RESENHA #103: UM ROMANCE ARREBATADOR

 

AUTORA: Jane Austen
SINOPSE: Poucos romancistas conseguiram transmitir as sutilezas e nuances de seu próprio meio social com a inteligência e a perspicácia de Jane Austen. Em Orgulho e preconceito, ela nos presenteia com personagens memoráveis, como a jovem Elizabeth Bennet, que se julga desprezada pelo rico e orgulhoso Mr. Darcy, e começa a se interessar pelo militar Wickham. Nesta comédia de costumes, a escritora inglesa mostra os perigos do julgamento à primeira vista e evoca as amizades, fofocas e vaidades da classe média provinciana.

Suspirar por um personagem literário é muito comum; espelhar-se em uma protagonista destemida mais ainda; buscar uma relação entre esses dois personagens, cuja ultrapassa gerações é algo que muitos escritores tentaram e ainda tentam, mas poucos conseguem essa façanha como Jane Austen conseguiu.

Confesso que meu tipo de literatura preferida foge e muito da temática apresentada por Jane Austen. A minha preferência por narrativas de aventura e magia é muito clara em quase todos os textos produzidos por aqui, mas há algo em Orgulho e Preconceito que vence e quebra todas as minhas barreiras quando se trata de relações românticas.

Ainda que eu possa dizer que não é esse o fator principal, aquele que mais chama a minha atenção na obra à primeira vista, falá-lo seria uma mentira e uma verdade ao mesmo tempo, pois ele definitivamente não é o cerne – mas o é, ao mesmo tempo. A questão é que a autora consegue entrelaçar magistralmente questões da sociedade de seu tempo, do machismo escancarado e do romance. Por causa disso, eu definitivamente não consigo escolher um dentre os aspectos elencados em seu romance, bem como não consigo separá-los em caixinhas, já que constroem o todo narrativo.

A sociedade de seu tempo tanto me encanta quanto me desagrada, porque tenho um fascínio quase que natural para com sociedades que prezam mais o convívio social e, em contrapartida, é impossível não me irritar, da mesma forma, ao ver como as mulheres eram – embora ainda sejamos – rebaixadas diante da figura masculina, como seus direitos jurídicos e civis eram inferiores.

Nós mudamos muito, claro, e crescemos bastante durante esse tempo. Ao reler o livro de Austen, eu percebo como conquistamos coisas. Assim, noto como Jane Austen era uma das autoras mulheres, desculpem a redundância, cuja luta nos alcançou e permanece através da palavra escrita, mesmo antes de nascermos, alguém estava buscando a nossa liberdade cívica.

Definitivamente, como ocorre com Emily Brontë, há uma perspicácia feroz e uma inteligência arrebatadora por trás desse romance que pode ser lido tanto como uma história de amor quanto uma crítica política. Há em Austen a sagacidade para interpretar o mundo em que vivia (quase que imparcialmente), desde as pessoas que observava em seu entorno até os julgamentos para com os outros, as rígidas regras de etiqueta e a polidez fajuta.

Além de percebê-las e interpretá-las, ela ainda as escrevia magistralmente. Uma realidade que se marcava e se registrava em cada página; uma possibilidade no mundo real, porque os seus personagens são extremamente plausíveis. Quem não conhece aquela pessoa que deseja ascensão social e riquezas? Quem não conhece alguém que elogie consecutivamente alguém sem perceber as mazelas de caráter? Quem não conhece alguém impulsiva o suficiente para se jogar em um romance com alguém que não é tão confiável? Quem não conhece alguém que não tem noção de etiqueta? Ou alguém que seja preconceituoso e orgulhoso?

O interessante de Austen é que, antes de ver as qualidades de seus personagens – com exceção de Jane, claro –, eu consigo ver claramente os seus defeitos. Cada uma das personas possui uma característica própria, uma marca de ciúme, inveja ou julgamento específicos com o seu desenvolvimento narrativo, inclusive, até mesmo a ingenuidade – o qual não é considerado tão ruim assim – é visto como um defeito de Jane e Mr. Bingley no final.

O que dá para perceber é que tudo que é demasiado na personalidade de cada um é negativo e, de fato, tudo em demasia pode vir a se tornar um problema. Mary é muito estudiosa, mas ao mesmo tempo sem traquejo social; Lizzy é extremamente feroz em suas opiniões, ainda que muito jovem, e isso causa diversas desavenças com muitas pessoas no decorrer da narrativa; Jane é inocente demais para com as maldades do mundo e isso a faz quase perder o futuro marido e ficar depressiva; Lydia é impulsiva além do limite e acaba se casando com alguém que, em breve, desprezará; Kitty, a última das filhas e não menos importante, é extremamente influenciável e, por conta disso, não assume uma personalidade própria e precisa se readaptar ao mundo quando perde a sua inspiração de ser

Cada uma das irmãs, umas menos que outras, possui um arco narrativo o suficiente para olharmos como há múltiplas visões femininas a respeito de amor, de conforto e de zelo, como a própria melhor amiga de Lizzy, Charlotte, a qual possui um final de acordo com as suas necessidades e se sente satisfeita com isso.

Os personagens masculinos funcionam da mesma forma, contudo, com o agravante de que, por deterem as posses e o dinheiro, compreendem-se como um centro de poder sobre as mulheres, com exceção de Mr. Bingley que, ingênuo demais e apaixonado ao extremo, torna-se mais uma marionete na mão daqueles que gosta do que realmente alguém que se compreende como força masculina de poder. O caso é que tanto Mr. Darcy quanto Mr. Collins e até mesmo o querido Mr. Bennet configuram-se dessa maneira.

Os mais visíveis são Mr. Darcy e Mr. Collins, os quais se colocam em tão alta conta que não creem quando Lizzy expressa suas opiniões acerca deles. Darcy só é passível ao amor que dedicamos a ele por sua mudança no decorrer da narrativa e Mr. Collins – como diz Austen – passou por tantas desventuras que não é de todo culpa sua ser daquele jeito, embora pudesse mudar, não o faz porque acredita, religiosamente, estar no seu direito.

Além da força das personalidades que dão intensidade a obra, as relações existentes entre os personagens são riquíssimas e cheias, principalmente para o seu tempo, repletas de reviravoltas. Há algo em Orgulho e Preconceito que é incrível e também muito realístico no tempo de Austen: a posse de terras para o herdeiro masculino mais próximo.

Mulheres não possuíam direitos de terem terras após a morte dos pais e esse é o alvo da maior crítica na narrativa, sendo enfatizado a todo momento e, por consequência, é o que desespera a Mrs. Bennet para que suas filhas consigam arranjar maridos: não é porque ela queria se ver livre das filhas, como é percebido durante a obra, mas porque queria vê-las bem.

A personagem é descrita muitas vezes como enfadonha, exagerada e nitidamente sem classe ou trejeitos sociais, no entanto, é inegável que todo o seu esforço é para que suas filhas não passem necessidades. Isso porque ela sabia que suas filhas ficariam sem casa e sem nada se não conseguissem casar e, acredito eu, nada pode soar mais desesperador para uma mãe do que ver qualquer criança sua passando por problemas.

Claro que essa é uma pequena nuance do texto que pode passar despercebida a olhos menos atentos, mas não é menos importante, como o amor paternal do Mr. Bennet para com Elizabeth, sua filha favorita, cujo não aceita um casamento – para ela – sem amor e lhe dá total autonomia para escolher seu pretendente.

Inclusive, autonomia essa que muitos não possuíam por diversos motivos, pois aquela era uma sociedade que o poder, as terras e as riquezas valiam mais do que qualquer afeição e casamentos arranjados eram muito comuns, tanto que não há qualquer estranhamento na obra quando falam da relação da filha de Lady Catherine e Mr. Darcy.

Não menos importante que todas as críticas em relação à sociedade inglesa do tempo de Austen, há o romance e há personagens que verdadeiramente amam. Mr. Bingley e Jane são encantadores, muito delicados e trazem aspectos que os unem e os separam: ambos são inocentes, mas, ao contrário de Charles, Jane é tímida demais para demonstrar seus sentimentos.

Em relação a Elizabeth e Darcy, podemos encontrar mais semelhanças em seus defeitos do que em suas qualidades, fazendo com que haja confrontos por causa de suas personalidades fortes em quase todos os momentos que se encontram no mesmo lugar. Há, gradualmente, o desenvolvimento deles; sem um amor explícito e ligeiro, sem um amor corrido e que cresce absolutamente do nada, a autora de Orgulho e Preconceito nos mostra um romance arrebatador – não por sua velocidade de execução, mas pela força dentro dos personagens e na própria construção narrativa, inclusive, para mim, essa é uma das diferenças mais essenciais entre Austen e outros autores do gênero.

Em relação a edição da Nova Fronteira, há alguns problemas de concordância frasal e de digitação, os quais atrapalharam um pouco o fluxo da leitura em certas partes, contudo, confesso que a tradução de Lúcio Cardoso me encantou mais do que a última que experienciei. A capa, sem sombra de dúvida, é muito bonita e a edição – como um todo – é bem caprichada, há motivo para orgulho, mas nenhum para preconceito.

 

REFERÊNCIAS

AUSTEN, Jane. Orgulho e Preconceito. Tradução de Lúcio Cardoso. 20ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.