RESENHA #112: PROFÉTICO E ATEMPORAL?

AUTOR: George Orwell
SINOPSE: Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O’Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que “só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro”.

Quem controla o passado, controla o futuro.
Quem controla o presente, controla o passado.

1984. 2001. 2019. 2050. O que significam? Esses podem ser meros números aleatórios jogados em uma tela de celular ou de computador, mas também podem ser datas marcantes na história da humanidade. 1984, como data histórica, não é o mesmo que 1984, data possível para um futuro distópico, porque, de fato, quem consegue controlar o tempo nesse tempo? Um é passado; o outro, um alerta.

A obra aclamada de Orwell é relida e revista a todo pico da narrativa política da humanidade, isto se deve ao fato de ser tanto profética – por mais pessimista que pareça – quanto atemporal. Ao traçar um panorama político, o autor de A Revolução dos Bichos também pontua o que é ser um ser humano, desde as suas fraquezas até seus problemas mais intrínsecos.

Como Aristóteles diz em Política, e já revisamos essa ideia por aqui, o ser humano é um ser político por viver em sociedade. Aliada a essa ideia, 1984 é o resultado – e também parte do processo – dos sistemas totalitaristas que marcaram a vida do escritor. Por conta disso, muitos teóricos acreditam que a leitura de 1984 precisa de um aporte contextual para ser compreendida, já que no tempo de divulgação acreditaram ser uma crítica ao próprio partido de Orwell.

No entanto, eu discordo disso. Sem pensar em tipos de regimes e ideias políticas, Orwell consegue traçar perfis e pequenas demandas negativas de progressões ideológicas. Isso quer dizer o seguinte: existem características positivas e negativas em todas as ideologias políticas, afinal, ninguém é completamente errado e nem perfeito. Levando isso em consideração, podemos pensar em pequenas ideias que podem ser desencadeadas em qualquer regime, mesmo na democracia.

Assim, mesmo hoje, encontramos – fugindo do totalitarismo – características apresentadas por Orwell e que urgem na nossa vista. Um exemplo bem claro e contemporâneo são as famosas Fake News, elas são informações que não condizem com a verdade, mas são transmitidas ao público para fazê-lo aceitar certa medida ou votar em algum candidato. Esse método também é chamado de firehosing, utilizado desde as grandes guerras, é um modelo propagandista de contar uma mentira absurda e, muitas vezes, sem sentido, mas na qual a grande massa é levada a acreditar por ser uma informação disseminada.

Entre outras características marcantes de dominação, como as mudanças sofridas na língua pela Novafala, Orwell faz um trabalho fantástico de (1) entender o ser humano; (2) compreender como ele funciona em sociedade; e, não menos importante, (3) entender a própria sociedade. Somos seres políticos, sendo assim, também somos a construção da sociedade.

Dizer construção da sociedade é entender a importância de como a sociedade se formou, de que maneira ela se deu: é investir, acima de tudo, em seu passado para explorar o seu presente e estagnar o seu futuro. Assim, a epígrafe desse texto – e uma das frases mais marcantes de 1984 – é extremamente importante para compreender o que o autor quer trabalhar.

George Orwell entende que a política do homem, o homem-político, precisa ter memória, pensamento, ideias – ele precisa se cercar de um movimento crítico, de um pensamento ácido e constantemente questionador, considerando as suas experiências e vivências. Ele precisa tender à evolução e não, à estagnação. Esse é o maior alerta orwelliano e que deve ser, cada vez mais forte e presente na nossa atualidade, levado em consideração (ainda mais a perspectiva de especialistas).

  Os personagens apresentados são ambíguos, a todo tempo, brincam com o amor e flertam com o ódio, sem de fato entender nenhum dos dois sentimentos, por estarem já influenciados pela língua e pela ideologia do Partido. O Partido é o centro de tudo e que tudo vê – Big Brother, o programa da televisão, ou melhor, da teletela, é uma piada pronta –, assim, as suas emoções, as suas relações, as suas concepções são todas controladas e, aos poucos, desaparecem. Menos os proletas, eles vão salvar o mundo porque, no fundo, são escravos com os quais ninguém se importa.

Acredito que a perspectiva tomada pelo autor poderia ser a dos proletas, o proletariado, a grande massa, e daria uma obra fantástica e revolucionária. No entanto, isso tiraria o lugar de conforto do autor – aquele que não é massa e nem Núcleo do Partido –, mas alguém que está no meio político, só não é inserido a fundo nele (ainda menos no totalitarismo). Winston Smith, protagonista da narrativa, pode muito bem estar no lugar do Orwell e Orwell ser um pouco de Smith.

Na verdade, todos somos Smith.

A edição especial de 1984 – cedida em parceria pela Companhia das Letras – está impecável. Não é pouco dizê-lo, já que, além de um ensaio visual da Regina Silveira de tirar o fôlego, a fortuna crítica traz pesquisadores renomados e muito conhecidos no mundo todo, como a Nussbaum e o Crick. São leituras complementares e que fazem toda a diferença para novas perspectivas sobre a narrativa (seja por concordar com elas ou não). Após 70 anos de capas de 1984 (do mundo todo), temos ideias, debates e discussões do contexto histórico de Orwell e do nosso próprio cenário político. É uma edição atualizada, renovada e fantástica, desde a tradução até a organização – deve-se parabenizar e muito o Alexandre Hubner, a Heloisa Jahn e o Marcelo Pen! Com capa dura e de tecido, numa diagramação impecável, essa obra definitivamente seria proibida na Oceania, lugar em que Smith mora e, se continuarmos assim, essa proibição se estenderá a nós.

REFERÊNCIA

ORWELL, George. 1984. Tradução de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn; apresentação e organização de Marcelo Pen. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.