RESENHA #108: A HUMANIDADE E O HOMEM

AUTOR: Stephen King
SINOPSE: No meio da noite, em uma casa no subúrbio de Minneapolis, um grupo de invasores assassina os pais de Luke e sequestra silenciosamente o menino de doze anos. A operação leva menos de dois minutos. Quando Luke acorda, ele está no Instituto, em um quarto que parece muito o dele, exceto pelo fato de que não tem janela. E do lado de fora tem outras portas, e atrás delas, outras crianças com talentos especiais, que chegaram àquele lugar do mesmo jeito que Luke. O grupo formado por ele, Kalisha, Nick, George, Iris e o caçula, Avery Dixon, de apenas dez anos, está na Parte da Frente. Outros jovens, Luke descobre, foram levados para a Parte de Trás e nunca mais vistos. Nessa instituição sinistra, a equipe se dedica impiedosamente a extrair dessas crianças toda a força de seus poderes paranormais. Não existem escrúpulos. Conforme cada nova vítima vai desaparecendo para a Parte de Trás, Luke fica mais e mais desesperado para escapar e procurar ajuda. Mas até hoje ninguém nunca conseguiu fugir do Instituto.

O que você faria se pudesse salvar o mundo?

Essa é uma questão que pode não ser norteadora da obra, mas diz muito sobre a sua proposta. O fato de vermos constantemente tragédias acontecendo pode afetar a nossa percepção quanto ao que estamos esperando para o futuro; bem como sobre o que devemos fazer para mudar o destino cruel que possivelmente nos aguarda. Não importa o quê, se for salvar o mundo, certo?

A ideologia radical e extremista é constante na polarização atual e política. As pessoas impõem as suas opiniões sem ouvir o próximo, pressupõem realidades sem pensar em como a vida de cada um é única e as suas experiências e modos de agir também. Ninguém sabe, tendo a possibilidade de comer todos os dias, o que faria se não tivesse sustento o suficiente para comprar um pão.

Mas as pessoas acreditam que vão salvar o mundo e não importa o quanto isso custe, mesmo que leve a sua humanidade embora. Essa é a aposta primeva da nova obra de King, O Instituto.

O livro em questão é basicamente Stranger Things, desde as qualidades até os defeitos, no entanto, não compactua com a ode aos anos 80 e a exaltação de uma cultura anterior à atual. Na verdade, diversas referências contemporâneas se encontram no decorrer da história e mostram a diferença principal entre o seriado da Netflix e aquilo a que Stephen King alude.

O protagonista é Luke Ellis, um menino genial – ao dizer isso, digo literalmente –, cuja idade é de apenas doze anos e ele principia a narrativa disputando vagas nas universidades mais incríveis dos Estados Unidos. Ele quer explorar seus horizontes, o problema é que ele acaba confinado em um lugar nomeado como Instituto. Nesse espaço, eles não procuram as suas capacidades mentais brilhantes, mas sim habilidades pequenas de telepatia ou telecinesia.

Dessa maneira, a narrativa se desenrola. No entanto, antes de Ellis nos ser apresentado, conheçamos outro personagem que só vai aparecer realmente no final do livro: Tim Jamieson. As primeiras páginas são dedicadas a ele em específico, páginas com fatos contextualizadores e, a princípio, sem sentido; no momento em que Tim finalmente se torna interessante aos olhos do leitor, King muda o foco do enredo e ficamos quase até o fim só com Luke.

Confesso que, por mais que eu tenha gostado dos personagens, nenhum deles me cativou ao ponto de eu sentir algo, alguma afeição com seu sofrimento ou sua dor, no máximo, ficar chocada com as táticas de tortura serem utilizadas em crianças (embora seja verdade que nem isso fiquei). Isso ocorre porque os personagens desse livro, como Tim, que de fato tinha certo apelo e podia ser carismático com o público, não ganham dinamicidade e notoriedade o suficiente, focalizando mais Ellis – para o bem ou mal da trama.

Eu adoro narrativas mescladas, seja entre períodos temporais ou espaciais, o problema, no entanto, é que King não faz isso na sua trama, fincando os dois pés em apenas um lugar e, por conta disso, quando vai trabalhar a parte de fora, perde-se e muito. Há, claro, a frase jargão do livro que pode justificar isso “O Instituto, dizem, é como a máfia: quando você entra, não consegue mais sair”; contudo, isso não é o suficiente para justificar a permanência de um narrador em terceira pessoa.

Contudo, um ponto positivo – muito até – de seus personagens é que King se importa. O fato é: não existe personagem sem nome e sem história no decorrer da trama, todos eles possuem algo para chamar de seu. Embora não dê para lembrar todos os nomes até o final, é possível chamá-los de reais ou plausíveis, porque são construídos ao ponto de sabermos hobbies, nomes inteiros e onde moram. Ele não se limita a colocá-los em cena, ele justifica as suas ações sem dizer claramente como. Isso é o brilhantismo kingniano.

Na trama, entre os aspectos marcantes, há dois: a filosofia, visto que existe a relação com o bem para o meu versus o bem maior; e também a plausibilidade metafórica versus a cientificidade.

O primeiro aspecto compõe o cerne do romance do autor. Existe um jogo filosófico bem interessante que aponta para a direção dos limites da humanidade e da selvageria, fazendo uma mescla entre as duas concepções e mostrando que humanidade não é a bondade pressuposta no nome, mas sim uma mistura do que é bom e do que é ruim nela. Essa tensão dada na história enquanto crianças são testadas e viram cobaias é o primeiro ponto a se elogiar e muito na obra (muito embora outros livros já tenham trabalho isso, talvez a leitura do autor seja a melhor para um público mais jovem).

O segundo ponto importante e necessário – o que faz a história ganhar pontos – é a miscigenação entre científico e metafórico. King, no final do livro, fala sobre o seu leitor fiel, Russ, um assistente de medicina – e provável médico depois –, dando créditos a ele pela plausibilidade de suas tramas e, de fato, há isso sim na narrativa, como as cartas mencionadas em testes, o teste BDNF, coisas comentadas pelo o autor etc. Contudo, há também metáfora, ao menos até onde os meus conhecimentos prévios vão, ou seja, as luzes Stasi.

Para quem não sabe Stasi é a sigla para a polícia secreta alemã, considerada a rede de espionagem que teve maior participação do mundo, repleta de informantes e espiões e é a única Stasi que eu conheço. Eu preciso admitir que não faço ideia se existem as tais luzes stasi mencionadas no decorrer do livro, mas acredito que não existam justamente porque é a metáfora perfeita para o que está sendo trabalhado na narrativa – e dizer mais que isso seria spoiler.

Sendo assim, num confronto metafórico e científico, King tenta mesclar a realidade com a ficção, criando um mundo catastrófico plausível e real em relação às ocorrências e atos ficcionais do Instituto. No entanto, a sua plausibilidade maior mora nas ações humanas degradantes, horrendas e perigosas por uma causa que é sempre justa, sempre boa, sempre por um bem maior.

O ser humano é parte da humanidade, não?

 

REFERÊNCIAS

KING, Stephen. O Instituto. Tradução de Regiane Winarski. 1ª ed. Rio de Janeiro: Suma, 2019.