RESENHA #105: UM DELÍRIO INFANTIL

AUTORA: Jill Thompson
SINOPSE: Os Pequenos Perpétuos v. 01: A pequena Delirium está perdida! Barnabás, seu cãozinho favorito e protetor, já percorreu o mundo desperto em busca de sua pequena princesa, mas não teve sucesso. Sua única alternativa é percorrer os estranhos reinos dos outros Perpétuos, os misteriosos irmãos de Delirium, para descobrir se eles sabem o paradeiro de sua dona… Atendendo às demandas dos fãs do mundo inteiro, Jill Thompson finalmente revisita os Pequenos Perpétuos – versão infantil dos personagens de Neil Gaiman que criou para a série Sandman – e torna os sonhos de todos uma realidade. Esta edição inclui ainda esboços originais e os segredos por trás da história. | Os Pequenos Perpétuos v. 02: As versões diminutas dos Perpétuos criados por Neil Gaiman para a série Sandman estão de volta! Para ajudar a pequena Desespero a se livrar da tristeza de uma vez por todas, Delirium decide fazer uma festa para sua sisuda irmã e convida seus irmãos, Sonho, Destruição, Desejo, Destino e Morte! Mas não vai ser uma festa qualquer…Porque, quando quem organiza a festa é a personificação do delírio, existe uma grande chance de tudo ser tão chocante e imprevisível como a cor do cabelo de Delirium!

A obra The Sandman, quadrinhos roteirizados por Neil Gaiman, é um sucesso contemporâneo que extrapola a própria obra. Dos setenta e cinco volumes iniciais, diversos spin-offs, quadrinhos curtos e longos surgiram. Um dos mais fofos, delicados e voltados – literalmente – para o público infantil é Os Pequenos Perpétuos, escrito por Jill Thompson.

Esse spin-off voltado para crianças de todas as idades possui dois volumes: Os Pequenos Perpétuos e A Festa de Delirium. Ambas as narrativas exploram o universo dos Perpétuos, também chamados de Sem Fim, os quais são personificações dos aspectos intrínsecos do ser humano. Eles são sete irmãos que surgiram antes mesmo dos deuses e morrerão muito depois deles, quando os homens já não existirem mais. Neil Gaiman, em The Sandman, destaca Morpheus, o Sonho.

Em inglês, na língua original dos quadrinhos, torna-se um pouco mais interessante falar sobre esses irmãos, visto que todos os sete – aspectos intrínsecos – começam com a letra D e, em ordem de nascimento, são: Destiny (Destino), Death (Morte), Dream (Sonho), os três irmãos mais velhos. Destruction (Destruição), o quarto dos irmãos a surgir. Desire (Desejo) e Despair (Desespero) são irmãos gêmeos, logo, passaram a existir ao mesmo momento. Por fim, a mais importante de Os Pequenos Perpétuos e a última das irmãs: Delirium (Delírio).

Delirium é a protagonista de A Festa de Delirium, como é extremamente importante em Os Pequenos Perpétuos. Cada uma das narrativas trabalha diferentes aspectos de um mesmo caminho, muito embora sejam da mesma autora e utilizem uma base narrativa comum para histórias infantis. Para ler cada uma das tramas, você não precisará da outra como base por serem independentes entre si.

O primeiro a ser lançado pela editora Panini, em fevereiro de 2014, foi Os Pequenos Perpétuos. A trama se centraliza em Barnabas, o cão de Delirium, que perde sua dona – ou melhor, ela se perde dele. Depois disso, desesperado com o desaparecimento dela, o cão segue em uma busca para encontrá-la, passando por todos os outros seis reinos. De cada um dos Perpétuos, ele recebe um presente que o ajudará nessa jornada.

Essa narrativa trabalha uma ideia muito comum nas histórias de contos de fadas desde muito tempo, encontradas em histórias como João e Maria, por exemplo, que é a perda, o afastamento do lugar seguro – ou de alguém importante – e, principalmente, no meu ponto de vista, os limites da independência. A partir das narrativas infantis ou de contos de fadas, as crianças começam a construir, em sua mente, percepções de mundo e se inserem nelas, logo, em narrativas em que há algum personagem que sumiu e outro que precisa encontrá-lo e está preocupadíssimo, a criança é capaz de se pôr no lugar, tanto do personagem desaparecido quanto do personagem preocupado, porque as emoções do texto – no caso, quadrinho – ultrapassam as fronteiras da realidade, onde adultos se perdem e crianças se sentem em casa.

Logo, a criança é capaz de, ao lado de Barnabas, enfrentar os obstáculos, encontrar os outros perpétuos, bem como buscar por Delirium, a amiga perdida. Além disso, encontra um mundo novo com muitas possibilidades para explorar.

A outra narrativa é A Festa de Delirium. A protagonista da trama é ninguém menos do que a própria Delirium, descrita como uma personagem – desde Os Pequenos Perpétuos – pura e perdida em um mundo de fantasias e loucuras, lugar que tudo e nada fazem sentido. Entre todos os irmãos, na minha concepção, é a mais autêntica, livre de qualquer amarra porque ela é literalmente delírio.

Essa edição foi lançada em março de 2014, um mês depois da primeira, e é tão delicada quanto, embora, acredito eu, seria possível dizer, em uma pequena ousadia, que é até mais delicada. A narrativa da busca por alguém perdido permanece, porém, não é uma perda física, mas emocional. A festa de Delirium é para Desespero, sua irmã mais velha e gêmea de Desejo, visto que a jovem delirante percebeu que jamais vira um sorriso no rosto dela. Logo, para tentar animá-la, ela faz uma festa surpresa com todos os seus irmãos, presentes e bolo. Apesar de todas as tentativas, somente quanto Delirium não espera é que é capaz de alcançar o seu objetivo – tudo por conta da natureza da irmã.

Como já dito, ao contrário da primeira, essa narrativa está ligada à busca não por uma perda física dos personagens, mas por uma perda emocional, de acordo com a perspectiva de Delirium. Jill Thompson faz um trabalho muito interessante emaranhando ambas as narrativas, pois elas trabalham – nos dois níveis possíveis – a questão da perda, da busca e do encontro, além da necessidade do próprio tempo e da paciência.

Outro fator muito interessante, prático e bem encaixado é a própria protagonista/ objeto de busca de ambos os quadrinhos. A personagem Delirium é aquela que mais se aproxima de uma criança, pois está no meandro da realidade e da ficção e a vê como se fosse possível e real. Havia diversos personagens possíveis para trabalhar dentro dos Perpétuos, porém a escolha acertada de Jill faz com que a história se torne ainda mais palpável e mais perceptível para uma criança, principalmente, por ser capaz de se encaixar e se identificar com a personalidade e o pensamento da pequena – e louca – Delirium.  

Na minha concepção, como uma história infantil, Jill Thompson faz um excelente trabalho. Inclusive, não é preciso ler The Sandman para entender a narrativa universal trabalhada dentro de ambos os quadrinhos. Ela é leve, coberta de pequenas reviravoltas – que, para um público adulto, podem ser óbvias – e com personagens bem distintos do usual, além de carismáticos. A narrativa também é uma possível introdução – simplificada – ao universo criado por Neil Gaiman.

Como bônus, no final da edição A Festa de Delirium, para os quadrinistas e desenhistas que se interessarem pelo trabalho da Jill Thompson, é possível encontrar um guia sobre seu processo artístico. A Anatomia de uma página pintada explica passo-a-passo sobre a questão da pintura para Jill, com as palavras dela.

Mas por que isso seria interessante? Para quem não sabe, Jill Thompson é uma desenhista de quadrinhos e criadora de duas obras Minha Madrinha Bruxa e Magic Trixie, recebendo múltiplos prêmios Eisner durante a sua carreira. Ela trabalhou com diversos nomes grandes da indústria e, também, narrativas extremamente conhecidas como Mulher Maravilha.

 

REFERÊNCIAS

BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. 16. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

THOMPSON, Jill. Os Pequenos Perpétuos, volume 01. São Paulo: Panini Books, 2014.

______. Os Pequenos Perpétuos e a Festa de Delirium, volume 02. São Paulo: Panini Books, 2014.