RESENHA #106: OS SONHOS DE UM VENDEDOR

 

AUTORA: Diana Wynne Jones
SINOPSE: Em O Castelo No Ar. Howl. Sophie e Calcifer estão de volta em uma aventura fantástica e surpreendente. Tudo começa com Abdullah. um jovem mercador de tapetes. Ele não é rico. pois sonha acordado tempo demais para ser próspero em seu negócio. Nessa vida imaginária que constrói. Abdullah é. na verdade. um príncipe. que foi seqüestrado ao nascer e acabou sendo adotado por um pobre mercador de tapetes. Um dia. um estranho aparece em sua tenda. oferecendo-lhe um tapete mágico por uma bagatela. Antes de ir dormir. ele coloca o dito tapete voador no topo da pilha de tapetes caros que usa como cama (assim. caso alguém tentasse roubá-los. teria de levá-lo junto). Quando acorda. Abdullah percebe que não se encontra mais em sua tenda. Está em um grande palácio. onde vê uma linda moça. filha do Sultão. Ela é a mulher dos seus sonhos e se chama Flor da Noite. Os dois se apaixonam e resolvem fugir para se casar em segredo. Na noite da fuga. Flor da Noite é carregada pelos ares por um gigantesco e terrível demônio. Abdullah não consegue segui-lo. e acaba sendo preso pelos guardas do Sultão. que acreditam que ele é o culpado pelo desaparecimento da moça. Decidido a resgatar a mulher de sua vida. o mercador conta com a ajuda de personagens atípicos no que se torna uma grande e divertida aventura — um tapete voador que tende a desobedecer a seu dono. um gênio da garrafa que sempre tenta fazer com que o desejo acabe da pior maneira possível. um soldado desertor egoísta. que o gênio garante ser a melhor pessoa para ajudar Abdullah a encontrar Flor da Noite. uma gata que consegue mudar de tamanho e seu filhote.

Embora o primeiro livro da série O Castelo Animado ainda seja o meu favorito e a minha opinião provavelmente não será mudada nem mesmo com o terceiro volume, o segundo livro não deixa a desejar quanto a enganar o leitor e fazê-lo se encantar com novos personagens.

Dessa vez, por mais que a narrativa nos leve de volta ao Castelo Animado, o protagonista é um vendedor de tapetes chamado Abdullah. Numa forma de recriar – ou homenagear – Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, um conto retirado da coleção As Mil e Uma Noites, Diana Wynne Jones nos surpreende com a expansão do universo que outrora conhecemos e traz diálogos ainda mais marcantes, principalmente, por causa do linguajar do protagonista e a maneira na qual se expressam os homens que vivem em Zanzib, fugindo um pouco de Ingary, o lugar de origem de Sophie e Howl.

Uma das coisas mais divertidas nesse segundo volume é como conhecemos melhor o universo da série, trazendo as areias do deserto, tapetes voadores e gênios – divididos em bons e maus – aliados a anjos, além de princesas, guerreiros errantes e animais mágicos. Além disso, também retomamos pequenos clichês de amor à primeira vista retirados justamente de algo que Wynne consegue fazer muito bem: contos de fadas aliados a realidade em que, no final das contas, as mulheres são capazes de planejar e cuidar de si mesmas.

A obra de Wynne Jones é fascinante, para mim, antes de tudo, por sempre demarcar a capacidade feminina de sobreviver a aventura e salvar o dia, por mais que tenha protagonistas masculinos que as auxiliam no processo. Elas são personagens que, ao contrário dos contos de fadas padrões e medievais, conseguem resolver por si mesmas os problemas que se colocam ou são alocadas por outras pessoas. Essa é, sem dúvida, a maior atribuição para o mundo infanto-juvenil dessa autora que é tão fascinante e tão pouco reconhecida no nosso país.

Os personagens – como de O Castelo Animado – são divertidos e acabam adentrando no enredo de maneira muito interessante, embora algumas situações me parecessem um tanto exageradas, até mesmo para o gênero. Abdullah é carismático e sensível, mas, ao mesmo tempo que tem ideias ótimas, acaba sempre desacreditando em si mesmo quando é colocado para baixo. Ele, sem sombra de dúvida, possui uma personalidade muito dispare ao do protagonista anterior, Howl, o que faz com que a química entre eles seja bem inusitada, tendo o único ponto em comum o lado extremamente sonhador.

Inclusive, esse também é o motivo para ele e Sophie terem uma relação muito distinta do padrão da protagonista, sempre espontânea e prestativa. Claro que, no final das coisas, como todo conto de fadas moderno, tudo acaba bem.

Outra personagem incrível é a princesa Flor da Noite. A princesa é um ponto alto no livro, porque ela é safa e também incrivelmente perspicaz, fazendo com que até criaturas poderosas a temam. Não espera ser salva para começar a colocar planos em ação e sempre tenta estar um passo a frente, após ser ludibriada por seu pai quanto aos homens que a cercariam.

Além de outros personagens novos e também antigos, há uma química muito boa entre cada um deles que vai nos levando a devorar as páginas do livro. Entretanto, de todos os aspectos apresentados, a contraposição de sonho e realidade é o que faz a obra ser delicada e tão interessante.

Por muitas vezes, Abdullah se questiona se a aventura que vive é real ou não, encontrando objetos mágicos, os homens de seus sonhos e também de seus pesadelos. Entre dois mundos, de ficção e de realidade, há uma mistura complexa entre o que era real na vida do vendedor de tapetes e o que era parte de sua imaginação, como o homem que havia o sequestrado e a princesa linda a que estava destinado.

Falando em destino, dentro da obra, ao contrário da trama anterior, ele é algo que parece ser inquestionável para os cidadãos das areias do deserto, mostrando contrapontos simples e muito importantes dentro do enredo entre os habitantes das duas regiões, Ingary e Zanzib. Wynne Jones mostra, a partir da simplicidade e de pequenos aspectos intrínsecos aos personagens – levando em conta as suas crenças –, como culturas podem ser diferentes entre si.

Essa perícia demonstra como a autora tinha consciência da obra e do universo que estava manipulando e trabalhando, trazendo uma construção praticamente impecável na hora de elaborar tanto o mundo quanto os personagens que nele vivem. Graças a essa perspicácia, somos levados a enganação, tanto quanto os desejos realizados pelo gênio sempre se tornam algo ruim ou quase isso.

De maneira bem simplória, Wynne Jones nos demonstra que se quisermos realizar os nossos sonhos, definitivamente, precisamos lutar por eles e não recorrer a mágicas. Por isso, diversas vezes, os pedidos de Abdullah para o gênio se viram contra ele próprio, trazendo não somente lições importantes como um refinamento cômico, algo esperado para uma trama voltada para o público mais jovem.

O final também pode ser doce e, talvez, as revelações sejam um tanto surpreendentes, já que os personagens que amamos finalmente aparecem. Divertida, simples e muito profunda, a obra de Wynne Jones é capaz de encantar gerações e fazer com que os sonhos de um vendedor de tapetes ultrapassem fronteiras.

 

REFERÊNCIAS

JONES, Diana Wynne. Castle in the Air. New York, NY: Greenwillow Books, First Harper Trophy edition, 2001.