RESENHA #109: A MAIS VIVA ARTISTA

AUTORA: PATTI SMITH
SINOPSE: acompanhamos uma Patti Smith prestes a completar setenta anos e precisando lidar com a perda de dois amigos queridos ― seu mentor, o músico Sandy Pearlman, e seu referencial artístico da vida toda, o escritor e dramaturgo Sam Shepard. O ano é 2016. Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos e Patti, na estrada, atravessa o país fazendo shows, deixando-se levar por sonhos e delírios, adentrando a bruma de uma espécie de mundo das maravilhas muito particular, onde a lógica do tempo não existe e os mortos podem falar. Nessas memórias, a autora do aclamado Só garotos nos leva por uma delicada e surreal jornada ao coração de um dos períodos mais turbulentos de sua trajetória.

Por vezes, temos de admitir nossa incapacidade. Às vezes, uma leitura se torna agradável ou não, cansativa ou não, porque simplesmente não entendemos ou não emergimos o suficiente naquela história; principalmente, quando essa história trata de uma figura, uma longa carreira de uma artista multifacetada. A leitura de O ano do Macaco, de Patti Smith, é exatamente isso: uma mescla do que eu não tenho conhecimento com um aprofundamento em diversas áreas da arte e da psicanálise.

Por ser um texto biográfico é importante conhecer um pouco da escritora, desde sua carreira literária até a musical; quanto mais a conhecermos, mais agradável o livro vai se tornar. O fato de eu não ter contato com sua obra, nem com sua trajetória, tornou O ano do Macaco um livro poético, mas que não vai além disso – para mim, leiga de toda uma trajetória que parece ser extremamente fantástica.

O positivo de ler uma biografia de um autor ou personalidade que você pouco conhece é a abertura para conhecê-lo; o lado negativo é que, por vezes, você pode ficar com sono (embora eu esteja cansada constantemente e possa não ser culpa da obra).

O ano do Macaco é um título baseado no calendário chinês. De acordo com a lenda, um grande imperador teria ordenado aos animais que fossem até ele para que marcassem a passagem do tempo no calendário. Os primeiros doze animais – tal como os meses de um ano – seriam escolhidos para demarcá-lo, o macaco foi um deles. Contudo, os animais não marcam o passar dos meses, mas sim dos anos. O ano de 2016 foi literalmente o ano do macaco para os chineses.

Dessa maneira, Patti acrescenta essa – e tantas mais culturas – em sua obra, remontando o fato de que o Macaco (nono símbolo do zodíaco) é um animal auspicioso, mas que pode, ao mesmo tempo, ser danoso, principalmente aos regidos pelo signo. E, assim, elenca os acontecimentos eleitorais do mesmo ano, a vitória de Trump como presidente americano e também as suas relações passadas e mortas.

Nesse jogo, ora poético e ora prosa simples, Smith complementa sua biografia com passagens literárias e irreais, ministrando uma dose de loucuras alicianas enquanto fervorosamente trabalha o inconsciente. Esse trabalho com o inconsciente se torna indispensável por conta da temática da obra, já que Patti Smith trabalha os maiores temorosos de todos os seres humanos: o tempo e a solidão.

São temores pois só nos entendemos como homens porque temos pessoas a nossa volta, como Aristóteles diz, o “homem é um ser político”, sendo assim, entende-se a necessidade do outro para compreender a si mesmo. Concomitantemente, há também o medo terrível da passagem do tempo, associado à velhice e à morte; o tempo é marcador – como o macaco também – e, por fim, é assustador pensar em tudo o que não vamos presenciar e o que “tem depois da morte”. O tempo, como marcador, é aquele que constantemente nos rememora disso.

Abarrotado de referências de poesia, música, literatura e arte em geral, Smith mostra uma gama de conhecimentos, por vezes, inesperados; construindo dentro da sua biografia quase uma ode à arte, muito mais do que a si mesma como protagonista. Na trama, ela é uma mulher perdida e confusa, a qual precisa de gritos do seu inconsciente enquanto todos a sua volta morrem. Ela é uma mulher de setenta anos: por mais viva que seja, sente o fim do seu tempo; essa é a parte mais sensível e crua da obra.

Por fim, pode-se dizer que ela busca palavras o tempo todo, na tentativa de expressar o que todos sentimos, mas não sabemos dizer. A sensação e o gosto amargo do tempo; a sensação e o gosto doce da vida vivida – claro que, dentro disso, há também os gêneros mais gregos e teatrais: a comédia e a tragédia, fazendo com que sua biografia deixe de ser gênero e passe a ser parte de um todo literário.  

REFERÊNCIAS

SMITH, Patti. O ano do Macaco. Tradução de Camila von Holdefer. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.