencontros históricos, a forma com que Fortier relê os mitos para construir sua narrativa é preciosa, porque resgata no passado e projeta no presente o que essas mulheres tinham de mais precioso: umas às outras, o poder de mulheres que unem suas forças.

O que é a verdade, afinal, além do que um ponto de vista legitimado? A verdade de quem? Sustentada pelo que se conhece ou pelo que se convencionou conhecer? A História é o que se conta ou o que se esconde? É dos homens ou de todos? É dos vencedores, sim, mas e a dos vencidos? Essas são algumas das perguntas que passaram pela minha mente enquanto eu acompanhava a protagonista em sua viagem pelo mundo, cuja busca principal era a sua verdade – sua e de sua amada avó.

Falando em protagonista: que mulher, senhoras e senhores! Diana Morgan, nome que resgata tanto a deusa da Lua e da Caça quanto Morgana, personagem das lendas do Rei Arthur, é uma mulher forte. Não porque levante um carro ou dome um touro com as mãos nas costas, mas porque aprendeu a mais difícil das lições: resiliência. A quantidade de tombos – físicos e psicológicos – que ela leva ao longo da trama não são brincadeira. Ainda assim, ela está sempre disposta a lutar pelo que acredita, a não desistir e a levar a sua busca até o fim. Não importa o que lhe custe. Mais importante, ela não aceita abandonar e duvidar de quem ama.

É justamente por acreditar nas palavras de sua já referida avó, uma das mulheres mais importantes e influentes em sua vida, que Diana parte em busca de uma pista como quem busca a origem de um tiro no escuro. Com a certeza que seu bracelete de chacal, presente da anciã, e seu instinto lhe conferem, a moça parte rumo à África, na aventura mais estúpida e, também, mais emocionante de sua vida.

Apesar da quantidade de páginas, A Irmandade Perdida não se torna cansativa em nenhum momento. Isso porque Fortier amarra os acontecimentos de forma convincente e dosa cuidadosamente as emoções. Em momento algum o romance sobrepõe o drama, e este ao suspense. Desde o princípio, tudo simplesmente se encaixa. O único aspecto que talvez deixe a desejar é a presença de alguns trechos que insinuam a presença de certo racismo dentro da obra, embora, depois de refletir, eu os tenha interpretado como uma descrição inserida em seu tempo histórico, no qual o conceito não cabe.

Inicialmente, pensei que a estratégia de intercalar passado e presente não funcionaria. No entanto, a escritora soube quando fazê-lo e quando não. Mantendo nomes como vínculo, ela entrelaçou os tempos, fazendo-os entrar em uma espécie de ressonância: a ideia do tempo cíclico, a qual faz parte da cultura grega assim como o mito das amazonas.

A pergunta mais importante da obra parece ser: as amazonas existiram? No entanto, há outra questão por detrás dela que parece tocar ainda mais profundamente a protagonista: se elas existiram, o que eu farei com essa informação? No livro, ter ou não ter uma informação representa uma ideia de poder – econômico, certamente (os ladrões de relíquias estão lá para prová-lo), mas também de autoconhecimento. Saber de algo também significa saber quem sou.

A realidade é que, se a existência das amazonas se provasse um fato e não só um mito, tudo que se tinha como verdade sobre a avó de Diana seria jogado pelo ralo. Não se sabe se as amazonas realmente existiram tais como são narradas nos mitos. Não é só possível, como muito provável que mulheres assim tenham existido – as nossas índias icamiabas, na Amazônia, estão aí para provar o que digo.

Mas quanto do mito se respaldou na vida, quanto da vida se respaldou no mito… quem saberá com cem por cento de certeza? Acho, que, no final, assim como no caso da avó, a verdade não importa. O que se deve considerar, viajando por essas páginas junto a Diana, é que a ficção tem sua própria maneira de construir verdades – jamais menos válida, sempre muito gratificante.

REFERÊNCIA
FORTIER, Anne. A irmandade perdida. São Paulo: Arqueiro, 2015.