RESENHA #113: CLAUSTROFOBIA

AUTOR: Andrew Michael Hurley
SINOPSE: Quando os restos mortais de uma criança são descobertos durante uma tempestade de inverno numa extensão da sombria costa da Inglaterra conhecida como Loney, Smith é obrigado a confrontar acontecimentos terríveis e misteriosos ocorridos quarenta anos antes, quando ainda era criança e visitou o lugar.
À época, a mãe de Smith arrastou a família para aquela região numa peregrinação de Páscoa com o padre Bernard, cujo antecessor, Wilfred, morrera pouco tempo antes. Cabia ao jovem sacerdote liderar a comunidade até um antigo santuário, onde a obstinada sra. Smith crê que irá encontrar a cura para o filho mais velho, um garoto mudo e com problemas de aprendizagem.
O grupo se instala na Moorings, uma casa fria e antiga, repleta de segredos. O clima é hostil, os moradores do lugar, ameaçadores, e uma aura de mistério cerca os desconhecidos ocupantes de Coldbarrow, uma faixa de terra pouco acessível, diariamente alagada na alta da maré. A vida dos irmãos acaba se entrelaçando à dos excêntricos vizinhos com intensidade e complexidade tão imperativas quanto a fé que os levou ao Loney, e o que acontece a partir daí se torna um fardo que Smith carrega pelo resto da vida, a verdade que ele vai sustentar a qualquer preço.

E acho que o melhor é manter as coisas como eram.
Como elas sempre foram. É o que todo mundo sabe.
Todos precisamos de uma rocha em que nos agarrar
durante a tempestade.

 

A primeira coisa que chama a atenção em Loney é a capa. Não só por ser dura, mas por ser completamente preta, exceto pelo título e pelo enigmático desenho de uma cabana sobre raízes retorcidas. Desde a primeira vez que olhei para esse livro, senti que precisava lê-lo. Ele tinha me escolhido.

Bem, eu estava certa.

No entanto, a obra de Andrew Hurley não me ganhou de imediato. Isso porque Loney é o tipo de livro que precisa ser lido quando o leitor está pronto para ele, não o contrário. Existe um momento certo, um instante perfeito em que obra e leitor se encontram: quase como um ato romântico, o que a leitura não deixa de ser. No meu caso, isso aconteceu em uma madrugada, pouco mais de uma semana atrás, exatamente um dia depois do Natal – escolha bem irônica, considerando a temática do livro.

A história que Hurley se propõe a contar é tanto simples como insólita: os Smith, uma família religiosa, partem com outras pessoas de sua igreja em uma peregrinação de Páscoa por Loney, um lugar inóspito na costa inglesa. Eles acreditam que somente lá seu primogênito, Hanny (apelido de Andrew, curiosamente o mesmo nome do autor), mudo e com graves problemas de aprendizagem, pode ser curado. Não é a primeira vez que o grupo faz a viagem, mas é a primeira depois da morte do padre Wilfred, pároco e guia durante os dias de penitência. Agora, após seu falecimento e sob a liderança do jovem e espirituoso padre Bernard, eles buscam o seu milagre mais uma vez.

Quem dá voz à história é o segundo filho dos Smith e, portanto, irmão mais novo de Hanny. Ele situa sua narrativa quarenta anos depois dos acontecimentos contados, já nos deixando saber de antemão, por exemplo, que seu irmão já não lida com os mesmos problemas. Mas, é claro, não nos conta o como – a primeira questão aberta.

Sem nunca revelar seu nome, o narrador aos poucos vai reconstituindo os dias daquela última peregrinação pelo lugar. Não é por acaso que as lembranças daquela Páscoa retornam. Tudo volta à sua mente após um corpo de uma criança ser encontrado naquele pedaço de terra do seu passado. Então, resta ao leitor, acompanhando o seu relato de temporalidade não-linear, tentar responder à segunda questão: o que diabos aconteceu no Loney naquela última e fatídica Páscoa?

Loney foi vendido como um livro de terror – e ele é, embora, não do tipo a que estamos acostumados. Isso porque o que Hurley nos entrega é um exemplar de terror gótico, cujas características principais com certeza não incluem sustos ou violência gratuitos. Na verdade, o romance se constitui muito mais pelo medo de que algo aconteça do que por acontecimentos em si. Além disso, os maiores monstros não são exteriores aos homens, mas habitam no interior deles. Cada um luta com seu demônio interior e, às vezes, com os alheios.

Sua escolha certamente não foi gratuita ou impensada, até mesmo pela relação pessoal que o autor mantém com a temática e com a sua abordagem dentro do livro. Ao longo das páginas, enxergamos um anticlericalismo pungente, traduzido na decadência física e moral das personagens diante da ausência de provas concretas e irrevogáveis da existência de Deus.

O mal interior das personagens, característico da literatura gótica, traduz-se sobretudo em dois personagens: Esther, a mãe dos irmãos Smith; e padre Wilfred, o pároco falecido que conhecemos por flashbacks. Enquanto a primeira rompe os limites do aceitável em busca da cura, atendo-se tão fielmente às tradições e, como consequência, passa por cima mesmo de sua humanidade; o segundo, ante à perspectiva da inexistência de Deus, perde sua sanidade.

A decadência dos personagens ilustra, assim, a decadência da própria religião católica, recheada de dogmas herméticos e concepções que, se levadas ao extremo, beiram a crueldade. No Loney, há tudo, menos Deus. Contudo, é lá que o buscam – em um lugar ermo, habitado, segundo dizem as lendas, por uma bruxa. A bruxaria, aliás, é o contraponto pagão do catolicismo. Ela é a chave da maior ironia da obra – ironia esta que apenas o narrador e o padre Bernard conhecem.

A ambientação da obra, se pudesse ser resumida em um adjetivo, seria “claustrofóbica”. Não que se trate de um ambiente fechado – exceto a Moorings, casa onde a família e o restante dos fiéis ficam –, tudo é bem amplo; mas sua amplitude, limitada apenas por um mar violento, é uma prisão sufocante tal como se todos estivessem confinados dentro de quatro paredes. Tudo é tão decadente que todos poderiam estar muito bem em um caixão.

Até o final, nenhum dos acontecimentos contradiz minha teoria. Adotando o medo como constante nessa equação – traduzido pelo mar implacável e imprevisível, as florestas recheadas de segredos antigos, os templos e santuários decadentes, a doença que ronda Moorings, a bruxaria e os outros habitantes –, Andrew Hurley tem a capacidade de, ao mesmo tempo, asfixiar-nos e deixar-nos o mínimo de oxigênio para que persigamos a leitura até o fim. Não atrás de respostas fáceis, até porque não serão muitas; mas apenas pela emoção de sofrer com perguntas para as quais, no fim, a existência de uma resposta pode ser pior do que a ausência de uma.

REFERÊNCIA

HURLEY, Andrew Michael. Loney. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.