RESENHA #104: AO NARRADOR POÉTICO

 

AUTOR: Antonio Skármeta
SINOPSE: Antonio Skármeta nos revela a incrível história da amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda e Mario Jiménez, seu carteiro em Ilha Negra. Inicialmente chamada de Ardente paciência.

Se já conhecemos o narrador não-confiável de Nabokov, agora conheceremos o narrador poético de Antonio Skármeta. A narrativa não é embalada por um personagem-narrador, como encontraríamos em Lolita, por exemplo, porém, o narrador é a personificação das duas entidades trabalhadas no livro, Mario e Neruda, em uma sonância onisciente. As sequências alfabéticas de seus nomes – nome e sobrenome, respectivamente – são como as consecutivas sequências poéticas dentro do livro.

Com essa prosa poética que mais lembra poesia, Skármeta dá à luz a história de Mario Jimenéz, um menino de dezessete anos que não se reconhece em seu pai e em sua própria criação como filho de pescador, logo, busca a arte, desde cedo, a partir do cinema, com o intuito de achar alguma resposta à sua pergunta não-pronunciada.

Pergunta essa que se reflete muito mais no nome original da obra do que o nome atribuído a partir da adaptação italiana e que ficou muito mais conhecido. O Carteiro e o Poeta, na verdade, chamava-se Ardente Paciência. Confesso que prefiro muito mais o título originário, pois já demonstra com duas palavras o quão poética a narrativa vai se desenvolver diante de seus olhos. Mario é um homem ardente que passa a história esperando a voz poética que vive tanto dentro de si quanto de Neruda.

Além disso, ao colocar essas duas palavras juntas, Skármeta atribui certo paradoxo, pois a paciência é vista como algo sereno, frio e calculista enquanto o adjetivo nos passa uma sensação completamente oposta. Como esses opostos se encontraram e ainda fizeram sentido? Obviamente, é poesia. Obviamente, é Mario e Neruda.

Essa poesia é quente e sublime, vive dentro de Mario, um jovem sedento por experiências novas, sejam elas ministradas com aulas sobre metáforas ou nos braços de Beatriz. Por sua vez, Pablo Neruda já é um senhor de idade, cansado e com a esperança morna de receber um Nobel, ainda que, em partes da narrativa, desdenhe dele. Eles são, em certa medida, opostos como o título: um é ardente e o outro, paciente. Contudo, dentro dessa mescla em que os dois personagens se conhecem e reconhecem, podemos observar que há uma mistura que se desenvolve dentro da própria forma de escrever o livro. Ora, Skármeta parece um jornalista – o que de fato era –, ora é somente um poeta. O que é mais paciente que um jornalista esperando um furo? O que é mais quente que um poeta esperando encontrar sua musa?

Nesse passo poético e, algumas vezes, direto, desde o título até a última frase do livro, embebedamo-nos com figuras de linguagem que alcançam o coração de qualquer leitor ávido por elas. Como Neruda, talvez em sua homenagem, o autor consegue atribuir a cada fragmento um duplo ou triplo significado, pois a poesia se ressignifica enquanto mensagem.

Não é à toa que temos dois personagens centrais com profissões tão importantes. O primeiro é o carteiro, ou seja, aquele homem que entrega mensagens em formato de carta ou telegrama. O segundo, por sua vez, é o poeta. Mas quem é o poeta? O poeta não seria aquele que transforma o mundo em mensagem plausível? Que nos entrega, à sua maneira, um recado, uma passagem ou uma ideia? Os dois são lados de uma mesma moeda, pois é a partir deles que recebemos as mensagens que as pessoas e o mundo nos mandam.

Essas mensagens constantemente se tornam formas vivas e pulsantes dentro do livro, pois há minúcias sobre o amor, o erotismo, a família, a política, o contexto social da época, mas, principalmente, sobre uma amizade firmada entre duas figuras distintas das demais.

O contexto social da época dá certa veracidade ao livro que nos faz questionar se de fato tudo aquilo ocorreu, visto que as datas históricas são equivalentes ao desenvolvimento da política chilena. Inclusive, o prólogo já nos passa essa sensação ao falar da personagem Beatriz, como uma figura real que conheceu Skármeta durante a produção de sua história, que parece viva e que realmente conversa com o autor, o qual se lamenta de sua pequena produção.

Além do prólogo, tem-se o final que é extremamente ambíguo, pois não se sabe quem é o narrador do epílogo: se é o narrador onisciente da história, outro personagem ou se é o próprio Skármeta. Logo, somente consigo me questionar até que ponto é confiável o narrador poético. Mas por que surge essa questão? Porque a sua poesia nos faz ficar, em alguns momentos, perdidos a partir de seu desenvolvimento e pelo uso contínuo de figuras de linguagem – o que, ao contrário da maioria das histórias, é muito bom, já que é uma trama que nos investiga inconscientemente, seja na nossa forma de ver política ou na nossa forma de ver a arte poética.

Todos acreditam que é possível mesmo ter ocorrido essa trama? Essa resposta é subjetiva para cada um, tenho certeza.   

Entretanto, como nem tudo são rosas e camélias que cheiram a beleza pura da poesia, tem-se um ponto bem incômodo: as figuras femininas, principalmente, dona Rosa, a viúva. Não acredito que eu possa julgar fortemente esse aspecto, pois é uma trama bem antiga e em um país que ainda se desenvolvia politicamente, porém, o tratamento quanto à ideia da sogra, tão popular, torna-se muito caricata e, ainda que tenham muitas cenas em que ela esteja certa, há também muitas cenas que a depreciam como personagem por ser simplesmente a sogra. O estereótipo da menina do balcão do bar, da sogra e da mulher recatada aparecem, o que se torna um pouco incômodo e, infelizmente, faz com que a obra, que poderia ter sido mais, não seja.

Entretanto, esse é um aspecto do livro que é difícil de ser julgado, pois o seu tempo e a sua ênfase não tocam em nenhum momento sobre a figura feminina, ainda que Beatriz seja o anseio desde o início do jovem carteiro. O que toca é a descoberta da sensualidade e da sexualidade, muito bem representada em uma prosa que mescla o poético e o vulgar de maneira magistral.

Há também outro aspecto que, acredito eu, possa incomodar. A narrativa parece ser muito apressada, mas não é. A questão mais interessante é que a narrativa e a prosa se complementam, pois a prosa – imitando em certa medida a poesia – diz sem necessariamente dizer e diz de maneira que você pode entender de uma ou duas ou três formas, enquanto, por outro lado, a trama em desenvolvimento faz o mesmo.

Ela é, como eu já mencionei, uma história que parece muito rápida, apressada em ser contada, porém, ela é contada em pedaços, como a poesia que mostra pedaços do mundo. Você só precisa encaixar cada um desses pedaços. Esse é um lado tanto positivo quanto negativo do narrador poético que permanece eterno.      

 

REFERÊNCIAS

SKÁRMETA, Antonio. O Carteiro e o Poeta. Tradução de Beatriz Sidou. 27ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2017.

Biografía: Pablo Neruda. <https://fundacionneruda.org/biografia/>, consultado em 27/12/2017, às 05:00hrs.