RESENHA #111: MISTURA FOLCLÓRICA

AUTOR: Luiz Fabrício Mendes | Goldfield
SINOPSE: Quando a lenda termina, a aventura começa. Desde que a feiticeira Morgana Le Fay passou a perseguir e aniquilar os poucos descendentes do Rei Arthur, a Ordem de Excalibur encarregou-se de espalhá-los pelas colônias e países amigos do antigo Império Britânico incluindo o Brasil do Segundo Reinado.
Mais de 150 anos mais tarde, Aurélio Britto, garoto morador da periferia do Rio de Janeiro fã de futebol de botão e games de estratégia, é atacado na casa do avô por um misterioso homem-onça. O dono do antiquário da esquina, senhor Campbell, revela-se na verdade o milenar mago Merlin, prestes a apresentá-lo a uma arriscada jornada de herói: sobreviver às investidas dos seguidores de Morgana e reencontrar a espada Excalibur, desaparecida nas mãos da Dama do Lago há mais de mil anos.
Junto com a implicante Gui (e ai de quem chamá-la pelo nome inteiro, Guilhermina!), o fã de rock Gabriel, o pessimista Bruno e o primo deste, Junior além do avô Genaro é formado um pacto em torno de uma mesa de parquinho redonda visando o objetivo de restaurar o sonho de Camelot na pessoa de seu último herdeiro.

 

Embora poucos saibam, os mitos – na verdade, lendas – arturianos podem e devem ser considerados como folclore. Folclore é, literalmente, aquilo que deriva do conhecimento popular, sendo a justaposição de duas palavras inglesas folk (povo) somado a lore (saber).

O Legado de Avalon, um livro focado no público infanto-juvenil e pensado para este, tem como principal teor fantástico esse sincretismo folclórico, o que quer dizer o seguinte: há uma mistura entre conhecimentos culturais e fantásticos tanto brasileiros quanto celtas e cristãos, miscigenando os lugares, tradições e personagens lendários do folclore brasileiro com detalhes, ideias, objetos e personagens das lendas arturianas, pautado na percepção de Thomas Malory, autor de Le Morte d’Arthur.

Com essa ideia, Goldfield – pseudônimo do autor – traz para sua obra algo que falta, em larga escala, nas histórias brasileiras contemporâneas: ele introduz o Brasil, explora a nossa cultura e, ao mesmo tempo, acaba nos ensinando sobre nós mesmos e nosso povo. Por mais que isso não seja uma obrigatoriedade de nenhuma literatura, muito menos da nossa, deve-se destacar que esse sincretismo cumpre duas funções: (1) suscitar a curiosidade para aquilo que é nacional e, ao mesmo tempo, (2) previamente cativar o público já interessado em outras culturas.

Por vivermos em certo viralatismo, entendemos – muitas vezes – que o que vem de fora é melhor do que aquilo que há dentro, contudo, essa premissa não deve ser considerada verdadeira. Isso pode ser observado em uma livraria, cuja parte dedicada a livros estrangeiros é muito maior do que a de nacionais, além do público que se dirige a elas. No entanto, Goldfield engloba o estrangeiro e não esmaga o nacional, fazendo com que ambas as culturas confluam e dialoguem não só entre si, mas com o leitor. Isso é um mérito inegável da obra, posto que é bem elaborado, bem marcado e muito bem feito.

Esse norteador da obra vai se intercalando com alguns detalhes que deixam a desejar – como variantes vocabulares – e outros que surpreendem, como o conhecimento histórico e geográfico de lugares e pessoas. Aliás, conhecimento não falta, principalmente pela formação do autor.

Mais uma vez, reforça-se que o público-alvo da obra é o infanto-juvenil, sendo um ótimo exemplo de livro didático para apresentar as crianças, misturando a aventura dos personagens principais com conhecimentos de diversas áreas do saber, até mesmo português. Dessa maneira, considero essa uma obra que não pode faltar na formação colegial e literária das crianças brasileiras.

Contudo, há também pontos negativos que devem ser ressaltados. Por mais que seja compreensível a idealização de personagens aptos no saber de diversos conhecimentos nos momentos oportunos da narrativa (o que de fato gera pontos positivos na exposição fluída e não truncada das informações), isso se torna pouco verossímil e pouco carismático. O problemático disso é a não-identificação do leitor em formação, já que, pensando em alunos do ensino público brasileiro, eles não têm a possibilidade de conhecer tantas coisas como as apresentadas no livro, justamente por não ter tantas aulas ou ter uma formação completamente defasada. Por mais que a ideia seja estimular a busca por conhecimento, pode também ser negativo não retratar a realidade.

Outro aspecto negativo que chamou a atenção foi a escrita. Ela é uma escrita voltada ao público infanto-juvenil e uma obra produzida muitos anos atrás, o autor já obteve melhoras substanciais com o decorrer do tempo. Entretanto, há passagens muito truncadas e algumas formações de gerúndio não coesas, além disso, algumas palavras não encaixam bem nas locuções apresentadas. Esses detalhes, além de ser uma parte introdutória, fazem o princípio da narrativa uma leitura lenta, o que é normal em certa medida.

De toda forma, isso não fere nem um pouco os pontos positivos da narrativa e a importância dela na formação do pequeno leitor brasileiro, algo realmente necessário nos dias atuais (não necessariamente ler, mas se informar). É uma obra com vastas referências culturais, sejam nacionais ou mundiais, literárias ou históricas, e que abusa e se lambuza do clichê de aventuras. Essa é uma obra para crianças, mas, se alguém quiser aprender sobre Rei Arthur e o Folclore Brasileiro, chega mais sô

REFERÊNCIAS

MENDES, Luiz Fabrício de Oliveira. O Legado de Avalon. 1ª reimpressão. São Carlos: Compacta, 2018. 

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